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Cantora Bruna Olly compartilha jornada com filha autista e destaca importância da informação | Collector
Cantora Bruna Olly compartilha jornada com filha autista e destaca importância da informação
Jornal O Globo

Cantora Bruna Olly compartilha jornada com filha autista e destaca importância da informação

Entre a agenda de shows e a rotina familiar, Bruna Olly organiza o tempo com precisão e afeto. Casada com o pastor Patrick Garioli, ela é mãe de Alice, de 8 anos, e Luísa, de 4. Foi a maternidade atípica que redesenhou prioridades, ajustou a carreira e ampliou sua percepção sobre o tempo — hoje guiado menos por urgências externas e mais pelas necessidades das filhas. Carla Diaz encarna vilã em nova novela e destaca: 'Gosto de transitar entre diferentes linguagens porque cada uma me desafia' Zizi Possi 70 anos: cantora revela como mantém saúde, bem-estar e criatividade após décadas de carreira "Dividir a rotina com filhos é sempre um desafio e, no caso de uma criança atípica, eu acredito que até um pouco mais, porque eles precisam de mais estímulos, existem mais atividades, além da escola, as atividades extracurriculares, balé, algum esporte, mas também toda uma questão de terapia", diz ao GLOBO. Alice, que foi diagnosticada com autismo, faz acompanhamento com fonoaudiólogo, psicólogo e psicopedagogo, o que exige uma logística constante. "É sempre uma demanda muito grande de tempo e a gente sempre faz com muita ajuda", afirma. A rede de apoio, formada por familiares, é parte essencial dessa engrenagem. "Faz toda a diferença. Eu tenho meus pais que me ajudam muito com ela. Quando preciso viajar também, tem sempre a rede de apoio dos avós, o pai delas, então a gente vai se dividindo, todo mundo se ajudando", relata. Mesmo com a dinâmica compartilhada, ela reforça a centralidade do cuidado materno: "Mas, claro que a presença da mãe é fundamental, acredito que isso faz uma diferença para elas." Desde a primeira gestação, a cantora passou a concentrar compromissos profissionais nos fins de semana, quando há mais apresentações. "Filhos são realmente prioridade e eu tento fazer as agendas de trabalho e as agendas delas todas coincidirem", explica. Ainda assim, reconhece as falhas e o aprendizado contínuo: "Mas realmente é um desafio muito grande, mas a gente de vez em quando acaba falhando em alguma coisa, a gente sempre olha e fala, ‘poxa, eu podia ter me dedicado um pouco mais nisso daqui’, mas a gente vai aprendendo também e tentando fazer melhor no outro dia." O caminho até o diagnóstico Os primeiros sinais de que o desenvolvimento de Alice seguia um ritmo particular surgiram por volta dos dois anos e meio. "Quando a Alice tinha dois anos e meio nós percebemos que ela tinha muita resistência com algumas coisas, voz de comando, resistência com o desfralde", lembra. Como se trata de um quadro de autismo nível 1, marcos como fala e locomoção ocorreram dentro do esperado, o que dificultou a identificação inicial. "Hoje a gente olha para trás e vê alguns sintomas que ela apresentava, mas que até então a gente não sabia que isso era do autismo", conta, citando comportamentos como estereotipias e andar na ponta dos pés. A escola também contribuiu para o alerta, assim como a suspeita de comorbidades: "Falaram também a respeito do TOD que a Alice poderia apresentar, eu nunca tinha ouvido falar sobre TOD, que é Transtorno Opositor Desafiador." O processo foi gradual. "No caso dela não foi um diagnóstico que veio instantâneo, os médicos falaram que a gente precisava avaliar um pouco mais", detalha. Alice iniciou terapias aos três anos e seguiu em acompanhamento até a confirmação, por volta dos cinco. "Entramos com medicação também e tudo para trazer uma qualidade de vida melhor para ela", diz. Mais do que um rótulo, o diagnóstico trouxe direção: "Tudo que a gente queria era que realmente ela vencesse esses obstáculos, então um diagnóstico para nós era tudo que a gente queria para saber o que fazer a partir daí". O sentimento, diz, foi de alívio. "Quando veio o diagnóstico pra gente foi um alívio pra, à partir desse diagnóstico, conseguir ajudar a nossa filha a superar", destaca. Entre informação e preconceito Apesar dos avanços no debate público, Bruna ainda percebe lacunas importantes na compreensão do autismo. "Existe muita desinformação, apesar de hoje em dia ser bem melhor do que poucos anos atrás", observa. No caso de crianças com nível 1 de suporte, a invisibilidade pode agravar o julgamento externo. "As pessoas olham