Jornal O Globo
Os projetos das marcas de veículos chinesas no Brasil resultam em mais do que volume de produção — eles fazem avançar a eletrificação dos veículos no país e, assim, exigem um ecossistema de centros de desenvolvimento, testes, adaptações, manutenção e recarga, todos dependentes de empregos qualificados. Presente e o futuro das relações econômicas: Evento debate oportunidades nas relações Brasil-China Veja: como a China redesenha a indústria de automóveis e leva montadoras tradicionais a reboque — O centro de P&D na Bahia vai ter foco nas pesquisas de técnicas de fabricação e de motores. No Rio de Janeiro, vamos ter outro centro, estamos fazendo o plano de investimento, que chega a mais de R$ 800 milhões, que vai incluir tecnologias de automação veicular e centros de experiência — explicou David Zhou, diretor de produção, homologação e vendas automotivas da BYD América, ao participar do painel “Mobilidade do Futuro: Os Planos da Indústria Chinesa no Brasil”, parte do “Summit Valor Econômico Brazil-China 2026”, em Xangai. Para que a eletrificação multiplique os postos de trabalho de maior qualidade, são necessárias políticas públicas adequadas. Sidney Levy, presidente da Invest.Rio, agência de fomento da capital fluminense, apontou, como bom resultado da relação bilateral, a iniciativa da BYD de instalar em seu complexo no Rio um campo de testes para veículos autônomos, com equipe especializada e uma área de 200 mil m2 de pistas e obstáculos. O campo de testes deverá atender a toda a América Latina. O executivo colocou a aproximação com a China entre os principais pilares de desenvolvimento do município. Initial plugin text — Fizemos no ano passado um planejamento estratégico e tinha duas áreas em que precisávamos melhorar — explicou. — Uma é inteligência artificial e a outra, a “intimidade com a China”. Resultados permanentes O papel dos governos nesse esforço vai além de conceder benefícios fiscais, na visão de Priscila Sakalem, secretária de Transporte e Mobilidade Urbana do estado do Rio de Janeiro. A executiva destacou a exigência de veículos elétricos e híbridos no edital para licitação de ônibus intermunicipais no estado, em preparação, assim como a construção da infraestrutura de apoio. — O Rio de Janeiro criou (em 2023, na Via Dutra) o primeiro corredor sustentável para ônibus e caminhões híbridos e movidos a gás. Os empregos diretos gerados pela eletrificação chegam primeiro. A BYD anunciou em março a contratação de mais 3 mil pessoas na Bahia, elevando o total para 6,2 mil funcionários. A empresa começa os trabalhos neste ano com encomenda de 100 mil veículos para exportação a Argentina e México. Já a GWM iniciou o ano com mil funcionários na nova fábrica em Iracemápolis (SP), e planeja chegar a 2 mil, conforme avançarem os trabalhos de exportação para a América Latina. Os efeitos mais relevantes no mercado de trabalho, porém, vêm depois, conforme se difundirem os veículos elétricos e híbridos. Veja medidas: Novo pacote do governo contra alta dos combustíveis tem isenção de imposto, subvenção extra de diesel e linhas de crédito A melhoria de qualidade dos postos de trabalho apareceu nas conclusões de um estudo feito em 2025 por USP, Unicamp e ICCT (Conselho Internacional de Transporte Limpo). De acordo com a pesquisa, crescem o número de empregos novos, o volume de renda e a participação dos salários na renda total, por causa das qualificações exigidas. O resultado se acentua caso o Brasil se torne uma plataforma de exportação de autopeças e veículos elétricos, mas persiste mesmo sem esse fator. Mais elétricos nas ruas A participação dos chineses entre os carros de passeio novos emplacados em fevereiro foi de 16% do total, mas a participação já chega a 69% dos eletrificados (elétricos e híbridos), de acordo com dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores e da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores. Victor Oliveira de Queiroz, gerente-geral do escritório da ApexBrasil em Pequim, deixou claro o objetivo da organização de atrair capital intelectual, com os benefícios que isso leva ao mercado de trabalho. — Nosso foco, além de trazer o capital chinês para o Brasil, é a transferência de tecnologia — afirmou. China dobra emissão de títulos verdes Na contramão da retração global, a emissão de títulos verdes dobrou na China em 2025, segundo dados do London Stock Exchange Group. Agora, para continuar atraindo investidores e empresas interessadas em captar recursos para projetos ambientalmente sustentáveis, é preciso avançar na regulamentação e padronização do setor. A conclusão vem do painel “Caminho para um ecossistema de finanças robusto” do Summit Brazil-China”. Grande parte do avanço chinês é impulsionada pelo Estado. — A China pede que as suas empresas, que operam em outros países ou no próprio país, ampliem investimentos na economia verde — disse o embaixador Marcos Caramuru. O impulso já dá resultados. Segundo cálculos do jornal Financial Times (FT), as emissões chinesas alcançaram, em 2025, US$ 70,3 bilhões em títulos certificados ou alinhados à organização Climate Bonds Initiative. No sentido oposto ao avanço de 100% na China em 2025, apurado pelo LSEG, a emissão global de títulos verdes caiu 32%. Particularidades da política chinesa ajudam a entender por que o país responde por 17% das emissões globais de papéis verdes, em comparação com 3% nos EUA, segundo cálculo do FT. “A política chinesa é menos exposta ao público”, diz o estudo da Universidade Griffith, coordenado pela economista Fang Yung. “Isso possibilita a avaliação de riscos ambientais, como mudanças climáticas e perda de biodiversidade, com base em evidências científicas, em vez de populismo ou do sentimento imediato do eleitorado.” Apesar disso, como as finanças verdes ainda estão em consolidação, o embaixador Caramuru ressalta a necessidade de avançar na regulamentação das operações para captar recursos. — Isso ainda está em desenvolvimento e vai exigir, do ponto de vista da China, adaptações para que as suas instituições possam investir em equity em projetos — disse no painel. O escopo das iniciativas varia. — A injeção de capital pode favorecer toda a cadeia, não somente setores de novas energias, mas também setores com emissões fortes, como cimento, metalurgia e manufatura — disse Li, da Universidade Fudan.
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