Jornal O Globo
A primeira semana de prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro foi marcada por uma rotina de recuperação dentro de casa, com sessões diárias de fisioterapia, alimentação controlada e acompanhamento médico frequente, mas também por um acirramento da tensão entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-mandatário, em um momento em que o acesso a ele está restrito e o peso político de quem permanece no entorno imediato cresce. Médicos têm ido à residência ao longo da semana para monitorar o quadro clínico. O cirurgião Brasil Ramos Caiado, que acompanha Bolsonaro, esteve na casa nos últimos dias. Segundo relatos, a evolução é considerada estável, apesar das limitações impostas pela recuperação. Interlocutores afirmam que o ex-presidente “passa bem” dentro do esperado para o quadro. O conflito familiar, no entanto, ganhou contornos públicos e seguiu uma escalada ao longo dos últimos dias. No sábado passado, o deputado Eduardo Bolsonaro irritou Michelle ao afirmar, durante evento nos Estados Unidos, que havia produzido um vídeo para o pai. A declaração atingiu um ponto sensível porque Bolsonaro está proibido de acessar celular e redes sociais na prisão domiciliar. Ao dizer publicamente que havia feito o vídeo, Eduardo levantou, ainda que indiretamente, a suspeita de que esse tipo de material poderia estar chegando ao ex-presidente — o que configuraria descumprimento das medidas impostas pela Justiça. Para conter o desgaste, a ex-primeira-dama divulgou nota afirmando que não havia recebido qualquer conteúdo. No dia seguinte, o vereador Carlos Bolsonaro publicou uma mensagem enigmática nas redes sociais em que criticou articuladores de uma suposta “união da direita” que, segundo ele, “não ajuda em nada e, pior, trabalha para prejudicar Bolsonaro”. Nos bastidores, aliados apontam que o alvo era a madrasta, em mais um sinal de desgaste público. A reação veio na quinta-feira, quando Michelle compartilhou um vídeo do senador Esperidião Amin, adversário direto de Carlos na disputa pelo Senado em Santa Catarina. A publicação foi lida no entorno do vereador como um recado direto, em meio à disputa interna sobre espaço e protagonismo dentro do grupo. Os relatos sobre o estado de saúde também passaram a refletir a divisão. Carlos visitou o pai na quarta-feira e afirmou que a saúde do ex-presidente “continua se deteriorando”. Já Michelle disse posteriormente que os episódios de soluços deram uma trégua e que Bolsonaro está “animado” dentro das limitações do quadro. Rotina e isolamento Desde que deixou o hospital, Bolsonaro passou a maior parte do tempo em uma cama reclinável, com orientação médica para reduzir estímulos e sob acompanhamento frequente de profissionais de saúde. A rotina inclui sessões de fisioterapia respiratória, alimentação mais controlada e cuidados constantes para evitar novas complicações. Ele já voltou a ingerir alimentos sólidos, mas segue proibido de consumir itens ácidos, como frutas cítricas, café e refrigerante. No dia a dia, o ex-presidente tem passado longos períodos assistindo televisão, com foco em transmissões esportivas, incluindo jogos de futebol, o que tem ajudado a preencher o tempo em meio às restrições. A recomendação médica é de estabilidade, com o mínimo de esforço e exposição. A condução dessa rotina ficou concentrada em Michelle, que assumiu não apenas os cuidados diretos, mas também a organização do ambiente doméstico e o controle de acesso ao ex-presidente. As filhas Laura e Letícia auxiliam na rotina, incluindo medicação, alimentação e logística das visitas. Disputa por acesso A restrição imposta pela decisão judicial, que suspendeu o uso de celular e redes sociais e limitou as visitas à familiares, alterou o equilíbrio interno da família e ampliou o peso de quem está dentro da casa. Sem comunicação direta com aliados políticos, Bolsonaro passou a depender da mediação de terceiros, o que elevou a importância de Michelle como principal interlocutora neste momento. Esse rearranjo acendeu um alerta entre os filhos mais velhos, que passaram a monitorar mais de perto o acesso ao ex-presidente. Carlos visitou o pai na quarta-feira, dentro da janela autorizada. Já o senador Flávio Bolsonaro tem uma condição diferenciada: por atuar como advogado no processo, pode visitá-lo diariamente, por até meia hora. Nesse contexto, a defesa do ex-presidente pediu ao Supremo Tribunal Federal que o irmão de Michelle, Eduardo Torres, seja autorizado a atuar como cuidador. Ele é o mesmo que, durante o período em que Bolsonaro esteve preso na Superintendência da Polícia Federal, ficou responsável por levar refeições ao ex-presidente. Páscoa dividida A expectativa é que os três filhos homens visitem Bolsonaro neste sábado, aproveitando a flexibilização para encontros familiares durante o feriado de Páscoa. O encontro deve marcar a primeira reunião mais ampla desde o início da domiciliar. Eles estão autorizados a permanecer por até duas horas, distribuídas em três janelas ao longo do dia. A comemoração, no entanto, será dividida. No sábado, haverá a presença dos filhos. No domingo, a tendência é de um formato mais restrito, apenas com Michelle e os moradores da casa.
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