Collector
Puro suco do Rio: do subúrbio à Baixada, vivências e hábitos inspiram o jeito de vestir e decorar | Collector
Puro suco do Rio: do subúrbio à Baixada, vivências e hábitos inspiram o jeito de vestir e decorar
Jornal O Globo

Puro suco do Rio: do subúrbio à Baixada, vivências e hábitos inspiram o jeito de vestir e decorar

Os doces de Cosme e Damião em saquinhos, as imagens de São Jorge em esquinas, o salgado e o refresco vendidos a um preço camarada. São inúmeros os símbolos e hábitos que, juntos, dão o tal “suco de Rio de Janeiro”, que muitas vezes passam despercebidos em meio ao cotidiano. Mas toda essa cultura carioca e fluminense, suburbana e periférica, migrou para camisas, bandeiras, cangas e tantos outros produtos que, como ícones da representatividade, caíram no gosto da rapaziada como moda. Tipo exportação: bares e até quiosques cariocas extrapolam divisas e chegam a Brasília e São Paulo Censo das estátuas do Rio: das 376 personalidades homenageadas, só 6,9% são mulheres e 8,5% negros — O nosso hype é antigo, só que, agora, elementos do cotidiano carioca, como chinelos, cadeiras de bar, vira-latas pelas ruas, camisetas de times locais, divindades de religiões de matriz africana e carioquices em geral se tornaram icônicos porque estamos vivendo um boom de paixão nacional e global pela cidade — avalia Paula Acioli, pesquisadora e analista de moda, que exalta o “borogodó” do Rio. — É como um antídoto para o baixo-astral global. Um dos expoentes dessa tendência é Felipe Vaz, de 27 anos, criador da marca Terra de Mulher Bonita. Com barraca instalada nos fins de semana nas feiras da Praça Quinze e da Glória, o artista independente, cria da Vila São Luís, em Duque de Caxias, é influenciado por suas vivências como cidadão da Baixada para desenhar os produtos. Vivências em Duque de Caxias inspiram criações de Felipe Vaz, que segura um pano de prato com os 25 grupos do jogo do bicho Júlia Aguiar Venda de cogumelos ‘mágicos’ cresce no Rio: sem legislação clara, alucinógenos são estudados pela ciência O nome da marca (nascida em 2024) faz referência a uma frase pintada em uma balsa ancorada ao lado da Linha Vermelha com elogio às moças caxienses. As mesmas palavras batizaram primeiro o álbum lançado em 2018 por Felipe, que é cantor e compositor. — Tudo o que ia escrever sobre mim esbarrava invariavelmente no meu território. Ali, eu começava a entender que não estou deslocado de onde vim. Ao falar sobre mim, falava de uma igreja da minha infância, de um bar que frequentava, de um lugar a que ia com os amigos — lembra Felipe. Jogo do bicho, saco de pipoca e Cosme e Damião: inspirações dos produtos vendidos por Felipe Vaz e a marca Terra de Mulher Bonita Júlia Aguiar Adeus a Caubi: garçom veterano recebe homenagem póstuma de alunos da Faculdade Nacional de Direito Santos e jogo do bicho Para a divulgação do álbum, sua “última cartada” foi transformá-lo num produto. Foi assim que nasceu — à época com poucas estampas — o perfil @terrademulherbonita no Instagram, hoje com 18,4 mil seguidores. Os primeiros mil seguidores foram alcançados quando a artista plástica Sabryna Motta compartilhou nas redes uma bandeira com a frase “Terra de Mulher Bonita”, que havia encomendado a Felipe para enfeitar sua casa. Ali, o jovem enxergou um mercado e migrou para as feiras de rua. Terra de Mulher Bonita: Felipe Vaz ao lado da barraca que monta nas feiras da Glória e da Praça Quinze Arquivo pessoal O foco passou a ser nas bandeiras, vendidas em sete opções de tamanho, com a menor saindo a R$ 25 e a maior, a R$ 160. Entre as estampas mais pedidas estão a de Cosme e Damião (com referência à bandeira do Brasil e à frase “Fé nas crianças”) e a dos dizeres “O inimigo é fraco perto das rezas de minha mãe”. Já a bandeira mais conhecida produzida por ele é a com os 25 grupos do jogo do bicho, do avestruz à vaca, vendida também como pano de prato ou canga. 