Jornal O Globo
"A Terra lá fora parece um pequeno crescente. É magnífico”, afirmou o comandante da Missão Artemis II, Reid Weisman, no momento em que a tripulação na cápsula Orion se preparava para o clímax de uma jornada crucial para os planos dos EUA de retornarem à Lua: a maior aproximação feita por uma missão tripulada em cinco décadas, realizada na noite desta segunda-feira. Por horas, Weisman, Christina Koch, Victor Glover e Jeremy Hansen colaram com os olhos e câmeras nas janelas para observar de perto nosso satélite natural, com detalhes que nem as missões anteriores conseguiram. Neste dia histórico, a Artemis II bateu um recorde, o da mais longa jornada espacial tripulada. — Continuaremos nossa jornada ainda mais longe no espaço antes que a Mãe Terra consiga nos trazer de volta a tudo o que nos é caro, mas, acima de tudo, escolhemos este momento para desafiar esta geração e a próxima a garantir que este recorde não dure muito tempo — afirmou Hansen, durante a transmissão ao vivo da Nasa. Acompanhe: Artemis II chega hoje ao ponto mais próximo da Lua; saiba como ver onde ela está agora Artemis II: De e-mail travado a sono 'de morcego', confira alguns 'perrengues' da missão rumo à Lua O ponto máximo de aproximação ocorreu às 20h02, pelo horário de Brasília, quando a Orion chegou a cerca de 6,5 mil quilômetros da superfície, mas imersa no tenso silêncio do blecaute de comunicações, já previsto pelo comando de terra quando a espaçonave cruzasse o lado mais distante da Lua. Desde a Missão Apollo 17, em dezembro de 1972, humanos não chegavam tão perto de nosso satélite natural. — É um privilégio testemunhar vocês levando essa chama além do nosso alcance mais distante — disse Jenni Gibbons, astronauta canadense responsável pela comunicação com a Orion, pouco antes da perda da comunicação. — Obrigada. Que Deus os proteja. Victor Glover, piloto da missão, pediu que o mundo orasse por eles e disse um "nos vemos do outro lado". A etapa mais importante da jornada começou na madrugada desta segunda-feira, quando a Orion ingressou na esfera gravitacional da Lua, sendo “puxada”. Mesmo antes do início da fase de observação direta, iniciada na tarde desta segunda-feira, os tripulantes enviaram imagens de áreas como o Mare Orientale, uma bacia de impacto próxima à face oculta da Lua. — A Lua que estamos vendo não é a mesma Lua que você vê da Terra — disse Koch ao comando da missão. — A Lua é realmente um corpo celeste com seu próprio propósito no Universo. Não é apenas um cartaz no céu que passa despercebido. Imagem da Terra vista pela janela da capsula Orion, durante a Missão Artemis II Nasa No começo da manhã, a tripulação ouviu uma mensagem gravada de Jim Lovell, astronauta que participou das missões Apollo 8 e Apollo 11, e que morreu em agosto do ano passado. Na fala, deu as boas vindas “à sua vizinhança” e lembrou como as jornadas ao espaço “inspiraram e uniram pessoas ao redor do mundo”. — Tenho orgulho de passar esse bastão para vocês enquanto orbitam a Lua e lançam as bases para missões a Marte, em benefício de todos. É um dia histórico, e sei o quanto vocês estarão ocupados, mas não se esqueçam de apreciar a vista — completou. Lua vista por uma das janelas da cápsula Orion, durante a Missão Artemis II Nasa Um dia histórico, como decretou Lovell, que teve na quebra de um recorde um dos ápices da jornada. Às 14h56, pelo horário de Brasília, a Orion superou a marca de 400,171 km percorridos, estabelecida em 1970 pela Missão Apollo 13, mais conhecida pela iminência do desastre. Às 20h07, os astronautas estavam a 406.771 km da Terra, a maior distância da viagem. — Ao ultrapassarmos a maior distância já percorrida por humanos a partir do planeta Terra, fazemos isso honrando os esforços e feitos extraordinários de nossos antecessores na exploração espacial humana — declarou Hansen. Em um momento carregado de emoção, Hansen pediu, em nome da tripulação, que uma das crateras observadas fosse nomeada "Cratera Carroll", em homenagem à mulher de Wiseman, Carroll Wiseman, que morreu de câncer em 2020. Durante o tratamento, o hoje comandante da Artemis II cogitou abandonar os planos de ir para o espaço, mas sua mulher o impediu. Ao longo do sobrevoo, os