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O BBB 26 mostra como a eleição de 2026 será disputada no celular | Collector
O BBB 26 mostra como a eleição de 2026 será disputada no celular
Jornal O Globo

O BBB 26 mostra como a eleição de 2026 será disputada no celular

Para Zuza Nacif, CEO da Brasil Comunicação, o Big Brother Brasil 2026 deixou de ser apenas um fenômeno de entretenimento para se tornar uma arena prática de observação sobre como o Brasil presta atenção, retém narrativas e se mobiliza em torno de personagens, causas e conflitos. Na leitura do estrategista, é justamente por isso que o programa interessa à política. O que está em jogo no reality, segundo ele, ajuda a explicar o que tende a definir as disputas para presidente e governador neste ano: a capacidade de ocupar o celular do eleitor com consistência, clareza e permanência. Reportagens sobre sua trajetória o descrevem como um nome ligado a estratégias digitais em campanhas presidenciais e estaduais, com foco crescente em inteligência artificial, cruzamento de dados e leitura de comportamento online. A força dessa leitura aparece também nos números. Em quase dois meses no ar, o BBB 26 alcançou 115 milhões de telespectadores na TV Globo e no Multishow, superou 70 milhões de menções nas redes sociais, registrou 21 bilhões de visualizações e mais de 860 milhões de interações nos perfis oficiais da Globo e do programa. No X, a edição bateu 1 bilhão de curtidas em publicações de internautas e impulsionou 788 termos entre os assuntos mais comentados do país. Para Nacif, esses dados deixam claro que a atenção já não nasce em um único ponto de contato. Ela se forma no trânsito contínuo entre televisão, redes sociais, cortes, comentários e repercussão instantânea. É a partir desse diagnóstico que Zuza sustenta sua principal tese: o BBB 26 funciona como um laboratório real da nova comunicação de massa no Brasil. Na sua visão, o programa revela como se constrói retenção, como se simplifica uma mensagem sem perder potência, como se transformam pessoas em personagens de leitura rápida e, sobretudo, como se ativa pertencimento em escala. Em política, ele entende que essas mesmas engrenagens podem ser aplicadas às campanhas majoritárias. Não como cópia do entretenimento, mas como método de compreensão de um ambiente em que a disputa deixou de ser episódica e passou a ser contínua. Essa interpretação ganha ainda mais peso quando se observa o comportamento do público. Pesquisa da Ipsos encomendada pelo Mercado Ads mostrou que 64% dos brasileiros usam o celular enquanto assistem à TV ou ao streaming, e 55% aproveitam esse momento para buscar ou comprar algo pelo aparelho. Em outra frente, levantamento do DataSenado mostrou que 83% dos brasileiros acreditam que as redes sociais influenciam muito a opinião das pessoas, enquanto WhatsApp, televisão e YouTube aparecem entre as fontes de informação mais frequentes. Para Nacif, esse cenário ajuda a sustentar a tese de que o voto será cada vez mais moldado no ambiente móvel, fragmentado e permanente da tela individual. Na leitura do estrategista, a campanha tradicional perdeu o monopólio da atenção. O programa eleitoral, o debate e o grande ato continuam relevantes, mas já não organizam sozinhos a percepção pública. O que define tração agora é a capacidade de permanecer em circulação. Uma fala precisa render corte. Um gesto precisa gerar interpretação. Uma agenda precisa continuar viva depois que termina. É por isso que Zuza insiste em chamar atenção para o BBB como campo de observação política: o reality mostra, em escala popular, como as narrativas se espalham, como comunidades se formam e como o público deixa de ser apenas audiência para virar agente ativo de defesa, ataque e amplificação. Essa lógica, segundo ele, também ajuda a entender por que a clareza narrativa se tornou um ativo tão estratégico. O BBB transforma participantes em personagens legíveis, de rápida assimilação emocional e simbólica. Na política, afirma Nacif, o desafio é semelhante, embora mais complexo: candidatos que não conseguem traduzir sua identidade de modo inteligível tendem a perder força num ambiente saturado por estímulos. O ponto não é empobrecer a política, mas reconhecer que, sem síntese, não há retenção. E sem retenção, não há presença competitiva no fluxo digital. O pano de fundo institucional reforça essa mudança. Em março, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou o calendário e as resoluções que vão orientar as Eleições 2026, confirmou o primeiro turno para 4 de outubro e atualizou as regras sobre o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. Para Zuza Nacif, esse novo cenário aumenta a exigência estratégica das campanhas: será preciso reagir com velocidade, mas também com controle jurídico, disciplina narrativa e responsabilidade reputacional. Em outras palavras, não basta estar no debate. Será preciso saber sustentá-lo. No centro da análise de Nacif está uma mudança de arena. Durante anos, a política brasileira foi organizada para disputar espaço na grade, no palanque e no horário fixo. Agora, segundo ele, a batalha decisiva acontece na palma da mão. O BBB 26, na sua visão, apenas tornou visível uma transformação que já vinha se desenhando: a de um país em que atenção, influência e engajamento passam cada vez mais pelo celular. Para as campanhas de presidente e governador, o recado que ele extrai desse fenômeno é direto: em 2026, o voto não será decidido apenas no que o candidato diz. Será decidido em como sua narrativa circula, permanece e se mobiliza dentro do fluxo digital.

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