'O inimigo é fraco perto das rezas de minhas mãe': frase estampa bandeira vendida por Felipe Vaz e sua marca (Terra de Mulher Bonita) Júlia Aguiar Helicóptero na praia: Piloto que fez pouso de emergência no mar da Barra da Tijuca foi forçado por criminosos a fazer voo em 2021 e atuou na morte de Matemático Seus produtos fazem alusão ainda às embalagens de salgados (com a famosa inscrição “Feito com amor”) e de pipocas de rua. Resultado: todo mundo reconhece, lembra de alguma lanchonete, barraquinha de comida ou carrocinha de pipoqueiro que já fez parte de sua vida. — Como diz uma música dos Racionais, “Periferia é periferia em qualquer lugar”. As periferias e os subúrbios se parecem. Tento dialogar com aquilo que é comum para as pessoas, para mim, para a minha religiosidade, com o que entendo de ser brasileiro — observa o artista. 'Feito com amor': embalagem de salgados vendidos na rua inspiraram arte vendida por Felipe Vaz Júlia Aguiar Sem bom senso em sem regras: Flagrantes de irregularidades no tráfego de bicicletas se acumulam nas ruas do Rio à espera de regulamentação ‘Sudoeste é vento’ A tal representatividade também foi a aposta do publicitário Osmane Fonseca, cria de Irajá, ao fundar a Irada, marca de camisas vendidas pela internet com estampas inspiradas nos nomes de bairros, mas também em experiências que só quem viveu conhece, como os itinerários anunciados nos alto-falantes de Kombis. Até a camisa “Sudoeste é vento”, crítica à nova região do Rio criada no ano passado, faz sucesso. — A ideia da Irada é ser uma coisa nostálgica, que traga lembranças. É celebrar a cultura local e o dia a dia do suburbano — conta Osmane. — Começou como marca suburbana, mas atinge o Rio inteiro. Virou algo que faz com que muitos nos procurem: chegou ao ponto de o pessoal do Leme e do Catete pedir camisas, e comecei a fazer. Trend da Rocinha: vídeo de drone em laje da favela vira febre e é copiado no país e no mundo; escolha o seu preferido Um dos primeiros nesse ramo foi o niteroiense Beto Neves, fundador da grife Complexo B, no fim dos anos 1990. Pensando em um carioca malandro, mas chique, a marca fez sucesso ao caracterizá-lo como devoto de São Jorge. — Até então era coisa de suburbano e trago isso para a passarela. São Jorge simbolizava a luta contra a mesmice na moda masculina, acabou virando ícone e despertou o sentimento velado nas pessoas que gostavam (do santo), mas não se permitiam — lembra Beto, que também fez sucesso com estampas de pontos turísticos “off-Cristo Redentor” e bairros como Madureira e Méier. — As pessoas estão muito cansadas do normal. Está tudo muito fácil, acessível. Então, elas vão buscar o original. Beto Neves, criador da Complexo B Ana Branco / Agência O Globo / 21-04-2020 Seguindo o mesmo ritmo de Beto, o negócio de Felipe Vaz não para de crescer. Ele concentra todas as etapas da produção da sua marca, da elaboração dos designs e reposição do estoque à entrega nos correios e à montagem da barraca. Mas, no último fim de semana, pela primeira vez, se aposentou das vendas na rua. Contratou funcionárias que se revezam entre Glória e Praça Quinze. E ele não quer parar por aí.

Go to News Site