e, aparentemente, ela é uma criança que não tem nada. (...) Porém, as limitações que ela tem às vezes pode soar como uma criança 'malcriada'", comenta. Situações cotidianas expõem esse desconhecimento. "Eu já tive, por exemplo, crianças que brincavam com a Alice e viam que às vezes ela tinha algumas dificuldades, ela desregulava, e achavam que era alguma pirraça", menciona. A cantora passou a dialogar com outros pais para contextualizar comportamentos: "O autismo não é uma doença, o cérebro só processa de forma diferente." A experiência pessoal também ampliou sua escuta no mundo. "Quando a gente passa por isso na família, começamos a olhar para isso diferente na rua, no dia a dia", afirma. E completa: "Às vezes estou em algum lugar e as pessoas começam a comentar sobre alguma atitude, e aí eu já falo 'gente, mas talvez existe algo por traz que vocês não sabem'." Fé como sustentação A espiritualidade, eixo central de sua trajetória artística, também atravessa a maternidade. "A Bíblia fala que a fé é a convicção das coisas que a gente não vê, a certeza das coisas que a gente espera; e fé não é ausência de problemas", pontua. Para ela, acreditar não significa negar as dificuldades, mas encontrar força para atravessá-las. "Aos poucos, cada melhora da Alice, cada conquista dela (...) só fortalece a minha fé", enfatiza. E continua: "Então, a minha fé a cada dia me faz pensar que a Alice vai ter uma vida plena, que ela vai vencer, que ela vai superar os desafios". Nos dias mais exigentes, é essa perspectiva que sustenta a família: "É independente do que eles estão vendo, crer que Deus está fazendo alguma coisa", acrescenta. Bruna Olly revela como a maternidade transformou sua carreira e prioridades Reprodução Instagram Rotina, cansaço e pequenas vitórias Manter uma rotina estruturada é um dos principais desafios. "Criança, no geral, já precisa de rotina, mas uma criança autista, ela precisa muito disso", frisa. Na prática, isso se traduz em repetição e constância, tarefas simples, como escovar os dentes ou tomar banho, podem demandar insistência diária. A dinâmica se complexifica com a presença da irmã mais nova. "Ao mesmo tempo que a Alice me demanda muita atenção, eu preciso dar atenção para a Luísa", esclarece, destacando também o impacto na autoestima da primogênita. A estratégia passa por equilibrar presenças e reforçar vínculos individuais: "Eu tento na prática dar uma atenção especial, ter o meu tempo só com a Luísa, ter um tempo só com a Alice." Se o cotidiano é exigente, as conquistas são celebradas em detalhes. "Cada conquista da Alice no dia a dia (...) é algo muito grandioso", declara. Ela aponta episódios que, para outras famílias, poderiam passar despercebidos: "Uma simples apresentação da escola já é uma conquista muito grande pra ela". E resume: "São coisas muito pequenas (...) mas para ela realmente é algo muito grandioso e a gente fica celebrando cada uma dessas conquistas." Avanços e o que ainda falta Bruna reconhece avanços no acolhimento, mas vê um caminho longo pela frente, especialmente na educação e na saúde. "Eu sinto que já existe muito mais acolhimento. Com relação à escola, ainda precisa melhorar muito", avalia. Embora a legislação preveja suporte especializado, a realidade ainda é desigual. "Acho que posso dizer que a maioria não está preparada para receber", opina. Iniciativas em igrejas e espaços comunitários também começam a surgir, ainda que de forma tímida: "Eu acredito que sim, existe esse acolhimento, existe essa empatia na sociedade (...) mas existe muita coisa a ser melhorada ainda." Dar voz e criar rede Com alcance nas redes e nos palcos, a cantora entende que compartilhar sua experiência é também uma forma de ampliar a consciência coletiva. "Eu acredito que o alcance da minha voz, devido ao meu trabalho, faz com que eu tenha essa responsabilidade", fala. Ao expor a própria vivência, ela vê identificação e pertencimento: "Quando você fala sobre isso e uma outra mãe se identifica e fala, 'poxa, ela passa pela mesma coisa que eu', isso gera uma conexão muito forte". Para além do testemunho individual, há a construção de comunidade: "A gente vai gerando uma comunidade." Sem ocultar os desafios, Bruna transforma a própria história em ponte, entre informação e empatia, fé e realidade, maternidade e trabalho. "Eu faço questão de falar, eu nunca escondi esses desafios que eu tenho com a Alice (...) e acredito sim que a gente pode ajudar muitas pessoas com esse testemunho", conclui.

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