Jornal O Globo
Dez anos depois do primeiro reconhecimento judicial de uma união poliafetiva no Brasil, o tema deixou de ser exceção para ganhar espaço no cotidiano. Entre buscas na internet, relatos nas redes sociais e discussões cada vez mais abertas, as relações não monogâmicas começam a ocupar um lugar mais visível, e menos tabu, no país. Síndrome de Fortunata: entenda a atração por pessoas comprometidas Menopausa sem tabu: por que a dor na relação sexual não deve ser ignorada Os números ajudam a explicar por que o assunto saiu da margem. As buscas por "poliamor" no Google Brasil cresceram 340% entre 2019 e 2025. Hoje, mais de 2,1 milhões de pessoas no país se identificam com relações não monogâmicas éticas, aquelas em que há acordo e transparência entre todos os envolvidos. Entre jovens de 18 a 35 anos, 68% dizem estar abertos a entender esse tipo de vínculo. Não se trata mais de tendência passageira, mas de uma pauta que cruza comportamento, afeto e estilo de vida. Por trás desse movimento, há uma combinação de fatores bem concretos, e outros nem tanto. Nas grandes cidades, onde o custo de vida segue pressionando, dividir a vida (e as contas) com mais de uma pessoa pode fazer sentido prático. Em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, não são raros os relatos de trios ou grupos que constroem rotinas juntos e encontram, nesse formato, mais estabilidade, financeira e emocional. "O que muitos chamam de 'novo jeito de amar' é também, em parte, uma resposta ao esgotamento do modelo nuclear. Quando duas pessoas precisam sustentar um apartamento, criar filhos e ainda oferecer suporte emocional uma à outra sem nenhuma rede de apoio, o peso é gigante. Nas redes poliafetivas, essa carga é distribuída — e isso tem um valor prático e psíquico enorme", explica Wantuir Rock, sexólogo e psicólogo. Mas nem só de logística vive o poliamor. Há também uma mudança de mentalidade em curso, puxada por uma geração que cresceu vendo diferentes arranjos familiares e passou a questionar regras que antes pareciam dadas. Terapia, comunicação não violenta e conteúdos sobre inteligência emocional entram nesse cenário como ferramentas para lidar com ciúme, insegurança e combinados, pontos-chave em qualquer relação, mas ainda mais evidentes quando há mais de duas pessoas envolvidas. "Existe um mito de que poliafetividade é sinônimo de caos emocional. Na minha experiência clínica, vejo o contrário: as pessoas que optam por esse modelo tendem a desenvolver uma capacidade de comunicação e autoconhecimento muito acima da média. Você não consegue ter mais de uma relação saudável se não souber nomear o que sente e negociar limites com honestidade", diz Wantuir. A aceitação social ainda caminha em ritmos diferentes, mas já dá sinais de mudança. Entre os mais jovens, o tema aparece com menos resistência. Nas redes, perfis dedicados ao assunto acumulam seguidores e relatos pessoais. Ao mesmo tempo, assumir esse tipo de relação fora desses espaços ainda pode gerar julgamento, seja na família, seja no trabalho. "A sociedade brasileira é contraditória: ao mesmo tempo que tolera e glamouriza o relacionamento aberto na cultura pop, ainda pune duramente quem assume isso publicamente no trabalho ou na família. Mas essa contradição está diminuindo. Toda semana recebo mensagens de pessoas de 50, 60 anos dizendo que sempre sentiram dessa forma e que só agora encontraram nome e comunidade para o que vivem. Isso é transformador", afirma o especialista. No campo jurídico, o avanço é mais lento, mas existe. Cartórios recebem cada vez mais consultas sobre uniões poliafetivas, e algumas decisões já começam a reconhecer direitos em casos específicos, ainda que não haja uma regra nacional consolidada. Se há um lugar onde esse debate realmente ganhou fôlego, é na internet. Foi ali que muita gente encontrou linguagem, identificação e, principalmente, comunidade. Segundo Wantuir, a procura por atendimentos voltados a esse tipo de relação triplicou nos últimos três anos. "Antes eu atendia casais em crise porque alguém havia saído da monogamia. Hoje atendo trios, quartetos e redes afetivas que querem estruturar melhor o que já vivem e que chegam ao consultório com muito mais maturidade emocional do que se imagina", explica. No fim das contas, o avanço do poliamor não aponta necessariamente para o fim da monogamia, mas para um cardápio mais amplo de possibilidades. "A monogamia não vai deixar de existir. Mas a ideia de que ela é a única forma legítima de amar está, finalmente, sendo questionada em voz alta. E isso é saudável para todo mundo, inclusive para quem escolhe a monogamia por convicção, e não por falta de alternativa", conclui Wantuir.
Go to News Site