Jornal O Globo
A dor durante a relação sexual ainda é uma queixa silenciosa entre muitas mulheres, especialmente no período da menopausa, e, não raro, acaba sendo naturalizada. Especialistas, no entanto, alertam que o desconforto não deve ser encarado como parte inevitável dessa fase da vida. Há causas bem definidas e, sobretudo, possibilidades de tratamento que podem devolver qualidade de vida e bem-estar. Sabrina Parlatore relata ganho de peso na menopausa; saiba por que emagrecer é um desafio Por que a menopausa pode causar insônia? Entenda após relato de Flávia Alessandra De acordo com a ginecologista Patricia Magier, as mudanças hormonais típicas desse período estão entre os principais fatores por trás do problema. "A queda dos níveis hormonais, principalmente do estradiol, causa uma série de alterações na mucosa vaginal. Essa região se torna mais seca, menos elástica e mais sensível, o que torna o ato sexual doloroso e afeta diretamente o prazer", explica a especialista. Além do impacto físico, a dor pode desencadear uma redução do desejo sexual, somando-se a outros sintomas característicos da menopausa. A ginecologista Ana Paula Fabricio destaca que o estrogênio exerce funções que vão além da reprodução. "Ele participa da lubrificação vaginal, da vascularização da região íntima, da resposta sexual e até da disposição geral. Durante a transição menopausal, sua redução leva a ressecamento vaginal, dor na relação (dispareunia), menor lubrificação e menor engajamento espontâneo no sexo. Já a testosterona, embora em menor quantidade nas mulheres, também influencia o desejo. A queda gradual ao longo dos anos pode reduzir a motivação sexual e a sensação de prazer", diz. O quadro pode ser ainda mais amplo. Sintomas como cansaço persistente, alterações de humor e perda de interesse em atividades cotidianas também merecem atenção clínica. "É preciso ficar atentos que o cansaço prolongado, acompanhado de perda de interesse em atividades normais, tristeza, irritabilidade, mudança de peso e diminuição do desejo sexual pode ser um sinal para uma investigação de uma depressão clínica", explica o médico Nélio Veiga Junior. No nível fisiológico, a redução do estradiol pode levar à chamada atrofia genital, condição que fragiliza os tecidos vaginais e compromete a lubrificação natural. "Além da dor, é comum o aparecimento de coceira, ardência e até infecções recorrentes, já que o ambiente vaginal se torna mais suscetível a irritações", detalha a Dra. Patricia. "A mulher muitas vezes sente que perdeu vitalidade na região íntima, e isso impacta não apenas a vida sexual, mas também a autoestima e a qualidade de vida", acrescenta a ginecologista. "É fundamental entender que o envelhecimento não precisa vir acompanhado de sofrimento. Hoje temos ferramentas que restauram o conforto e a confiança da mulher", observa. Entre as alternativas terapêuticas, estão desde medidas mais simples até abordagens tecnológicas. Segundo a especialista, os tratamentos podem incluir hidratação vaginal contínua, uso de cremes à base de ácido hialurônico e terapia hormonal local. Em alguns casos, o laser íntimo também pode ser indicado. "Essa tecnologia vem se destacando entre as opções mais modernas e seguras. O laser íntimo é um procedimento indolor, realizado em consultório, que estimula a regeneração dos tecidos e melhora a circulação local. Ele devolve vitalidade à mucosa, melhora a lubrificação, a elasticidade e, consequentemente, o prazer", relata a médica. "É um recurso muito querido na nossa clínica justamente porque devolve à mulher a sensação de bem-estar e autoconfiança", afirma a Dra. Patricia. Outras abordagens também podem ser consideradas, a depender do quadro clínico. "Os estudos já evidenciam que a terapia hormonal tem um impacto positivo na qualidade de vida de mulheres com sintomas climatéricos severos e melhoram os fogachos e episódios de suores noturnos, melhorando também a qualidade do sono dessas mulheres", pontua o Dr. Nélio. "Terapia hormonal (quando indicada), tratamentos locais com estrogênio vaginal, laser fracionado CO₂ para atrofia vulvovaginal, exercícios do assoalho pélvico, psicoterapia sexual e ajustes de estilo de vida podem ser indicados. A escolha depende da avaliação médica, do histórico individual e das preferências de cada mulher", reforça a Dra. Ana Paula. Apesar das opções disponíveis, o principal entrave ainda é o silêncio em torno do tema. "Muitas mulheres deixam de procurar ajuda por vergonha ou por acreditar que o desconforto é parte inevitável da menopausa. Mas sentir dor não é normal. Falar sobre isso é um ato de coragem e autocuidado. Hoje, a medicina oferece recursos seguros e eficazes para tratar esse sintoma e recuperar uma vida sexual saudável", enfatiza a Dra. Patricia. "Qualquer mulher que sente dor durante a relação deve procurar um ginecologista. Há soluções capazes de transformar essa fase em um novo começo, com mais conforto, prazer e qualidade de vida", finaliza.
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