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O Brasil do Norte e o Brasil do Sul | Collector
O Brasil do Norte e o Brasil do Sul
Revista Oeste

O Brasil do Norte e o Brasil do Sul

Confesso que, quando ouvi a fala do influenciador Felca sugerindo, ainda que em tom supostamente “humorístico”, jogar uma bomba atômica no Sul do Brasil para “ficar só com o Nordeste”, não senti vontade de rir. Senti preocupação, porque existem coisas que não são piadas, e flertar com a destruição de parte do próprio país, mesmo que como exagero retórico, me fez pensar como seriam as manchetes se essa afirmação tivesse sido feita, por exemplo, pelo humorista Léo Lins, ou por algum político conservador ou por qualquer um de nós jornalistas: A polícia já teria batido na nossa porta e estaríamos inclusos em algum inquérito por racismo ou vai saber que delito. Mesmo como piada, Felca revela uma desconexão completa com a realidade, então vamos explicar para ele como seria essa divisão. De um lado, o chamado “Brasil do Norte”, formado pelas regiões Norte e Nordeste. Do outro, o “Brasil do Sul”, reunindo Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Não se trata de defender divisão. Trata-se de entender a realidade. Se pegarmos o Brasil e dividirmos em "Brasil do Norte" e "Brasil do Sul", os números são claros e, quando olhamos os dados — dados do IBGE, do Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda e do Ministério do Desenvolvimento Social — o que aparece não é opinião. É fato. Mapa das regiões do Brasil definidas pelo IBGE | Ilustração: Revista Oeste/Wikimedia Commons O Brasil do Sul concentra cerca de 55% da população (116 milhões), mas responde por aproximadamente 75% a 80% de toda a riqueza produzida no país. Já o Brasil do Norte, com cerca de 45% da população (98 milhões), participa com apenas 20% a 25% do PIB nacional. Isso significa, na prática, uma diferença brutal de produtividade. Quando olhamos o PIB per capita — também segundo o IBGE — o abismo se aprofunda: enquanto o Brasil do Sul gira entre R$ 45 mil e R$ 55 mil por habitante ao ano, o Brasil do Norte fica entre R$ 18 mil e R$ 25 mil. Ou seja: o brasileiro médio de um lado produz o dobro — às vezes o triplo — do outro. Talvez o dado mais revelador não esteja na produção, mas na dependência. Os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, têm maior concentração exatamente nas regiões Norte e Nordeste — dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que mais de 60% dos beneficiários estão nessas regiões. Ao mesmo tempo, os empregos formais — com carteira assinada — estão majoritariamente concentrados no Sul econômico do país. Melhor forma de um Estado controlar as pessoas é torná-las dependentes de programas sociais | Foto: Shutterstock Vejamos mais números. Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, no Brasil do Norte temos na região Nordeste: 8,7 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa Família. Na região Norte: 2,4 milhões de famílias. Total: 11,1 milhões de famílias beneficiárias. Considerando média de 3 pessoas por família: 33 milhões de pessoas atendidas. Já o emprego com carteira assinada (CLT), com base em estimativas derivadas do Novo Caged, no Nordeste são 9 milhões de trabalhadores formais e na região Norte é 1,8 milhão. Total: 10,8 a 11 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Em resumo: são três pessoas no Bolsa Família para cada trabalhador formal. No Brasil do Sul, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, na região Sudeste: 5,26 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa Família. No Sul: 1,28 milhão de famílias. No Centro-Oeste: cerca de 986 mil famílias. Total: 7,5 milhões de famílias beneficiárias. Considerando média de três pessoas por família:  22 a 23 milhões de pessoas atendidas. No emprego com carteira assinada (CLT), com base em dados do Novo Caged, no Sudeste: 28 milhões de trabalhadores formais. No Sul: 7 milhões. No Centro-Oeste: 4 milhões. Total: 39 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Em resumo: há quase dois trabalhadores formais para cada pessoa no Bolsa Família nessas regiões. A proporção do Norte é exatamente contrária à proporção do Sul. Analisando a situação do ponto de vista da