Vogue Brasil
Existe um momento em The Drama em que o espectador percebe que não está diante de um filme de casamento, nem de uma comédia romântica, nem de um thriller psicológico, embora o longa flerte com os três ao mesmo tempo. O que está na tela é outra coisa: a reconstituição meticulosa de uma fofoca, contada com todos os detalhes, pausas, ironias e contradições que só um bom relato íntimo consegue ter. Produzido pela A24 e dirigido pelo cineasta norueguês Kristoffer Borgli, o longa mergulha nas fragilidades dos relacionamentos contemporâneos a partir de uma premissa simples e brutalmente eficaz. Emma Harwood (Zendaya) e Charlie Thompson (Robert Pattinson) são um casal apaixonado nos preparativos finais do casamento. O que começa como uma brincadeira entre amigos, confessar as piores coisas que já fizeram na vida, termina em um atentado emocional quando Emma revela um segredo chocante, colocando em xeque tudo o que Charlie acreditava saber sobre sua futura esposa. A estrutura em flashback funciona como contexto, mas também para mostrar como nossas memórias são afetadas pelas circunstâncias. Os mesmos momentos suaves do começo chegam ao final carregados de outro peso, como se o passado fosse sendo reescrito em tempo real. Quando a revelação chega, o clima muda, ela contamina tudo ao redor, e o queixo cai mais de uma vez (!). Charlie passa a enxergar Emma através de uma imagem do passado, quase como se o tempo colapsasse. Momentos íntimos passam a carregar uma sombra e cenários imaginários se confundem com a realidade -- uma cortesia da neurose e um terror para qualquer relacionamento. Robert Pattinson e Zendaya Divulgação Borgli é responsável pelos provocantes Doente de Mim Mesma (2023) e O Homem dos Sonhos (2024), comédia ácida com Nicolas Cage, e em The Drama abraça outros gêneros cinematográficos, como a comédia romântica e o suspense, para provocar na plateia um estado de confusão similar ao que os personagens estão vivendo na tela. O tom é um acerto de precisão cirúrgica. O humor existe, mas nunca como alívio puro. Ele tensiona, às vezes suaviza, só para, logo depois, tornar tudo mais perturbador. É um humor que habita o desconforto, quase como um mecanismo humano de sobrevivência diante do absurdo. Zendaya e Robert Pattinson em "The Drama" Divulgação O diretor leva essa lógica até a linguagem do próprio filme. Há uma cena em que uma palavra comum, repetida em contexto aparentemente inocente, passa a soar como uma detonação, endossada pelo design de som e pela fotografia de Arseni Khachaturan. O detalhe funciona como um chef´s kiss e resume bem o método de Borgli: semear simbolismos que não dão trégua e deixam o espectador permanentemente na beirada. Com uma montagem esperta assinada pelo próprio Borgli ao lado de Joshua Raymond Lee, o longa constrói um mundo crível de jovens liberais afluentes que se enrolam nas próprias hipocrisias. O conflito deixa de ser só emocional e se converte em dilema ético, mas sem jamais abandonar o afeto. A esse ponto, o roteiro recusa qualquer posição confortável ao espectador. Você compreende os dois lados. E talvez por isso mesmo comece a cogitar que o melhor caminho seria o fim, não por ausência de amor, mas porque algo foi fraturado de forma irreversível (e talvez para que a angústia causada para quem está do outro lado da tela acabe de vez.) No Rotten Tomatoes, 77% dos críticos aprovaram, e o consenso do site destaca que Pattinson e Zendaya entregam performances que representam o auge de suas carreiras. A atriz prova mais uma vez porque é considerada uma das maiores da sua geração ao conseguir empregar leveza em uma história que no core é pesadíssima, o que torna tudo ainda mais ambíguo; Robert é meticuloso na construção de mais um homem inseguro, oscilando com precisão entre o amor, a confusão e o julgamento. O elenco secundário, com Alana Haim (que tem se destacado como atriz) como a madrinha Rachel e Mamoudou Athie como o padrinho Mike, funciona como termômetro ético da trama, cada um à sua maneira e no seu volume. Robert Pattinson e Zendaya Divulgação Tematicamente, o filme opera em um registro ainda mais provocador. Ele não trata o segredo como algo que simplesmente define uma pessoa, mas como algo que colide com quem ela é e, sobretudo, com a forma como passa a ser percebida. Existe uma distância abissal entre o que alguém fez, o que pensou e o que poderia ter feito. The Drama nunca resolve completamente essa tensão. Ele expõe e, ao fazer isso, transfere o peso inteiro para quem assiste. O próprio Pattinson contou à Vogue americana que, ao ler o roteiro, sua reação imediata foi: "Nossa, as pessoas vão surtar quando assistirem a isso." O pressentimento era certeiro. The Drama divide porque exige que o espectador enfrente perguntas que normalmente prefere contornar: até que ponto um pensamento define alguém? Desejos são equivalentes a ações? Pessoas mudam, ou apenas aprendem a dissimular com mais refinamento? E, no fim das contas, o que você faz quando descobre algo sobre alguém que ama e simplesmente não consegue ignorar? O Drama estreia nos cinemas brasileiros no dia 9 de abril, com sessões já disponíveis em salas selecionadas. Revistas Newsletter
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