Jornal O Globo
Uma estratégia de vacinação contra a gripe com duas doses aplicadas ainda durante a internação hospitalar em pacientes que tiveram um Acidente Vascular Cerebral (AVC) pode reduzir em até 20% o risco de morte e novas hospitalizações por complicações cardiovasculares ou cardiorrespiratórias. É o que aponta um novo estudo conduzido pelo Einstein Hospital Israelita no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). A iniciativa é uma parceria do Ministério da Saúde com hospitais filantrópicos de referência para o desenvolvimento de capacitação e gestão, pesquisas e projetos de assistência no SUS. O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Stroke. Para Henrique Fonseca, líder do Núcleo de Estudos Clínicos em Imunologia e Vacinas da Academic Research Organization (ARO), do Einstein, e autor sênior da publicação, os resultados revelam como uma tática simples pode ter um impacto relevante para proteger pacientes considerados de alto risco. — Esse estudo reforça a importância de alcançarmos aqueles pacientes que consideramos de alto risco com a vacina. Aqueles com histórico de AVC, de infarto, de diabetes, de doença cardíaca preexistente. A vacina reduz os agravos do vírus Influenza, e temos observado que esses pacientes se beneficiam ainda mais pela imunização. Nosso estudo reforça essa recomendação. Segundo a Sociedade Brasileira de AVC, o derrame é a segunda doença que mais mata os brasileiros e a principal causa de incapacidade no mundo. Aproximadamente 70% das pessoas não retornam ao trabalho após um AVC devido às suas sequelas, e 50% ficam dependentes de outras pessoas no dia a dia. Já a gripe, infecção causada pelo vírus Influenza, pode provocar um processo inflamatório que estimula a formação de coágulos, aumentando o risco de eventos cardiovasculares. O risco é ainda maior para pacientes que já tiveram um problema cardíaco anterior, caso de um AVC. No novo estudo, 1.801 voluntários foram acompanhados nas regiões Sudeste, Sul, Nordeste e Centro-Oeste entre 2019 e 2022. Os indivíduos estavam internados com decorrência da síndrome coronariana aguda, quando há redução do fluxo sanguíneo para o coração, podendo resultar em um ataque cardíaco. O objetivo inicial era identificar a segurança de vacinar contra a gripe ainda na fase hospitalar e saber se essa aplicação poderia gerar algum efeito protetor. A estratégia de imunização se mostrou segura. Além disso, ao avaliar 67 pacientes que tinham um histórico de AVC, os pesquisadores observaram que aqueles que receberam duas aplicações da vacina ainda no hospital tiveram menos mortes e novas hospitalizações quando comparados aos pacientes que receberam apenas uma dose padrão em cerca de 30 dias depois. Todos foram acompanhados por 12 meses após a aplicação. Já entre aqueles que não tinham histórico de AVC, não houve diferença significativa entre as duas estratégias. Os resultados estão alinhados com um outro estudo publicado nesta semana na revista científica Eurosurveillance que acompanhou dados de 1.221 adultos com 40 anos ou mais na Dinamarca. Os cientistas europeus observaram que, após um teste positivo de gripe, o risco de internação aumentou três vezes para derrame e cinco vezes para infarto na semana seguinte. Entre os que haviam sido vacinados, porém, esse aumento foi reduzido pela metade, ainda que eles tenham sido infectados com o vírus Influenza. Para Fonseca, agora são necessários mais estudos que possam confirmar e detalhar esses benefícios, inclusive em relação ao uso das doses maiores da vacina: — Hoje já temos vacinas de alta dose, com até quatro vezes a dose da vacina padrão. Estudos recentes têm demonstrado que esse aumento eleva o benefício da vacina, diminuindo ainda mais as complicações. O que devemos pensar é se uma vacina assim deveria ser incorporada para pacientes de alto risco, idosos.
Go to News Site