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A cruz e a caneta
Revista Oeste

A cruz e a caneta

No dia 8 de março de 2026, no México, câmeras registraram em San Luis Potosí algo que vai além da pauta habitual dos direitos das mulheres: manifestantes usaram cordas para arrancar e derrubar uma cruz de cantera da fachada do histórico Templo de la Compañía (Sagrario Metropolitano, igreja do século XVII). Portas foram incendiadas, fachadas pichadas e golpeadas, enquanto fiéis formavam correntes humanas ao redor de catedrais e igrejas em várias cidades para protegê-las. Quando uma manifestação deixa como rastro a profanação de símbolos religiosos, o conflito deixou de ser apenas político. Ele se torna uma negação da civilização que construiu a sociedade que ali vive hoje. O erro mais comum diante de cenas como essa é tratá-las como excesso, como desvio de uma minoria exaltada que saiu do tom. Aquelas imagens revelaram não um mero acidente de percurso. Foi a lógica interna de uma ideologia levada às últimas consequências. O feminismo contemporâneo, em suas correntes mais radicais e influentes, não se limita a pedir punição para agressores ou dignidade no trabalho – demandas legítimas que qualquer pessoa de bom senso deveria apoiar. Ele se apresenta, em suas formulações mais honestas, como uma crítica estrutural à ordem moral herdada, às instituições que organizam a vida social e à própria arquitetura simbólica do Ocidente. Se a religião é tratada como linguagem de dominação, a família como célula de opressão e a maternidade como mecanismo de sujeição biológica, então não existe razão interna para que a revolta se limite ao campo das leis. Ninguém arranca uma cruz por acidente teórico. É por isso que o paralelo com a Revolução Francesa, guardadas as devidas proporções de escala e violência, é importante. Na fase jacobina, a Revolução não buscou apenas trocar governantes, mas também dessacralizar a ordem anterior. Houve descristianização ativa, substituição do calendário cristão pelo republicano, tentativas de criar cultos cívicos no lugar da religião tradicional e culminou na decapitação em larga escala de padres e freiras. Não é por acaso que ficou famosa a frase de que “a revolução só acabará quando o último rei for enforcado com as entranhas do último padre”. Em toda ruptura profunda, a troca de regime político vem acompanhada de uma troca de altar. Gramsci já havia descrito o método: conquistar a linguagem, os costumes e os símbolos antes de conquistar as instituições. Quem redefine o vocabulário moral de uma sociedade redefine, pouco a pouco, a própria sociedade. Em Marx, a religião é uma ilusão a ser superada e a crítica dela é o primeiro passo para a crítica da ordem social. No Manifesto, a família burguesa entra explicitamente no horizonte de superação histórica. Shulamith Firestone, um dos nomes mais influentes do feminismo radical, não propõe corrigir abusos, mas, sim, romper o que chama de "tirania da família biológica" e questionar a organização inteira da cultura. Isso não é reforma. É uma reengenharia antropológica. Quando a liberdade passa a significar emancipação de toda dependência natural e histórica, qualquer forma concreta de pertencimento vira suspeita. Seria desonesto, e injusto, dizer que toda mulher que foi às ruas endossa isso. A maioria não endossa. O problema do nosso tempo, porém, é que causas legítimas são colonizadas por quadros ideológicos que lhes oferecem uma metafísica de ressentimento e uma direção revolucionária. A dor real serve de combustível, mas o alvo final é maior do que a dor que serviu de pretexto. O que se quer não é apenas corrigir injustiças. É refundar o homem, a família e a sociedade sob novos dogmas – e destruir, no caminho, tudo aquilo que limite esse poder. É exatamente por isso que a cruz arrancada diz mais do que mil manifestos. Ela expõe que o horizonte de certas correntes não é proteção, mas substituição; não é justiça, mas hegemonia. E esse projeto não fica restrito ao México. No Brasil, enquanto as imagens da profanação ainda repercutiam, o Senado Federal aprovou, em 24 de março de 2026, o PL 896/2023 – conhecido como PL da Misoginia –, que inclui a "misoginia" entre os crimes de preconceito da Lei do Racismo (7.716/1989). O texto define misoginia como "a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres" e prevê pena de dois a cinco anos de reclusão mais multa para injúria, além de tornar o crime inafiançável e imprescritível. Aprovado por unanimidade, sem um único voto contra. O risco foi imediatamente apontado por vozes da imprensa e da opinião pública: o conceito é subjetivo ao extremo, invertendo a lógica do Direito Penal – o réu passa a responder não pelo que fez, mas pelo que o outro sentiu. É uma criminalização dos homens e da defesa da família tradicional. Leis vagas que servem menos para punir violência real e mais para calar discordância. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) classificou o projeto como "aberração" e anunciou que já começou o trabalho na Câmara para derrubá-lo, alertando que o texto pode criminalizar até críticas à ideologia de gênero. O que vimos no México foi a versão física desse impulso. No Brasil, a versão jurídica. A cruz foi arrancada com cordas; aqui, quer-se arrancar com caneta e carimbo do Estado qualquer discurso que ainda reconheça a ordem natural, a maternidade como vocação, a paternidade como autoridade ou a Igreja como guardiã de uma moral anterior ao Estado. Sociedades entram em colapso quando deixam de compartilhar aquilo que merece reverência. O ataque à igreja no México e a aprovação do PL no Senado brasileiro não são eventos separados por um oceano. São dois gestos de uma mesma confissão – porque toda ideologia que precisa destruir símbolos e silenciar vozes para governar consciências já revelou, com isso, que não quer apenas mudar a sociedade. Quer ocupar o lugar da alma que a sustentava. O post A cruz e a caneta apareceu primeiro em Revista Oeste .

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