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Heroínas da resistência
Revista Oeste

Heroínas da resistência

O Memorial do Holocausto do Rio de Janeiro , instalado dentro do Parque Yitzhak Rabin, em Botafogo, foi reinaugurado em março com a exposição Faces da Resistência – Mulheres no Holocausto, em cartaz até 14 de abril. A mostra relembra a luta no dia a dia, a esperança de sobrevivência e a resiliência num período em que a perseguição se manifestou de forma brutal. São relatadas as trajetórias de 20 mulheres, entre elas escritoras, combatentes e musicistas. Todas tiveram forte atuação em diferentes lugares da Europa naqueles anos, em que cerca de 20 milhões de pessoas foram mortas por causa de sua etnia, identidade ou religião, incluindo 6 milhões de judeus. A exposição já passou por Estados Unidos, México e Argentina e foi idealizada pelo movimento judaico Hashomer Hatzair. Uma das histórias é a da eslovaca Haviva (Marta) Reik (1922-1944). Ela foi para o front como paraquedista com a missão de saltar atrás das linhas inimigas. Foi executada durante uma de suas ações. Já a polonesa Vitka Kempner-Kovner (1920-2012) participou da operação que explodiu um trem alemão, no primeiro ato de sabotagem do movimento clandestino denominado partisan (do francês, "aquele que toma partido"). Outro momento lembrado remete à revolta do Gueto de Varsóvia (1943). Enquanto os nazistas invadiam o local, depois de uma forte resistência dos moradores judeus, Zivia Lubetkin (1914-1976) liderou um grupo de combatentes que conseguiram fugir pela rede subterrânea. Zivia Lubetkin | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons/National Library of Israel A exposição adicionou a iniciativa destas mulheres à de outras mais conhecidas, cujos nomes ficaram de fora. Um deles é o da poeta húngara Hannah Senesh (Hannah Szenes, 1921-1944), que treinou com militares britânicos até se tornar paraquedista e participar de missões para resgate de judeus. Senesh acabou sendo capturada ao tentar ultrapassar a fronteira entre a Iugoslávia e a Hungria e foi morta pelos nazistas em Budapeste. Hannah Senesh | Foto: Reprodução/Domínio público O outro é o de Hannah Arendt (1906-1975), judia alemã, que também encontrou uma forma de resistir. Fugiu da Alemanha com a ascensão do governo nazista e, depois de ficar um tempo detida na França, onde morou por seis anos, radicou-se nos Estados Unidos. Como escritora, liderou uma resistência intelectual, ao dissecar a "banalidade do mal" em obras como Origens do Totalitarismo . Hannah Arendt | Foto: Barbara Niggl Radloff/Wikimedia Commons A localização do memorial no Rio, inaugurado pela primeira vez em 2022, integra a beleza da cidade ao sofrimento judaico daquele período. O parque se situa no Mirante do Pasmado. De lá, com uma vista de 360 graus, é possível ver o Pão de Açúcar, a Enseada de Botafogo e o Cristo Redentor. A Oeste , a vice-presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), Suzana Bennesby, que atua no projeto, conta detalhes da exposição. Qual é a principal mensagem transmitida pelas mulheres da resistência retratadas na exposição? A mensagem é de uma amplitude imensa, universal: essas mulheres não foram apenas vítimas; elas assumiram frentes de guerrilha e enfrentaram o nazismo com ações de inteligência e combate direto, salvando inúmeras vidas. Quais exemplos ajudam a ilustrar a atuação dessas mulheres na resistência? Para falar de duas histórias que achei impactantes, porque eram fundamentalmente artistas e se viram ali mergulhadas em tanta brutalidade, cito a holandesa Frieda Belinfante (1904-1995), violoncelista e maestrina. A história dela é emblemática: desafiou os nazistas ao se disfarçar de homem. Ela falsificava documentos para proteger perseguidos; escondia quem podia. Já a austríaca Friedl Dicker-Brandeis (1898-1944) utilizou a pintura no gueto de Theresienstadt (atual República Tcheca) como ferramenta de suporte emocional para crianças, transformando a arte em uma forma de expressão contra o medo. Eu senti nelas e nas demais uma imersão na complexidade da luta pela sobrevivência e na dimensão da força feminina diante do desespero. Retrato de Frieda Belinfante após seu retorno à Holanda, vinda do campo de refugiados na Suíça, 1945 | Foto: Reprodução/ United States Holocaust Memorial Museum Frieda Belinfante rege a orquestra e o coro da Universidade de Amsterdã, em 1937 | Foto: Reprodução/ United States Holocaust Memorial Museum Friedl Dicker-Brandeis, artista e professora, nasceu em 1898 e morreu