Collector
Em tempos de novidade constante, repetição ressurge como motor de transformação | Collector
Em tempos de novidade constante, repetição ressurge como motor de transformação
Jornal O Globo

Em tempos de novidade constante, repetição ressurge como motor de transformação

Há uma frase que volta sempre à minha cabeça: “A repetição é uma forma de mudança”. Ela vem das “Oblique Strategies”, um baralho de cartas criado por Brian Eno e Peter Schmidt nos anos 1970 para ajudar artistas a sair de bloqueios criativos. Cada carta traz uma instrução inesperada, quase enigmática. Essa é uma delas. À primeira vista, parece um paradoxo elegante — o tipo de frase que soa bem demais para ser levada a sério. Mas quanto mais o tempo passa, mais ela me parece não tão absurda. Existe uma tirania contemporânea da novidade. Em qualquer campo — moda, negócios, arte, comportamento — o imperativo de ser novo, disruptivo e revolucionário tornou-se tão absoluto, que quem ousa repetir, insistir e aprofundar começa a ser visto com suspeita. Como se constância fosse preguiça. Como se fidelidade a uma visão fosse conservadorismo. No entanto, quando observamos o que de fato resistiu, o que atravessou décadas de crises e modismos sem perder a força, descobrimos quase sempre a mesma coisa: não a reinvenção compulsiva, mas a insistência profunda. As marcas que mais inspiram admiração não são as que se reinventaram a cada ciclo. São as que dominaram uma proposta e foram escavando nela até encontrar o que estava mais fundo. Constância não é o oposto de transformação. É o seu método mais radical. A música entende isso de forma instintiva. Uma melodia repetida muitas vezes começa a revelar camadas que não estavam visíveis na primeira escuta. O ouvinte muda, e o que era familiar começa a parecer novo sem que uma nota tenha sido alterada. Na moda acontece o mesmo. Chanel repetiu o tweed por décadas. Armani não largou sua paleta de cinzas e bege em meio século de trabalho. Alaïa revisitou obsessivamente a mesma ideia de corpo, e cada peça era ao mesmo tempo reconhecível e surpreendente. A repetição, ali, não era ausência de imaginação. Era coragem de não se distrair. Vivemos um momento em que essa coragem ficou rara. O algoritmo pune quem não entrega novidade a cada ciclo. A ansiedade de relevância consome mais energia do que o próprio trabalho. Nesse cenário esquizofrênico, em que a atenção coletiva dura menos que um story, paradoxalmente são os constantes que sobrevivem. Porque a constância cria algo que a novidade compulsiva nunca consegue, a profundidade de campo. Uma visão que se adensa com o tempo. Uma voz que só se torna inconfundível através da repetição paciente de si mesma. Estilo não se decreta; sedimenta-se. O que Eno e Schmidt intuíram com aquela frase não é uma instrução técnica. É uma descrição da natureza do tempo. Nada que se repete permanece idêntico a si mesmo, porque o contexto muda, o olhar muda, a pessoa que repete muda. Cada retorno é uma versão ligeiramente diferente do mesmo gesto; e é nessa diferença quase imperceptível que a transformação também acontece. Não no salto, mas no acúmulo. Não na ruptura, mas no refinamento. Toda obra que dura foi construída por alguém que não teve medo de repetir. Que voltou à mesma pergunta, ao mesmo tema, à mesma obsessão, não por falta de imaginação, mas por excesso de compromisso com o que ainda não havia sido completamente dito. Repetir, nesse sentido, não é conservar. É recusar a superfície. É insistir que há mais. E quase sempre — quando se tem a paciência e a integridade de não abandonar o que ainda não se esgotou — há.

Go to News Site