arrecadação, é possível e lógico afirmar que: onde se produz mais, arrecada-se mais. E onde se arrecada mais… sustenta-se mais. Segundo dados do Tesouro Nacional, o fluxo de transferências federais deixa isso evidente. Estados do Norte e Nordeste são, em sua maioria, receptores líquidos de recursos. Já os Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste são financiadores líquidos do sistema. Mais indicadores Saneamento: água No Sinisa 2024, o atendimento da população total com rede de abastecimento de água foi de 60,9% no Norte e 74,0% no Nordeste. No outro bloco, os índices foram de 90,5% no Sudeste, 87,6% no Sul e 88,3% no Centro-Oeste. A diferença é brutal: o Norte está quase 30 pontos percentuais abaixo do Sudeste. Saneamento: esgoto No atendimento de domicílios totais com rede coletora de esgoto, o Sinisa mostrou 15,3% no Norte e 28,4% no Nordeste. No bloco Sul ampliado, os números foram 73,8% no Sudeste, 46,7% no Sul e 55,8% no Centro-Oeste. Ou seja: enquanto o Sudeste tem quase três quartos dos domicílios cobertos, Norte e Nordeste ainda convivem com cobertura muito baixa. Exportação: base empresarial exportadora O MDIC informou que o Brasil terminou 2025 com 29.818 empresas exportadoras, recorde da série. O crescimento veio de todas as regiões, mas foi puxado sobretudo pelo Sudeste (+549) e Sul (+394); o Centro-Oeste cresceu +33, o Nordeste +31 e o Norte +23. Isso não é o valor exportado em dólares por região, mas já mostra com clareza onde a base exportadora cresce com mais intensidade. Estrutura institucional e concentração organizacional No Cempre/Fasfil 2023 do IBGE, o Sudeste concentrou 43,2% das Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos do país; o Sul, 19,5%; e o Centro-Oeste, 8,6%. O Nordeste ficou com 22,0% e o Norte, com 6,6%. O IBGE observou explicitamente uma “especialização regional” de Fasfil no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, em contraste com presença relativa menor no Norte e Nordeste. Não é o total de empresas privadas lucrativas, mas é um indicador útil da densidade institucional e associativa. Desenvolvimento humano No Atlas Brasil/PNUD, o Brasil tinha Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) 0,766 em 2021. No ranking estadual, os maiores índices ficaram com Distrito Federal (0,82), São Paulo (0,83) e Santa Catarina (0,774). Já vários Estados do Norte e do Nordeste aparecem com índices mais baixos — por exemplo, o Rio Grande do Norte tinha 0,698 em 2021. Os melhores desempenhos estaduais se concentram majoritariamente no bloco Sul ampliado, enquanto o Norte e o Nordeste seguem mais pressionados nos indicadores de desenvolvimento humano. Falemos de política Impossível tentar entender por que determinada região ou Estado está na situação que está (seja qual for esta situação) sem vincular o resultado com a política pública. Os Estados do Norte e Nordeste foram administrados (e muitos deles continuam sendo administrados) por ideologias de esquerda ou centro-esquerda. Na região Norte, um dos piores desempenhos em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em percentual da população sem saneamento e concentração de riqueza é do Acre, que, nos últimos 23 anos, foi administrado por 16 pelo Partido dos Trabalhadores Resumo por Estado No Nordeste, a situação não escapa da mesma realidade. Maranhão: o Estado mais pobre e mais desigual da Federação, foi administrado nos últimos 14 anos pelo Partido Comunista. Piauí: nos últimos 20 anos, dos 23 analisados, a administração foi do Partido dos Trabalhadores, como no Estado da Bahia. Uma observação não menor é que a Bahia é o terceiro colégio eleitoral e onde a esquerda obteve em média 3 milhões de votos mais do quaisquer outras opções políticas na disputa presidencial. Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a realidade muda, não apenas na coloração partidária, mas também na atividade econômica. Nos últimos 23 anos, em nenhum desses Estados, o partido dominante na maioria de anos administrando o Estado, foi de esquerda. Conclusões No Brasil do Sul, o modelo é mais próximo do capitalismo produtivo: salário, emprego formal, mercado de trabalho mais dinâmico, maior renda per capita e maior capacidade de atrair investimentos. No Sul, grandes setores da economia geram riqueza e empregos, o que resulta em base tributária mais sólida e maior autonomia dos cidadãos em relação ao Estado como provedor exclusivo. O contraste com o Norte é gritante: assistencialismo isolado, sem economia que cresce e produz, tende a criar uma população dependente e votante cativa, sem perspectivas reais de desenvolvimento econômico sustentável. Já um ambiente que combina proteção social com geração de riqueza dá às famílias a chance de sair da dependência e se tornar parte ativa da economia. O ponto é claro: assistencialismo sem criação de riqueza é insustentável. O socialismo que promete tirar de quem tem para dar a quem não tem, até pode gerar assistencialismo, mas sem um capitalismo que produz, paga imposto e sustenta a economia, o modelo socialista perde seu fundamento e não resiste ao tempo. Um Brasil dividido não criaria dois países mais fortes. Criaria dois países mais frágeis, cada um carregando metade de um problema que só juntos podem resolver. As regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram a maior parte da produção industrial, do agronegócio exportador e da infraestrutura logística do país. É ali que estão os principais portos. As cadeias produtivas. A maior geração de riqueza. Eliminar essa parte do país, mesmo como exercício teórico, não seria apenas uma tragédia humana sem precedentes. Seria o colapso econômico imediato do Brasil do Norte. O Nordeste, com toda sua riqueza cultural, potencial humano e importância histórica, ainda depende de transferências fiscais vindas da região Sul. Isso não é opinião. São dados do próprio pacto federativo. O que aconteceria se esse pacto fosse rompido? Se o Brasil do Sul seguisse sozinho, teria: a maior parte da indústria; o coração do agronegócio exportador; os principais portos e a infraestrutura logística; a maior arrecadação tributária; superávit comercial consistente. Ou seja, teria base para crescimento acelerado. Já o Brasil do Norte enfrentaria um cenário muito mais delicado: queda abrupta de arrecadação; redução drástica de transferências; dificuldade para financiar programas sociais; pressão inflacionária; risco de instabilidade fiscal crônica; a moeda perderia valor rapidamente; o desemprego explodiria. E aqui entra um ponto que poucos conseguem enxergar e quase ninguém tem coragem de dizer: a interdependência brasileira não é opcional — ela é estrutural. O Brasil do Norte precisa do fluxo de recursos. O Brasil do Sul precisa da unidade nacional para manter escala, mercado interno e estabilidade política. Separar não resolveria desigualdades. Amplificaria, e talvez o mais perigoso: criaria a ilusão de que o problema é geográfico… quando, na verdade, é estrutural. Enquanto uma parte significativa da população não tiver acesso à educação de qualidade, nutrição adequada na primeira infância e oportunidades reais de crescimento, vamos continuar presos nesse ciclo: produção concentrada de um lado, dependência estrutural do outro. O Brasil não precisa se dividir. Precisa se equilibrar. Precisa transformar assistência em ponte, não em destino. Precisa levar desenvolvimento onde hoje existe apenas sobrevivência. Precisa romper o ciclo que transforma desigualdade em instrumento de poder. Porque, no final das contas, não existem dois Brasis. Existe um só país… tentando conviver com duas realidades completamente diferentes. Ignorar isso não resolve nada. Mas enfrentar com seriedade pode transformar tudo. O mapa da riqueza no Brasil não é um mistério. É o resultado direto de décadas de decisões políticas que transformaram geografia em destino. Não existe Norte forte sem o restante do país. Precisamos parar de transformar ignorância em entretenimento e irresponsabilidade em influência. Brincar com a destruição do próprio país não é humor. É o primeiro passo para esquecer o valor de quem somos como nação. Aos idiotas de plantão, recomendo prudência... Vai que o Brasil do Sul aceita a proposta de Felca. Youtuber e influenciador digital Felipe Bressanim Pereira (Felca) | Foto: Reprodução YouTube Leia também "A Carta Magna esquecida" O post O Brasil do Norte e o Brasil do Sul apareceu primeiro em Revista Oeste .

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