Jornal O Globo
A febre das figurinhas voltou, e em escala inédita. Na última semana, o início da pré-venda do álbum oficial da Copa do Mundo de 2026 escancarou o tamanho da expectativa: site da Panini fora do ar, corrida por pacotes e um produto que já nasce recordista. Impulsionado pelo novo formato do torneio, com 48 seleções confirmadas após as repescagens, o álbum terá 980 cromos, 112 páginas e pacotinhos a R$ 7 — o maior da história. E completar o álbum, desta vez, promete ser um desafio, sobretudo para quem quer gastar pouco. Diante do preço mais alto dos pacotinhos, há quem já tenha desistido de entrar no jogo. Mas, como manda a tradição, os aficionados seguem firmes: organizam estratégias, combinam encontros e se preparam para a velha (e essencial) arte da troca de figurinhas. A jornalista e influenciadora Giovanna Attili Moura (@sccp.attili), de 23 anos, que faz coleção desde a Copa de 2006, na Alemanha, é uma das que vão à luta. Sua estratégia inicial foi não comprar o álbum na pré-venda e sim esperar chegar às bancas. A previsão é 1º de maio. — Me planejei um pouco, tenho algum dinheiro guardado, mas os preços me pegaram de surpresa. Talvez seja mais demorado completar do que imaginava — conta Giovanna ao GLOBO. — A não ser que a Panini veja meu potencial como influenciadora e resolva me ajudar (risos). Initial plugin text Para a moradora de Franca, no interior de São Paulo, completar o álbum da Copa é tradição familiar importante. É quando ela se reúne com o pai e a mãe para abrir os pacotinhos. Foi o pai José Eduardo Moura de Jesus, de 57 anos, que a incentivou na infância. Para ela, o álbum mais marcante é o de 2010, da Copa da África do Sul, quando a mãe o comprou de surpresa, e uma tia lhe presenteou com 100 pacotinhos. Uma época com outra realidade, na qual o pacote saía a 75 centavos. O preço não parou de subir desde então: R$ 1 em 2014 (Brasil); R$ 2, em 2018 (Rússia); e R$ 4, em 2022 (Catar). Assim, a principal estratégia segue sendo a ajuda mútua entre colecionadores nos tradicionais pontos de troca. — Em Franca, todo ano de Copa, os colecionadores se reúnem nas pracinhas para trocar figurinhas. As mais conhecidas ficam lotadas e a gente passa a tarde inteira do final de semana trocando. As pessoas se reúnem também durante a semana, à noite. Então, dá para ir todo dia se quiser — diz Giovanna. — É uma boa estratégia. Gasta o suficiente para ter as figurinhas sem ficar comprando muitos pacotinhos à toa. Giovanna Attili Moura, de 23 anos, tem figurinhas antigas dos álbuns da Copa do Mundo: tradição familiar Arquivo pessoal De toda forma, ela reconhece que essa paixão está mais restrita nos tempos atuais. Na última Copa, em 2022, por exemplo, eram necessárias cerca de 670 figurinhas para completar o álbum, com cada envelope custando R$ 4, com cinco figurinhas (R$ 0,80 cada). O valor mínimo para completar o álbum era de R$ 536. Para fechar o álbum de 2026, o valor mínimo é de R$ 980, aumento de 82,84%. Mas, segundo o matemático Gilcione Nonato, da Universidade Federal de Minas Gerais, a probabilidade de uma pessoa preencher o álbum sem comprar nenhuma figurinha repetida é a mesma de ganhar na Mega-Sena, com uma aposta simples, 55 vezes consecutivas. Ele afirma que será preciso investir em média R$ 6.200 para completar este álbum, sem efetuar trocas de figurinhas. É o equivalente a aproximadamente 885 pacotinhos. Ele explica: serão gastos, em média, R$ 980 (140 pacotes) para efetivamente preencher o álbum, e outros R$ 5.220 com as figurinhas repetidas. Gilcione considerou que todas as figurinhas possuem as mesmas chances de serem sorteadas, uma vez que a Panini informou ao GLOBO que todas as figurinhas, incluindo as especiais, têm a mesma tiragem. — Mas, se houver um grupo de dez pessoas trocando figurinhas, por exemplo, o custo com as repetidas tende a ser dividido pelas pessoas do grupo. Dessa forma, cada uma gastaria 980 reais para preencher o álbum e cerca de R$ 520 com as figurinhas repetidas, totalizando 1.500 reais — explica o matemático, que lembra que quanto maior o grupo, menor o custo com as figurinhas repetidas. O matemático calculou ainda que para preencher somente uma seleção específica, com 20 jogadores, a pessoa gastaria em média R$ 3.525, equivalente a pouco mais de 500 pacotes. Ou seja, para preencher somente uma seleção, a pessoa compraria 3.500 repetidas, em média. — Além de diminuir os custos, montar álbum de figurinha é um incentivo à interação entre as pessoas. Trocar figurinha é muito bom, é uma socialização, uma brincadeira. É melhor do que ficar preso às redes sociais — opina Gilcione, ao lado dos filhos, Gael e Bianca, terá também um álbum. — E queremos gastar o mínimo possível, ou seja, menos de R$ 1 mil. E olhe lá (risos). Para incentivar a troca de figurinhas, a Panini promete dar uma mãozinha. Ao GLOBO, a editora informou que fará promoções, ativações e eventos espalhados por todo o Brasil. A programação será divulgada nas redes sociais da Panini. Kit da Corrida Panini: camiseta de seleção e medalha que é um pacotinho de figurinha Divulgação Neste momento, já estão confirmados dois eventos. Aproveitando o boom das corridas, a editora vai realizar duas corridas de rua: uma em Belo Horizonte e outra em São Paulo, ambas em maio e com o mote de troca dos cromos. A ideia é juntar os colecionadores no pós-prova para essa troca. Em ambas corridas haverá área específica para juntar essa turma. Além disso, quem comprar o kit premium, ganha um álbum e um pacote de figurinha. As inscrições estão abertas no Tickets Sports. Mas, neste primeiro momento, não faltaram críticas à Panini. Do preço dos pacotinhos à confusa compra na pré-venda. O dia "d", na última quarta-feira, a pré-venda do álbum foi marcada por quedas no site da empresa e dificuldade para completar as compras. Raul Vallecillo, CEO da Panini, não quis comentar sobre a alta procura pelo álbum na pré-venda nem a instabilidade do site da editora. Sobre os preços, afirmou que o valor do pacote acompanha a quantidade de figurinhas: — O valor por pacotinho, com os 7 cromos por envelope, segue o padrão que temos seguido nos últimos anos de R$ 1 por figurinha. Então mantemos o que já praticamos nos últimos álbuns lançados — explicou o CEO — Nossa missão é sempre apresentar um álbum que consiga acompanhar os torcedores nesse campeonato único. No Brasil temos a tradição muito forte do álbum que se aliou à nossa paixão pelo futebol e, essa bagagem já vem há gerações. Então esse álbum se tornou parte inseparável da experiência do Mundial.
Go to News Site