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Síndrome de Fortunata: entenda a atração por pessoas comprometidas
Jornal O Globo

Síndrome de Fortunata: entenda a atração por pessoas comprometidas

Personagens que atravessam séculos continuam ecoando em comportamentos contemporâneos. É o caso de "Fortunata y Jacinta", romance do espanhol Benito Pérez Galdós, que inspirou a expressão popular "síndrome de Fortunata", usada para descrever um padrão afetivo em que uma pessoa se envolve repetidamente com parceiros já comprometidos. Embora o termo não tenha reconhecimento clínico, ele tem servido como ponto de partida para discussões sobre vínculos, desejo e repetição de escolhas no campo das relações amorosas. Pede desculpas quando não teve culpa? Cuidado, você pode ser vítima de Darvo, prática que distorce a realidade e mina a autoestima Hiperindependência no amor: autonomia precisa ter limite para manter relacionamentos? "Reforço que a chamada 'Síndrome de Fortunata' não caracteriza um fenômeno analisado pela ciência. Ainda assim, o tema levanta questões importantes sobre padrões reais de relacionamento, que podem, e devem, ser compreendidos à luz da psicologia", explica Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e head de Psicologia da Starbem, ao GLOBO Segundo a especialista, esse tipo de envolvimento raramente acontece por acaso. Em muitos casos, há uma dinâmica emocional por trás que sustenta a repetição. "Em geral, isso não acontece por acaso. Muitas vezes, a pessoa está repetindo um padrão emocional: vínculos instáveis podem parecer mais intensos e 'vivos'. Além disso, quando o outro é indisponível, isso pode ativar uma busca maior por validação, fazendo com que o interesse aumente em vez de diminuir", diz. As raízes desse comportamento podem estar associadas à história de vida e às primeiras experiências afetivas. Ainda que não se trate de uma síndrome formal, a repetição de relações com parceiros indisponíveis pode refletir aprendizados emocionais construídos ao longo do tempo. "Apesar de não ser uma síndrome reconhecida, esse tipo de padrão frequentemente tem relação com a história de vida. Experiências de afeto instável, rejeição ou amor condicionado podem influenciar a forma como a pessoa entende o que é amar e ser amada, levando à repetição desses modelos na vida adulta", afirma. Na prática, diferenciar esse padrão de uma atração pontual por alguém "complicado" passa pela intensidade e pelos efeitos gerados. Quando há dependência emocional, o envolvimento tende a ultrapassar o campo do desejo e passa a comprometer o bem-estar. "A diferença principal está na intensidade e no impacto. Quando há dependência emocional, a pessoa sofre de forma recorrente, tem dificuldade de se afastar, mantém a relação mesmo sendo prejudicada e passa a girar em torno do outro. Já uma atração comum tende a ser mais pontual e não compromete tanto o bem-estar", detalha. Os impactos psicológicos também ajudam a dimensionar o problema. Relações sustentadas pela expectativa de mudança do outro costumam gerar desgaste emocional contínuo. "Os efeitos costumam ser negativos: frustração constante, ansiedade, queda da autoestima e uma sensação de espera interminável. A pessoa pode ficar emocionalmente presa a uma promessa que raramente se concretiza, o que aumenta o desgaste psicológico ao longo do tempo", relata. Romper esse ciclo, no entanto, é possível, ainda que exija consciência e disposição para rever padrões. O primeiro passo é identificar a repetição e compreender suas origens: "Sim, é possível. O primeiro passo é reconhecer o padrão. A partir disso, trabalhar autonomia emocional, estabelecer limites mais claros e rever crenças sobre amor são caminhos importantes. A psicoterapia costuma ajudar muito nesse processo, pois permite compreender as raízes dessas escolhas e construir formas mais saudáveis de se relacionar." Embora frequentemente associada ao universo feminino, essa dinâmica não é exclusiva de um gênero. O que muda, segundo a especialista, é a forma como esses comportamentos são percebidos socialmente. "Os padrões são, em essência, semelhantes. O que muda é a forma como a sociedade enxerga e julga esses comportamentos. Culturalmente, esse tipo de situação costuma ser mais associado às mulheres, mas homens também vivenciam dinâmicas semelhantes", conclui.

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