Jornal O Globo
Tenho bons motivos para pegar o celular e grudar no Instagram: é satisfação garantida. Sigo perfis de psicanalistas, músicos, humoristas, agitadores culturais, então o conteúdo é sempre interessante: aprendo, me divirto e renovo a esperança de que as pessoas andam lendo mais, estão preocupadas com o meio-ambiente e unidas contra as guerras e o aumento de feminicídios. Será? Outro dia um conhecido me falou que passa o dia olhando vídeos de espremedores de espinhas. “É uma cachaça”. Eca. Que mundo ele habita? Começo dando esse exemplo levezinho para entrar em um assunto barra-pesada. Os algoritmos entregam só o que nos atrai e a gente cai nessa, achando que nossa fatia de mundo é a única significativa. Enquanto isso, o caos triunfa. Ao assistir ao intragável, mas elucidativo documentário “Machosfera”, minha esperança, que já era um fiapo, se desintegrou. Enquanto alguns batalham por uma sociedade mais justa e plural, influenciadores inconsequentes, vidrados em dinheiro e sem nenhum suporte emocional e crítico, arregimentam milhões de cabeças-oca e os convencem de que a violência é um símbolo de status. Em que mundo esses idiotas vivem? No mesmíssimo em que vivem você e eu. Em comum, temos a mesma pergunta: “em que mundo esses idiotas vivem?”, só que na visão deles, os idiotas somos nós, óbvio. Argumentos não lhes faltam para confirmar que eles é que são sábios. Suas redes sociais só entregam conteúdo vulgar embrulhado como “poder”: misoginia, pornografia, brutalidade. Tudo patrocinado pela ignorância (jamais veremos essa turma dentro de um teatro ou livraria) e pelo medo de perder o privilégio da superioridade. Para eles, sociedade horizontal é coisa dos sem-noção aqui. Não há como dialogar quando todos estão convencidos de que têm razão, embasados pelos próprios seguidores e pelos algoritmos que alimentam esta egotrip. Ninguém vai admitir que pode estar errado. Que se dane o consenso. A guerra dos sexos, que parecia coisa do passado, voltou ainda mais desumana. Assim como a guerra entre os que só pensam em si versus os que pensam em todos. Defender, juntos, os mesmos princípios básicos? Utopia. Em vez de furarmos as bolhas, cada uma delas está recebendo uma camada extra de antiaderente. Qualquer grupo, por mais estúpido, tem quórum, representatividade e ferramentas tecnológicas para inventar sua própria verdade: as fake news passaram a ser um direito quase constitucional. Não há um único ser vivo, por mais delirante que seja, que não tenha sua rede de apoiadores, pública e notória. Inclusão, agora, é isso. Não tem mais a ver com estudo, comida, emprego, saúde. É encontrar sua turma e escolher suas armas.
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