Jornal O Globo
Uma operação policial no Nepal resultou, em março de 2026, na acusação de 32 pessoas por crimes contra o Estado e organização criminosa, no mais recente desdobramento de um esquema de fraudes em resgates de helicóptero em regiões de alta altitude. Nove suspeitos foram presos e os demais estão foragidos, segundo informações do jornal The Kathmandu Post. Caso sem precedentes: lobo invade área comercial na Alemanha, fere mulher e força autoridades a decidir entre soltura ou abate Lei que permite guarda compartilhada em caso de divórcio entra em vigor no Japão As acusações atingem operadores de resgate aéreo, médicos, administradores hospitalares e empresas de turismo, revelando a dimensão de uma rede que, segundo as autoridades, atuava há anos manipulando evacuações médicas para obter reembolsos inflacionados de seguradoras estrangeiras. Como funcionava o esquema O sistema fraudulento se aproveitava de um serviço essencial no Nepal: o resgate de helicóptero em grandes altitudes, frequentemente utilizado para salvar turistas em trilhas no Himalaia. A prática criminosa consistia em simular emergências médicas para acionar evacuações desnecessárias. De acordo com a investigação, havia dois principais métodos. Em um deles, turistas eram convencidos a fingir sintomas após trilhas longas, como a caminhada até o Everest Base Camp. Em outro, guias e funcionários de hotéis exageravam ou induziam sintomas de mal de altitude, inclusive com uso indevido de medicamentos e ingestão excessiva de água, para justificar resgates urgentes. Após o resgate, hospitais registravam internações fictícias ou inflavam diagnósticos, enquanto empresas enviavam cobranças multiplicadas às seguradoras, como se cada passageiro tivesse sido transportado individualmente. Rede estruturada e pagamentos em cadeia A fraude envolvia uma cadeia coordenada de comissões. Hospitais repassavam entre 20% e 25% dos valores às empresas de trekking e operadores de helicóptero. Guias turísticos também eram beneficiados, e, em alguns casos, turistas recebiam incentivos financeiros para participar do esquema. Os números impressionam: entre 2022 e 2025, foram identificados 4.782 pacientes estrangeiros atendidos em hospitais investigados, sendo 171 casos confirmados como fraudulentos. Apenas um hospital recebeu mais de US$ 15,8 milhões relacionados às atividades suspeitas. Empresas de resgate também aparecem com cifras elevadas, com pedidos de reembolso que ultrapassam US$ 10 milhões em alguns casos. Falhas de fiscalização e investigações anteriores O esquema já havia sido exposto pelo The Kathmandu Post em 2018, levando o governo a criar uma comissão de investigação e propor reformas. Apesar de um relatório de 700 páginas e recomendações para controle mais rigoroso, as medidas não foram efetivamente implementadas. Segundo o chefe do Departamento Central de Investigação (CIB), Manoj Kumar KC, a falta de punição permitiu a continuidade das fraudes. “Quando não há ação contra o crime, ele prospera”, afirmou ao jornal. A investigação atual foi reaberta em setembro de 2025, após nova denúncia apresentada por um grupo civil. Dificuldade de controle internacional Um dos principais fatores que favorecem o esquema é a dificuldade de verificação por parte das seguradoras internacionais. Em regiões remotas do Himalaia, com comunicação limitada, muitas evacuações ocorrem antes que as autoridades sejam notificadas. Além disso, seguradoras dependem de empresas locais para validar documentos, que, muitas vezes, fazem parte do próprio sistema fraudulento. Imagens de câmeras de segurança reunidas pela polícia mostram turistas supostamente em estado grave consumindo bebidas em cafés, enquanto seus prontuários indicavam internações hospitalares. Impacto para o turismo no Nepal A investigação levanta preocupações para toda a indústria de trekking no Nepal, que depende fortemente do turismo internacional. Autoridades agora enfrentam pressão para implementar mecanismos de fiscalização mais rigorosos e restaurar a credibilidade do setor. Especialistas apontam que o desfecho judicial e a aplicação de penalidades efetivas serão determinantes para conter o esquema. Com a formação de um novo governo no país, cresce a expectativa sobre mudanças concretas no sistema.
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