em Auschwitz, em 1944 | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons Em que medida as mulheres enfrentaram desafios maiores que os dos homens na resistência ao nazismo? Acredito que as dificuldades delas tenham sido maiores do que as dos homens. Porque naquela época a mulher não tinha praticamente recursos, dependia dos homens. Havia um papel que não era o de enfrentar alguém em confronto, era o de cuidar da família, função milenar das mulheres. Mas na guerra essas mulheres atuaram na resistência e como combatentes. Neste sentido, até que ponto o fato de elas serem mulheres foi benéfico, em termos de sensibilidade e intuição? O fato é que, embora o aspecto de gênero esteja presente em qualquer circunstância, no Holocausto, homens e mulheres passaram por um processo brutal de desumanização. Isso as levou a converter suas diferenças em táticas de sobrevivência e combate. Elas se valeram de sua resiliência e de habilidades muitas vezes subestimadas pelo opressor para atuar na resistência, provando-se combatentes admiráveis. Como reconhecer a importância da resistência dessas mulheres sem deixar de valorizar todas as vítimas do Holocausto? Todas as vítimas do Holocausto, que foi o maior crime contra a humanidade, merecem nossa reverência incondicional. Seja quem teve forças para reagir, seja quem sucumbiu à perversidade do sistema: judeus, negros, homossexuais, ciganos, pessoas com deficiência e outras minorias. A crueldade nazista tentava negar a humanidade de cada indivíduo que desprezava, que tinha ódio. Suzana Bennesby, vice-presidente Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) | Foto: Divulgação Como a senhora vê, diante da luta dessas mulheres, a banalização e a negação do genocídio nazista? A comunidade judaica não aceita qualquer gesto de banalização do Holocausto, porque ofende antepassados nossos e de outras vítimas e promove o apagamento da história. Esse é um capítulo horripilante da história, e não pode ser esquecido para que não se repita. Resgatar as histórias das mulheres que resistiram é, portanto, um ato de homenagem a todos que sofreram e pereceram, mantendo viva a memória para que o silêncio não apague o sacrifício das vítimas. De que forma a luta delas pode inspirar o combate atual à violência contra as mulheres? O exemplo dessas mulheres é inspirador. Em um período histórico no qual possuíam direitos civis e políticos restritos, as mulheres tinham muitas limitações de recursos, mas se mostraram maiores do que suas circunstâncias. Essa coragem histórica serve de espelho para as lutas atuais: se elas puderam resistir ao mal absoluto em condições de total opressão, as mulheres na sociedade contemporânea podem ser mais atuantes em prol de frentes como os combates à intolerância e ao feminicídio, por exemplo. A luta delas nos ensina que a omissão não é uma opção diante da violência de gênero ou de qualquer forma de preconceito. + Leia mais notícias do Mundo em Oeste Qual é o impacto da reabertura do memorial para a cidade? A história do Rio de Janeiro é indissociável das contribuições da comunidade judaica. Trabalhamos para que nossas tradições, cultura e filosofia de vida continuem sendo compartilhadas com a sociedade. O conhecimento é o antídoto definitivo contra o antissemitismo e o preconceito. O Memorial do Holocausto no Rio nos recorda que existem limites civilizatórios que jamais podem ser ultrapassados. Ao falar da guerra, o local educa para a paz, reafirmando o compromisso da cidade com a dignidade da pessoa humana. Esperamos que as pessoas o visitem e sejam despertadas para a valorização da vida e da paz. Museus e memoriais expõem o passado. No caso de um Memorial do Holocausto, qual é a mensagem para as futuras gerações? O mais importante é o valor deste memorial para as próximas gerações, o legado que estamos deixando, a memória que será levada adiante. Entendemos, na cultura judaica, que plantamos uma semente e as próximas gerações estarão sempre passando os ensinamentos à frente, como nos ensinam na Torá (livro sagrado): é algo de geração em geração. E não são só as tradições, os conhecimentos, mas também a luta do povo judeu pela própria existência que seguirá sempre presente. Em síntese, o memorial é isso. Esta luta, a resiliência e o compromisso de que as próximas gerações, recebendo o conhecimento, também o passarão adiante. Leia também "Entre a sobrevivência e o futuro" O post Heroínas da resistência apareceu primeiro em Revista Oeste .

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