Jornal O Globo
Em meio ao avanço acelerado da Inteligência Artificial na área da saúde, o médico Marco Orsini, com formação em neurologia, pós-doutorado pela UFRJ e responsável pelo serviço de Doenças Raras do Hospital Niterói D’Or, propõe uma reflexão profunda sobre os caminhos da Medicina contemporânea. Em entrevista exclusiva ao Jornal O Globo, ele, que atua diretamente com pacientes acometidos por doenças neurológicas raras, destaca a importância de valorizar o presente e os detalhes do cuidado humano. “Sou muito favorável aos momentos quebrados do que inteiros. Vivemos e idealizamos momentos futuros e inteiros, mas não fazemos o possível nos detalhes cotidianos”. Ao abordar o avanço da Inteligência Artificial, Orsini demonstra preocupação com a construção de um modelo de atendimento cada vez mais mecanizado. Segundo ele, há uma crescente tendência de formação de um “profissional artificial”, com padrões de comportamento e comunicação moldados por algoritmos. Ainda assim, reforça que a essência da Medicina permanece insubstituível. “Será impossível programas e robôs, por mais treinados que sejam, sequer simular a figura de quem avalia nas minúcias, desenha um diagnóstico, solicita exames e, quando necessário, medicaliza. Ouvir, escutar, conhecer a família e ceder o lugar do centro para o paciente é algo que nenhuma ferramenta de IA fará”. A escolha por atuar com pacientes raros também reflete sua visão sobre a individualidade humana. “Escolhi trabalhar com pacientes raros pois parto do pressuposto que todos nós somos únicos e, por que não, raros, com estrutura psíquica distinta e corações que batem de forma descompassada”. Para ele, o acompanhamento vai além do diagnóstico assertivo. Envolve presença, sensibilidade e conexão genuína. Gestos simples, como o toque e o abraço, não podem ser substituídos nem adiados. “O computador não conhece o sorriso, o choro de alegria ou tristeza, o luto. Não é capaz de captar os sinais oriundos do encontro de olhos com olhos”. Marco Orsini Arquivo pessoal Ao comparar a Medicina antes da introdução da Inteligência Artificial, Orsini utiliza uma metáfora afetiva. Segundo ele, era como um sofá antigo, confortável, adaptado, com imperfeições, mas capaz de oferecer acolhimento e suporte reais. Por fim, faz um alerta à nova geração da área da saúde. Para ele, é necessário equilibrar conhecimento técnico e avanço tecnológico com humanidade e propósito. “A gente sempre vai precisar de alguém para sentir o calor das mãos, da sinceridade no olhar e da base da amizade. Esse é o alicerce do amor na relação médico-paciente. A energia não tem como medir e sentir”. Também demonstra preocupação com a forma como parte dos profissionais têm se relacionado com a carreira. “Me preocupo muito com aqueles que, intrinsecamente, pensam inicialmente em cifras com o paciente. Eles precisam pausar e repensar o significado da vida”. Sobre Marco Orsini - Médico com Formação e Doutorado em Neurologia pela UFF. Agendamento: (21) 98888-4335
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