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‘Deixou um vazio’: concluída há 50 anos, demolição do Palácio Monroe traz ensinamento sobre o Rio e o Brasil | Collector
‘Deixou um vazio’: concluída há 50 anos, demolição do Palácio Monroe traz ensinamento sobre o Rio e o Brasil
Jornal O Globo

‘Deixou um vazio’: concluída há 50 anos, demolição do Palácio Monroe traz ensinamento sobre o Rio e o Brasil

Três anos antes do bebê Oscar Niemeyer vir ao mundo, um projeto arquitetônico brasileiro conquistou inédito reconhecimento internacional. Criação do engenheiro Francisco Marcelino de Souza Aguiar, a sede nacional da Exposição Universal de Saint Louis, nos Estados Unidos, em 1904, ganhou o Grande Prêmio Medalha de Ouro, superando representantes dos demais países presentes no evento. O orgulho da conquista foi tão grande que levou à ideia ambiciosa: a estrutura metálica do prédio seria desmontada e remontada no Rio de Janeiro, na Avenida Central, atual Rio Branco, marco inaugural das transformações da capital no início do século passado. No novo endereço, a partir de 1906, o imponente Pavilhão São Luiz, rebatizado como Palácio Monroe — em homenagem ao ex-presidente americano James Monroe —, abrigou grandes acontecimentos e, até a mudança para Brasília, o plenário do Senado Federal. Há 50 anos, em 1976, o cenário de tanta história veio abaixo, a golpes de marreta, marteletes, e com paredes puxadas por trator. — Deixou um vazio. A cidade não se esquece da presença do Monroe. Colocaram um chafariz, mas parece que o fantasma do palácio continua ali — resume Jane Santucci, arquiteta, urbanista e professora da UFRJ. cartão-postal carioca “Observando, procura-se em vão uma simples falha, um ponto onde a vista sinta a aspereza de uma linha, onde uma curva, uma janela, qualquer decoração desagrade. Essa construção representa um poema”, elogiou o jornal americano The St. Louis Republic, na edição de 10 de abril de 1904. À beira-mar, entre o obelisco da avenida e o Passeio Público, o palácio de estilo eclético, inspirado no renascentismo francês, não demorou a se destacar, com o maior de seus três domos erguido a 40 metros de altura, leões esculpidos em mármore de Carrara e ladeado por 36 colunas gregas. O projeto de Souza Aguiar — militar, prefeito da capital de 1906 a 1909 e imortalizado como nome de hospital — tornou-se um cartão-postal carioca, com direito a fachada estampada na nota de 200 réis, além de suvenires diversos. Suas instalações receberam a Câmara dos Deputados, entre 1914 e 1922, e o Senado, a partir de 1925. Entre outros eventos marcantes, em 1920, foi belamente iluminado para celebrar a visita do rei Alberto da Bélgica. Um intervalo na atividade parlamentar se deu com a revolução de 1930, quando o palácio virou quartel-general das tropas gaúchas de Getúlio Vargas. O Senado voltaria ao endereço em 1946, e lá ficaria até a mudança da capital federal para Brasília — mesmo assim, uma estrutura burocrática, conhecida como “Senadinho”, permaneceria por lá até 1975. Na primeira metade da década de 1970, os tempos de glória já iam longe. Aí o debate ganhou força: o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) propôs ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) o tombamento do conjunto arquitetônico remanescente das origens da Avenida Central, mas a preservação do Monroe, parte dessa lista, foi rechaçada pelo arquiteto e urbanista Lucio Costa. — O Monroe ganhou o primeiro prêmio internacional da arquitetura brasileira, mas estava fora do que a geração dos modernistas, que depois se tornou muito influente, considerava autêntico. Lucio Costa chama o ecletismo de “hiato”, algo que não faz parte da história — observa o cineasta Eduardo Ades, diretor do documentário “Crônica da demolição”, de 2015, retrato vivo da derrubada do palácio disponível na internet. Como é notório, a posição do arquiteto modernista foi vencedora. A discussão sobre o destino do Monroe inspirou várias versões sobre as razões de sua demolição. As teorias foram das obras do metrô a uma birra do então presidente da República, o general Ernesto Geisel, com um antigo colega de armas da família Souza Aguiar. No primeiro caso, a intervenção na região do Centro exigiu a demolição da escadaria do palácio — mas o traçado dos trilhos, partindo da estação Cinelândia, ganhou uma curva que o desvia do terreno onde, no lugar do palácio, ficam hoje a Praça Mahatma Gandhi e um estacionamento subterrâneo. O diretor Eduardo Ades conta que, na época da produção do filme, chegou a pesquisar a suposta desavença entre Geisel e os Souza Aguiar e a considerou improcedente: — Isso não prospera, o que havia eram interesses de uso do solo, de grana, de poder do capital econômico — diz ele. O presidente ‘recomenda’ Nos arquivos da Secretaria de Patrimônio da União, documentos revelam o desejo de instituições públicas, como a Justiça Federal, de ocupar o Monroe, antes da definitiva “recomendação do Senhor Presidente da República no sentido da demolição do prédio e consequente transformação da área em logradouro público”. Também foi registrada a licitação vencida pela Demolições Aghil Comércio de Ferro Ltda, que, segundo as regras estabelecidas, pagou ao poder público para executar o serviço e, em troca, ficar com “o material do edifício” para auferir renda. O bota-abaixo, que deveria durar 118 dias, a partir do início de 1976, se arrastou ao longo do ano: a empresa alegou dificuldades extras, como a resistência da argamassa com óleo de baleia usada nas paredes do prédio. O dinheiro investido pela Aghil foi recuperado só com a venda de dois dos quatro leões de mármore que ornavam o palácio: um par hoje enfeita uma fazenda em Minas e o outro está no Instituto Brennand, em Pernambuco. Em Brasília, no Congresso Nacional — projeto do já consagrado arquiteto Oscar Niemeyer —, o Museu do Senado guarda peças do tempo em que a “câmara alta” parlamentar ocupou os palácios Conde dos Arcos e Monroe, no Rio de Janeiro. — Muita coisa que era mesmo do Monroe foi vendida, doada, extraviada. Mas, entre outros objetos, temos mobiliário, microfones, que foram implementados em 1950, e um belo vitral — conta Maria Cristina Monteiro, coordenadora do Museu do Senado. Em brasília, outro ataque Algumas peças danificadas pela multidão golpista que invadiu o Congresso no dia 8 de janeiro de 2023 já haviam sobrevivido à demolição do Monroe. Na lista estão um tapete persa, uma mesa e uma cadeira do século XIX, além de uma pintura de grandes dimensões do espanhol Gustavo Hastoy. Em Brasília, o quadro de 2,90m por 4,41m, retrato da assinatura da primeira Constituição da República, teve parte inferior da tela descolada e sofreu arranhões na moldura de cedro banhada a ouro. É uma das obras afetadas que ainda aguardam restauração.

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