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Com aval dos EUA, Delcy Rodríguez tenta consolidar poder na Venezuela
Jornal O Globo

Com aval dos EUA, Delcy Rodríguez tenta consolidar poder na Venezuela

Em recente reunião realizada na embaixada dos Estados Unidos em Caracas, reaberta na semana passada pelo governo do presidente Donald Trump, a encarregada de negócios americana, Laura Dogu, foi perguntada por diplomatas estrangeiros sobre a realização de futuras eleições presidenciais no país. Segundo contou ao GLOBO uma fonte diplomática estrangeira em Caracas, Dogu respondeu que o tema foi conversado com o presidente da Assembleia Nacional (AN), Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina Delcy Rodríguez, e que a resposta do novo homem forte do chavismo foi: “A eleição será tarde demais para vocês [governo americano] e cedo demais para nós [governo venezuelano]. Impasse: A bandeira da discórdia na Venezuela Flexibilização: EUA aliviam sanções à Venezuela para liberar mais petróleo em meio à guerra com o Irã Passados três meses do ataque militar dos EUA à Venezuela, a conversa relatada pela encarregada de negócios americana reflete o jogo de poder que domina a política venezuelana. Trump é, na avaliação de fontes, analistas e jornalistas venezuelanos, o principal vencedor da nova Venezuela, na qual o chavismo liderado pelos irmãos Rodríguez tenta se consolidar como parceiro local dos americanos. A chefe de Estado e o presidente da AN também são vistos como ganhadores de um jogo que começou há pouco mais de três meses, mas hoje sua força depende da validação americana. Como disse Jorge Rodríguez a Dogu, para ele e sua irmã a variável mais importante é o tempo. Delcy Rodríguez e o chavismo — que sobreviveu a um ataque inédito dos EUA a um país da América do Sul — precisam de tempo para recuperar o apoio perdido pela decadência social e econômica, e os anos de repressão e miséria. Na avaliação de todas as fontes consultadas, uma futura eleição não acontecerá este ano. Delcy sabe que tem vários meses pela frente para se tornar uma candidata competitiva. Se disputasse uma eleição presidencial hoje com a líder opositora María Corina Machado como adversária, provavelmente seria derrotada, coincidiram as fontes ouvidas em Caracas. — Delcy precisa estabilizar a economia e atrair investimentos. A presidente interina já está em campanha, e é provável que anuncie um aumento do salário mínimo em maio, após quatro anos de congelamento — afirma Blanca Vera Azaf, diretora do site de notícias Bitácora Econômica. Medidas de racionamento: Venezuela decreta uma semana de feriado devido a crise de energia Para ela, “nesses três meses houve avanços econômicos e políticos importantes, mas ainda há enormes incertezas e, também, mal-estar dentro do chavismo”. — O madurismo foi sacrificado. Delcy avança no controle do poder, com o apoio dos EUA. Há setores do chavismo incomodados — aponta Azaf. A presidente interina já mudou 14 dos 33 ministros de seu Gabinete. Foram afastadas pessoas nomeadas por Maduro e a ex-primeira-dama Cilia Flores, em uma clara sinalização política por parte dos irmãos Rodríguez. Embora Nicolás Ernesto Maduro Guerra, filho do presidente que está preso nos EUA, continue aparecendo ao lado de Delcy em eventos públicos, o madurismo está desaparecendo. O desafio traçado por Delcy , afirmam analistas, é renovar o chavismo e deixar para trás um passado recente que implicou a perda de milhões de votos e o isolamento internacional. Os novos integrantes do governo são figuras como Oliver Blanco, vice-ministro para a América do Norte e a Europa, amigo da presidente interina e integrante do partido opositor Ação Democrática (um dos mais importantes da Venezuela pré-chavista). Apropriação de barris, controle da venda e mercado para americanos: Como Trump quer usar o petróleo da Venezuela Blanco integrou a AN de 2015, ano em que a oposição obteve uma vitória histórica contra o chavismo e passou a ser maioria no Parlamento. Com o recrudescimento da repressão, o agora vice-ministro se exilou no México. Hoje, casado com o presidente da Cruz Vermelha da Venezuela, participa do que o governo americano chama de transição, e o chavismo liderado pelos irmãos Rodríguez espera que seja uma etapa de consolidação de um novo projeto de poder. Muitas coisas estão mudando nesse processo, e muitas delas causam o mal-estar dentro do chavismo. Uma delas é a expressiva redução das imagens e símbolos sempre destacados ao longo dos 25 anos em que o chavismo governou sozinho a Venezuela. De acordo com a jornalista Sebastiana Barraez, que escreve no site Infobae, até mesmo dentro dos quartéis o panorama está mudando. Barraez revelou que o novo ministro da Defesa, general Gustavo González López, deu ordens de despolitizar a ainda chamada Força Armada Nacional Bolivariana (FANB). Como em outros espaços de poder, Delcy mostra querer menos ideologia e mais pragmatismo. Um dos riscos da estratégia da presidente é não conseguir manter a coesão dentro do chavismo e, sobretudo, no mundo militar. O país tem cada vez menos militares à frente de ministérios e cada vez mais tecnocratas próximos à presidente. — O principal vencedor até agora é, sem dúvida, o governo de Trump. Ele conseguiu transformar um inimigo, antes aliado aos principais adversários dos EUA, numa espécie de sócio forçado — afirma Phil Gunson, do Crisis Group, que também classifica os irmãos Rodríguez como “vencedores claros”. — A presidente tem o respaldo de Trump e não enfrenta ameaças internas. Mas teremos de ver o que a maioria dos venezuelanos vai querer. Falta muito a ser feito. Apoiadores de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela capturado pelos EUA, durante protesto em Caracas Juan BARRETO / AFP Uma das incógnitas nas últimas semanas é o futuro do temido Diosdado Cabello, ministro do Interior e historicamente considerado uma peça-chave do regime chavista. Cabello vem do mundo militar, participou das tentativas de golpe do ano de 1992 ao lado do ex-presidente Hugo Chávez e sempre ocupou posições de poder. É, principalmente, o homem que ainda controla grupos armados dentro do chavismo. Na semana passada, circularam rumores sobre uma suposta negociação envolvendo o Brasil e um possível exílio de Cabello em território brasileiro. As versões foram negadas por fontes em Brasília mas, caso um pedido seja feito por EUA e Venezuela, o governo Lula, disseram as fontes, “avaliaria”. — Depois de 3 de janeiro, a Venezuela tinha duas opções: virar o Irã ou tentar sobreviver da melhor maneira. Delcy está se posicionando e agora seu desafio é que o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) a acompanhe, sem fissuras — explica o jornalista Vladimir Villegas. Initial plugin text Para conseguir o respaldo contundente do PSUV, a presidente interina precisa de Cabello. Mas, se o ministro do Interior se tornar uma figura capaz de ameaçar a estabilidade política e os planos futuros de Delcy, seu afastamento não seria uma surpresa. Para os EUA, estabilidade significa um bom ambiente de negócios. Com a imediata redução da presença de sócios de China, Rússia e Irã, os empresários americanos também saíram ganhando nesse novo momento venezuelano. Segundo uma analista que falou sob condição de anonimato, “o ritmo dos investimentos americanos determinará o calendário político local”. — Se Trump considerar que precisa realizar eleições rápido para dar mais garantias aos empresários, esse será o caminho. Dentro do chavismo, por outro lado, especula-se uma derrota do americano nas eleições de novembro. Nesse cenário, a tutela americana poderia perder força.

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