Jornal O Globo
Dois dias depois do presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar em pronunciamento que estava “perto de concluir a guerra” e dizer que o poderio aéreo e naval do Irã foram “dizimados”, Teerã voltou a lançar ataques contra a região e derrubou dois aviões de combate, um deles em seu próprio território. Segundo fontes da inteligência americana, os iranianos mantêm cerca de metade dos lançadores de mísseis, além de estoques de armamentos abastecidos, ao contrário do que diz Trump. Votação de resolução foi suspensa: Irã adverte Conselho de Segurança da ONU contra "ação provocadora" envolvendo o Estreito de Ormuz Irã derruba caça dos EUA: Um tripulante é resgatado e outro segue desaparecido De acordo com dos Emirados Árabes Unidos, uma pessoa morreu e outras quatro foram feridas por destroços de mísseis iranianos interceptados pelos sistemas de defesa local em Abu Dhabi. As operações em um complexo de produção de gás foram suspensas por algumas horas devido a um incêndio, que não deixou vítimas. Os destroços de um drone abatido no ar também deixaram quatro feridos no Bahrein. No Kuwait, o governo afirma que uma refinaria de petróleo e uma usina de dessalinização de água — essencial para o país — foram danificadas por mísseis. O Irã nega qualquer participação no bombardeio e acusou Israel. “O ataque não convencional e ilegítimo” de Israel aos centros de dessalinização de água do Kuwait é um sinal da vileza e da baixeza dos ocupantes sionistas”, disse, em comunicado, a Guarda Revolucionária do Irã. “Teerã condena este ato desumano e declara que as bases e militares americanos na região, bem como os centros militares e de segurança do regime sionista nos territórios palestinos ocupados, são nossos alvos prioritários.” Ainda houve registros de ataques contra Israel, onde mísseis causaram danos no norte do país. A Guarda Revolucionária afirma que atingiu “centros de apoio de combate” na região da Galileia e nos arredores das cidades de Haifa e Kafr Kanna. Segundo a imprensa local, foram usadas bombas de fragmentação, que deixaram um ferido. Ameaça crescente: Irã mobiliza população, reforça defesas e recruta menores de idade diante de risco de invasão dos EUA Desde o início da guerra, autoridades israelenses e americanas alegam ter debilitado as defesas iranianas e as capacidades de lançar ataques com mísseis e drones. Em briefings à imprensa, o Pentágono apontava para uma queda de 90% nos ataques, e o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou no mês passado que o Irã não era mais capaz de produzir mísseis balísticos, os mesmos que seguem atingindo seu país sem cessar. — Sim, eles ainda vão lançar alguns mísseis, mas nós os abateremos — disse o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, em entrevista coletiva esta semana. — Vale ressaltar que, nas últimas 24 horas, o Irã registrou o menor número de mísseis e drones inimigos disparados. Eles vão se esconder, mas nós os encontraremos.” Trump, em seu pronunciamento na quarta-feira, declarou que “está prestes a pôr fim à sinistra ameaça do Irã para os Estados Unidos e para o mundo”. — Estamos desmantelando sistematicamente a capacidade do regime de ameaçar os Estados Unidos ou projetar poder além de suas fronteiras — disse o presidente. — Sua Força Aérea acabou. Seus mísseis estão praticamente esgotados ou destruídos. Aliança rachada: Isolamento em guerra contra o Irã impulsiona ameaça de Trump de deixar a Otan; ideia tem obstáculos políticos e legais A fala não poderia ter envelhecido pior. Na quarta-feira, a rede americana CNN, citando fontes da inteligência, afirmou que cerca de metade dos lançadores de mísseis iranianos estão intactos, embora alguns estejam inacessíveis no momento sob escombros ou em instalações subterrâneas cujas entradas foram bloqueadas. Autoridades militares israelenses estimam um número menor de lançadores operacionais, entre 20% e 25%. Os arsenais de mísseis e drones, embora sob intenso bombardeio, seguem volumosos, permitindo manter um ritmo de ataques que vem surpreendendo militares e políticos. Segundo o Pentágono, mais de 12,3 mil alvos foram atingidos no Irã desde o dia 28 de fevereiro, e foram registrados violentos bombardeios no país, especialmente em Teerã, nesta sexta-feira. — Eles ainda estão muito bem preparados para causar estragos absolutos em toda a região — disse uma das fontes ouvidas pela CNN. Um dos entrevistados pela rede americana pôs em xeque o prazo de duas a três semanas para encerrar a guerra, apresentado por Trump no pronunciamento. — Podemos continuar ferrando com eles, não tenho dúvidas, mas você está louco se acha que isso vai acabar em duas semanas — declarou, em condição de anonimato. 'Não era isso que queríamos': Iranianos na diáspora se dividem sobre a guerra no Oriente Médio A Casa Branca preferiu atacar a CNN, alegando que “fontes anônimas desejam desesperadamente atacar o presidente Trump e menosprezar o trabalho incrível das Forças Armadas dos Estados Unidos” e rebatendo as constatações da matéria. "Eis os fatos: os ataques iranianos com mísseis balísticos e drones diminuíram 90%, sua Marinha foi dizimada, dois terços de suas instalações de produção foram danificadas ou destruídas, e os Estados Unidos e Israel têm uma supremacia aérea esmagadora sobre o Irã" afirmou, em comunicado, uma porta-voz da Casa Branca. "O regime está sendo dizimado militarmente, e sua única esperança é fazer um acordo e abandonar suas ambições nucleares.” O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, também contestou a avaliação. "As Forças Armadas dos Estados Unidos desferiram uma série de golpes devastadores contra o regime iraniano. Estamos à frente do cronograma para atingir nossos objetivos militares", disse Parnell. A-10 Thunderbolt II Vincent De Groot / Força Aérea dos EUA / AFP Em outro golpe no discurso de que o Irã está de joelhos, duas aeronaves de combate dos EUA foram abatidas pelas defesas iranianas nesta sexta-feira. Um A-10 Thunderbolt II foi atingido perto do Estreito de Ormuz, fechado por Teerã desde o início do conflito, mas o piloto conseguiu retirar a aeronave do espaço aéreo do Irã antes de se ejetar e ser resgatado. Segundo um representante da Guarda Revolucionária, o avião foi abatido por um "novo e avançado sistema de defesa". Caça F-15 Divulgação A segunda aeronave, um caça F-15, foi abatido dentro do território iraniano — segundo o Pentágono, um dos tripulantes foi resgatado, em uma operação na qual um helicóptero foi atingido por foguetes, mas não há informações sobre o paradeiro do segundo militar. Teerã está à sua procura, e ofereceu uma recompensa por informações. “Depois de derrotar o Irã 37 vezes seguidas, esta brilhante guerra sem estratégia que eles começaram agora foi rebaixada de ‘mudança de regime’ para ‘Ei! Alguém consegue encontrar nossos pilotos? Por favor’”, ironizou na rede social X o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf. “Uau. Que progresso incrível. Gênios absolutos.”
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