Jornal O Globo
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso sob suspeita de feminicídio e fraude processual, será julgado por três coronéis no Conselho de Justificação, procedimento que pode levar à perda de sua patente. Neto é réu pelo assassinato da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, encontrada morta com um tiro na cabeça em meados de fevereiro. Tenente-coronel réu por feminicídio tem aposentadoria concedida pela PM e receberá cerca de R$ 20 mil por mês Tenente-coronel acusado de matar esposa PM perde patente e salário de R$ 30 mil ao ser preso? Entenda Foram nomeados para o colegiado os coronéis Adalberto Gil Lima Mendonça, comandante do Policiamento em Guarulhos; Carlos Alexandre Marques, chefe do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom); e Marisa de Oliveira, comandante do Policiamento na Zona Leste. A nomeação foi feita pelo secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, e publicada no Diário Oficial no último dia 31. O Conselho de Justificação tem prazo inicial de 30 dias, prorrogável por mais 20, e assegura o direito de defesa ao acusado. Ao final, o colegiado pode concluir pela absolvição ou sugerir sanções, como a declaração de indignidade para o oficialato, com perda do posto e da patente — desfecho considerado provável por autoridades da área de segurança pública. A aplicação de eventual sanção, no entanto, depende de análise do Tribunal de Justiça Militar de São Paulo (TJM-SP), responsável pela decisão final. Como mostrou O GLOBO, em março Neto solicitou a ida para a reserva da corporação, confirmada por meio de portaria. Isso significa que, por enquanto, ele se encontra aposentado e receberá cerca de R$ 20 mil por mês. — Antes da condenação criminal transitada, mesmo sofrendo resvalo disciplinar, por exemplo, através de um Conselho de Justificação, ele não perderá os proventos da inatividade da PM — explicou o advogado militarista Fernando Capano. O tenente-coronel foi preso em 18 de março, em São José dos Campos, no interior paulista. A detenção ocorreu a partir de pedido da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo. A Polícia Civil também havia solicitado a prisão, que foi cumprida no dia seguinte. O oficial está detido no Presídio Militar Romão Gomes. Ele nega o feminicídio e sustenta que a morte foi um suicídio. Gisele morreu no dia 18 de fevereiro no apartamento que dividia com o militar. Inicialmente, o caso foi dado como suicídio, conforme relato de Neto, que estava no apartamento com a esposa. Posteriormente, devido a fragilidades no relato, o caso passou a ser investigado como morte suspeita Tiro pelas costas Laudos necroscópicos e exames realizados após a exumação de Gisele indicam que o disparo que a matou foi feito com a arma encostada à têmpora direita, em trajetória de baixo para cima. Segundo os peritos, ela teria sido abordada por trás, com a mão esquerda do agressor pressionando seu rosto e pescoço, enquanto o disparo foi efetuado com a mão direita. Outro elemento que levantou suspeitas foi a posição da arma. Quando os primeiros policiais chegaram ao apartamento, encontraram a vítima caída na sala, em frente à televisão, com o revólver preso a um dos dedos da mão direita — situação considerada incomum em casos de suicídio, nos quais a arma costuma se soltar. Diante desses indícios, os investigadores afastaram essa hipótese. “O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás (...), o que robustece a autoria em desfavor do investigado”, diz trecho de decisão de juiz militar. Visão do box Além da perícia no local, a Polícia Civil realizou uma reprodução simulada no apartamento onde o casal vivia. Um dos pontos questionados foi a versão de Geraldo Neto de que tomava banho quando ouviu o disparo vindo da sala e, em seguida, teria visto a esposa caída. Para os peritos, porém, a configuração do imóvel impediria essa visualização. Também foram identificados vestígios de sangue no banheiro, no box, nas paredes e no piso. “A reprodução simulada e a perícia (...) identificaram luminol positivo no box, paredes, piso e registros do banheiro (...), tudo em frontal contradição com a versão de que não houve contato com o sangue nem manipulação da cena”, afirma outro trecho do despacho.
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