astronautas, que se revezaram nas janelas com câmeras e tablets, repararam diferentes tonalidades nas sombras causadas pela luz solar — algumas crateras mais “novas”, como notou Koch, parecem mais brilhantes. — Na verdade, parece um abajur com minúsculos furos, por onde a luz brilha —disse. — Eles são muito brilhantes em comparação com o resto da Lua. Victor Glover, descrevendo a zona de crepúsculo, "linha" que divide as partes iluminadas e escuras do satélite, disse que “existem ilhas de terreno lá fora que estão completamente cercadas pela escuridão, o que indica uma variação real no relevo, e que ao norte, há uma cratera dupla muito bonita”. — Parece um boneco de neve sentado ali — apontou. — Há tanta magia no terminador (outro nome para zona de crepúsculo), nas ilhas de luz, nos vales que parecem buracos negros. Você cairia direto para o centro da lua se pisasse em algum deles. É visualmente fascinante. Esse terminador é a coisa mais impressionante que já vi. Missão Artemis II chega mais longe da Terra, quebrando o recorde da missão do Apollo 13, em 1970 Reprodução / YouTube / Nasa As luzes internas da Orion foram reduzidas, criando um desafio a mais para os astronautas. — É uma função muito cansativa para os olhos, olhar pela janela e ver a lua muito brilhante e depois voltar para a cabine escura e tentar operar câmeras e microfones, lidar com a logística, o almoço e coisas do tipo — disse Glover ao comando da missão. Nasa lança missão Artemis II, que fará primeiro sobrevoo tripulado da Lua em 53 anos Embora planejado, um dos momentos mais críticos teve início às 19h43, pelo horário de Brasília: o corte das comunicações entre o comando em terra e a Orion, devido ao bloqueio dos sinais de rádio na face oculta da Lua. Em 2019, Michael Collins, que permaneceu em órbita enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin se tornaram as primeiras pessoas a pisarem no satélite natural, descreveu ao New York Times a sensação de isolamento no espaço quando ficou sem contato com a Terra. — Eu tinha esse pequeno e belo domínio — declarou Collins, integrante da missão Apollo 11 (1969) e que morreu em 2021. — Era todo meu. Eu era o imperador, o capitão, e era bastante espaçoso. Eu tinha até café quentinho. O blecaute de rádio é um dos grandes desafios não apenas para a Artemis II, mas para os planos futuros de exploração espacial. Como disse à rede BBC Matt Cosby, diretor de tecnologia da estação de Goonhilly, na Inglaterra, que ajuda a rastrear a espaçonave, "para uma presença sustentável na Lua, é necessário ter comunicação plena, 24 horas por dia, mesmo no lado oculto, porque o lado oculto também vai querer ser explorado". Contudo, ele acredita que novas tecnologias tornarão este um "problema do passado" em breve. Jeremy Hansen, astronauta da Missão Artemis II, se barbeia durante viagem à Lua Nasa Prevista para retornar à Terra no dia 10, a Artemis II foi uma aposta cara, arriscada e que envolveu seguidos atrasos, mas que a Nasa acredita ser um passo importante para viabilizar uma missão tripulada ao solo Lunar até 2028, como determinou o presidente dos EUA, Donald Trump, e futuramente construir uma base permanente. A pressa, que colocou em segundo plano uma expedição a Marte, tem nome: a China, que fez avanços em sua indústria aeroespacial, tem uma estação espacial, a Tiangong, e que pretende colocar seus taikonautas no satélite natural até 2030 — O tempo está correndo nesta competição entre grandes potências, e o sucesso ou o fracasso serão medidos em meses, não em anos — disse, no mês passado, o diretor da Nasa, Jared Isaacman. Veículo lançador chinês Longa Marcha 2F é lançado na missão Shenzhou 15, que levou 3 taikonautas à estação espacial Tiangong You Li/The New York Times Segundo estimativas, Pequim pode suplantar as capacidades espaciais americanas até 2045. — [A China] está observando atentamente tudo o que puder extrair das experiências da tripulação e da missão Artemis — disse ao jornal South China Morning Post Quentin Parker, professor de astrofísica da Universidade de Hong Kong, acrescentando que Pequim acompanha os desdobramentos da Artemis II "como um falcão".
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