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Com mostra em cartaz em galeria de SP, Nelson Félix cria esculturas para o MAC-USP imaginadas há quase 50 anos | Collector
Com mostra em cartaz em galeria de SP, Nelson Félix cria esculturas para o MAC-USP imaginadas há quase 50 anos
Jornal O Globo

Com mostra em cartaz em galeria de SP, Nelson Félix cria esculturas para o MAC-USP imaginadas há quase 50 anos

O tom de voz sereno e a fala pausada de Nelson Félix não dão pistas do quão agitada foi a rotina recente de sua casa-ateliê em Mury, distrito de Nova Friburgo (RJ), onde se estabeleceu nas últimas quatro décadas de seus 72 anos, completados no dia 13 do mês passado. No último dia 21, ele inaugurou a individual “Pedra de rumo”, com mais de 60 obras inéditas, na geleria Almeida & Dale, em São Paulo. Na semana que vem, quatro trabalhos seus estarão no lounge da Casa Vogue, na SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera. E, no dia 30 de maio, será inaugurada a exposição “Beijo de língua”, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), com esculturas e instalações de grandes dimensões. Na semana passada, após sua volta da inauguração de “Pedra de rumo”, Félix planejava a logística para a retirada das obras e seu transporte ao MAC-USP. De meias e sandálias havaianas nos pés, circulava no aleliê com pé-direito de oito metros por entre as caixas fechadas com as esculturas de até uma tonelada, produzidas com a ajuda de seus dois assistentes nos últimos quatro anos. Para retirá-las do local, o artista planejava o uso de um caminhão Munck (equipado com um guindaste hidráulico articulado), capaz de subir a ladeira de estrada de terra que leva até seu refúgio cercado pela Mata Atlântica. Em placas de mármore carrara, Félix esculpiu textos de Homero, Santa Teresa d’Ávila e Bertrand Russell, traduzidos para o aramaico e o aymara, idioma dos povos originários andinos, que, coladas umas às outras, formam o “Beijo de língua” do título. Como outros projetos de longa duração que o artista desenvolve ao longo das décadas de carreira, a origem do mais recente tem quase 50 anos. — Com uns vinte e poucos anos viajei bastante pela América Latina. Estava em Lima (Peru) em 1978 e me veio essa ideia do aymara e do aramaico quase como palíndromos, e pensei em fazer algo a partir disso. Na época, tentei fazer por meio de performance, encaixar em outros projetos, mas não gostei, entendi que tinha de ser tridimensional — recorda Félix. — Trouxemos as placas de mármore da Itália e entalhamos tudo aqui no ateliê. Eu gosto do fazer manual, desse nível de concentração. É um ritmo diário que aparentemente é pesado, mas no fundo não é, tudo se dilui no trabalho. Antes eu fazia tudo, depois da pandemia que precisei operar uma hérnia e não posso mais pegar peso. Mas, morando no meio do mato, se estourasse um cano eu mesmo ia lá e consertava. Curadora de “Beijo de língua”, Fernanda Pitta aponta como a prática de Nelson Félix nunca se encerra na obra de arte, mas envolve todo o processo, no tempo e no espaço expandido. — A partir dos pensamentos desses três nomes, o Nelson trabalha com essa dimensão quase cósmica do tempo, que vem do passado mas aponta para o futuro como uma aposta, em mensagens de de amor, sacrifício e tolerância — observa Fernanda. — É um exercício de meditação criado com a arte, que vem da filosofia de vida dele. E assim ele leva essa relação com o material quase ao limite, uma pedra super pesada, bruta, trabalhada de uma forma tão delicada que a fragiliza. O “beijo” entre as placas de mármore coladas é o que as sustentam também. Obras como árias de uma sinfonia A relação entre tempo e espaço que atravessa a produção de Nelson Félix também está presente entre seus projetos recentes na capital paulista. “Pedra de rumo” se conecta a “Beijo de língua” e a uma ação anterior do artista, “Nó a nó”, realizada em junho do ano passado na Praça Horácio Sabino, na zona Oeste de São Paulo. Cadernos de desenho de Nelson Félix em seu estúdio em Mury, Nova Friburgo (SP) Ana Branco Como faz desde a década de 1980, Félix articula seus trabalhos como árias de uma sinfonia, interligando-os por obras ou elementos presentes nas exposições. Entre a galeria na Rua Fradique Coutinho, em Pinheiros e o MAC-USP, o artista percebeu que o traçado formava uma cruz, exatamente na Praça Horácio Sabino, mas com pouco menos que os 90 graus para criar um ângulo reto. Da cartografia, a interseção vai aparecer em em “Pedra de rumo” em esculturas em mármore, bronze e elementos vegetais, além de desenhos, pinturas e colagens , como as feitas sobre folha de chumbo em homenagem a Dorival Caymmi (“Meu pai ouvia muito. Para mim, foi um dos principais artistas que já pisaram na Terra”). — Faltam uns três graus para os 90 graus, para que o cruzamento ficasse perfeitamente perpendicular. Aí lembrei de um texto que gosto muito, que o (crítico) Ronaldo Brito escreveu sobre meu trabalho, “Corrigir pelo erro” (2006). É o erro que vai deixar aquela cruz perfeita — observa Félix. — A cruz, num país católico, tem um significado, mas é também uma marca no chão. E pedra de rumo tem um sentido espiritual no candomblé, e na topografia é um marco de onde você parte para traçar algo. E, além disso, tem o sentido de destino, direção. Detalhe do ateliê de Nelson Félix Ana Branco Keyna Eleison, que assina o texto de “Pedra de rumo”, abordou a obra de Nelson Félix em sua dissertação de mestrado na PUC-Rio, em 2016. Para ela, o artista atravessa diversas camadas de sentidos, em trabalhos que nunca se encerram em si. — — A forma como o Nelson expande o espaço não se limita à Terra, a sua obra se relaciona com a posição do Sol, com o cosmos, vai para o infinito. Ele não está pensando no objeto escultórico em si, é uma abordagem filosófica — analisa Keyna, que integrou a equipe curatorial da última Bienal de São Paulo. — Pelos tantos sentidos que explora, o considero um artista quântico. Está trabalhando com a forma, mas também com energia, com um lado filosófico e espiritual. Nelson Félix em seu estúdio de desenho em Mury, Nova Friburgo (SP) Ana Branco Na mostra no MAC-USP, Félix também vai vai apresentar alguns de seus cadernos de desenhos, que ficam armazenados no andar superior de sua antiga casa, agora transformada em um espaço para a prática, com suas acomodações transferidas para uma construção em um corte acima do terreno. Em sua rotina, o artista acorda sempre por volta de 4h30 da manhã e toma uma ducha fria, antes de sair para caminhar. Após tomar café e fazer ioga, geralmente começa a trabalhar pelos desenhos. — Sou conhecido como escultor. Se me apresento como desenhista as pessoas tomam como se fosse algo menor, que não estivesse no mesmo nível da pintura ou da escultura. Mas desde a infância eu desenho compulsivamente, chego num nível de concentração tão grande que vou para outro lugar. É um estado de meditação mesmo — conta o artista. — É como alguém que gosta de violão e toca o dia inteiro, mas não para virar um virtuoso, mas pela própria prática. Para mim, é uma forma de expressão.

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