Jornal O Globo
Durante a semana do Pessach — período em que judeus celebram a libertação dos hebreus da escravidão no Egito — o Rio teve ao menos três denúncias de xenofobia contra israelenses: um na Lapa, outro no Leblon e o terceiro na própria internet, como apoio a um dos estabelecimentos envolvidos nos casos anteriores. Todos são acompanhados pela Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj), que informou um aumento de 150% nos registros de discriminação a israelenses, desde outubro de 2023, quando os confrontos na Faixa de Gaza se intensificaram. Após denúncia de intolerância, donos de delicatessen na Cobal do Leblon alegam mal-entendido e dizem que estão sendo alvos de ameaças 'O ambiente pareceu congelar por um instante', diz a chef Monique Benoliel após episódio de intolerância no Leblon Nesta segunda-feira, representantes da federação estiveram na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) para formalizar os registros de ocorrência, enquadrados na Lei 7.716, de 1989, que define os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Marcella Suisso, diretora-executiva da Fierj, afirmou que a notícia-crime já havia sido apresentada no último sábado. — É um crime de antissemitismo revestido de discordância política. Esse é o limítrofe, a linha tênue entre liberdade de expressão e crime. Isso precisa ficar muito claro. Uma coisa é você discordar politicamente, outra coisa é você atacar, proibir ou coibir a presença de qualquer cidadão de uma religião ou de uma nacionalidade específica por algo que você julga politicamente incorreto. É preciso ter muito cuidado com essa linha, porque vira crime — afirma Marcella. Xenofobia: Bar na Lapa é multado após aviso contra clientes de EUA e Israel Com a escalada dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, há cerca de um mês, a federação aponta uma quantidade crescente de casos reportados tanto na esfera virtual, quanto presencial. — Tem crescido o número de denúncias de discursos de ódio e antissemitas, principalmente nas redes sociais. As pessoas falam atrás do computador e acham que não serão responsabilizadas. Temos recebido muitos casos e isso nos preocupa muito. A gente está aqui para defender não só a integridade, como os direitos de liberdade religiosa dos membros da comunidade judaica do Rio — reforça a diretora-executiva da federação. Relembre os casos O primeiro caso aconteceu na última sexta-feira, na delicatessen Delly Gil, na Cobal do Leblon, na Zona Sul do Rio. A chef carioca Monique Benoliel, cliente da loja, contou ter perguntado por que não tinha matzá, um pão plano e crocante, sem fermento, muito consumido nesses dias. Segundo ela, um funcionário respondeu em voz alta que não comprava mais produtos judaicos porque estava “cansado dos judeus”. A vítima afirmou que procurou a gerente da loja, que pediu desculpas. O caso foi registrado nesta segunda-feira, na 14ª DP (Leblon). Em depoimento ao GLOBO, a chef confessou que ficou em choque e visivelmente abalada não apenas pelo conteúdo da fala, mas pela forma direta e hostil com que foi expressa. — O ambiente pareceu congelar por um instante. Aquela não era apenas uma decisão comercial, era uma declaração carregada de preconceito. Ainda tentando processar o que acabara de ouvir, eu falei, com a voz entre a incredulidade e a tristeza: “Então tenho que parar de vir aqui.” Sem hesitar, o proprietário retrucou, de maneira seca: “É isso aí" — contou Monique. Dias após a denúncia, a empresária Lívia Pirozzi, filha do dono da loja, afirmou que ela e o pai vêm sendo alvo de hostilidade e ameaças desde que o episódio ganhou repercussão. Segundo ela, a família está abalada e sob efeito de medicação. A empresária negou que o pai tenha se recusado a atender clientes judeus, e que ele apenas teria decidido deixar de vender produtos "mais tradicionais" por questões operacionais. — Ele jamais destratou ninguém e em nenhum momento disse que não queria atender clientes judeus. O que ele explicou foi que não queria mais trabalhar com produtos judaicos, porque são difíceis de armazenar e vender — afirmou. O segundo caso foi do bar Partisan, que publicou uma foto no Instagram com a mensagem em inglês numa placa em frente ao estabelecimento: “Cidadãos dos EUA e de Israel não são bem-vindos”. A denúncia foi recebida pelo vereador Pedro Duarte (PSD), que acionou a Secretaria municipal de Proteção e Defesa do Consumidor. De acordo com o Procon, estabelecimento foi multado em R$9.520 por ação considerada discriminatória. Nas redes sociais, o bar publicou uma nota em que afirma que "não há, nem nunca houve qualquer política de proibição de acesso" e que "nenhuma religião, povo ou grupo étnico foi, em qualquer momento, objeto de restrição, menção discriminatória ou exclusão". O perfil publicou ainda uma postagem em um grupo do Facebook que republicou a foto do bar com a placa. Nesta publicação, há uma série de comentários em inglês de pessoas que se denominam estadunidenses apoiando a iniciativa do estabelecimento. O terceiro caso foi uma postagem em apoio ao bar Partisan pelo perfil "O Porco Gordo", que operou, até 2024 como um restaurante de delivery. No Instagram, a publicação dizia: "Também não são bem-vindos aqui! Não estão proibidos, mas não são bem-vindos", na legenda de uma foto da bandeira de Israel e riscada por um "X". Após a repercussão negativa, a manifestação foi apagada do perfil. Ao GLOBO, o administrador da página informou que a crítica "foi e é à atual política implementada pelos governantes de Israel, portanto, não pode ser vista como uma crítica a religião judaica, quando a bandeira de Israel, significa única e somente a bandeira daquele estado". A xenofobia é considerada crime de racismo no Brasil, equiparada pela Lei nº 7.716/1989. Praticar discriminação ou preconceito por procedência nacional, etnia ou raça é inafiançável e imprescritível. Ações xenofóbicas, como ódio a estrangeiros, podem gerar pena de prisão de 2 a 5 anos. O que é antissemitismo? Antissemitismo é o preconceito ou discriminação contra judeus, manifestado por estereótipos, violência ou ódio. Há séculos a comunidade judaica — seja ela israelense ou de outras nacionalidades — sofre com este tipo de preconceito. O holocausto foi o exemplo de antissemitismo mais violento da história, que assassinou sistematicamente cerca de 6 milhões de judeus, durante a ditadura nazista.
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