Jornal O Globo
Uma pesquisa recente da ZipHealth revelou que 1 em cada 4 pessoas consideraria ter uma relação afetiva com um robô, um dado que chama atenção não apenas pelo ineditismo, mas pelo que revela sobre o comportamento atual. Mais do que uma curiosidade sobre o avanço da tecnologia, o número levanta uma questão mais profunda: o desgaste emocional das relações humanas e a dificuldade crescente de lidar com o outro. Síndrome de Fortunata: entenda a atração por pessoas comprometidas Síndrome da Mulher Maravilha: entenda por que tentar dar conta de tudo pode levar ao esgotamento Para o neurocientista e psicanalista Eduardo Omeltech, o fenômeno não nasce da tecnologia, mas de uma mudança na forma como as pessoas se relacionam. Ele afirma que a inteligência artificial apenas expõe uma tendência já em consolidação, ao oferecer interações sem confronto e sem frustração. Nesse contexto, segundo ele, a preferência por esse tipo de vínculo não representa uma nova forma de conexão, mas um afastamento do processo de amadurecimento emocional. "A inteligência artificial nunca vai te contradizer de verdade. Ela foi programada para te agradar. E quando você passa a preferir isso, não é porque encontrou conexão. É porque desistiu de crescer", diz. Na avaliação do especialista, o crescimento humano acontece justamente no desconforto das relações reais, onde existem limites, diferenças e frustrações. É nesse atrito que o indivíduo se desenvolve e amplia sua percepção sobre si mesmo. Ao evitar esse processo, a tendência é buscar experiências que apenas reforcem o próprio ponto de vista. "O ser humano amadurece na fricção, não no conforto. O outro te expande justamente porque é diferente de você. Tem limite, tem contradição, te decepciona de um jeito que te força a se reorganizar. Quando você troca isso por algo que só te devolve eco, você não está buscando amor. Está construindo uma prisão muito bem decorada", destaca. Para Omeltech, a popularização desse comportamento revela mais sobre o momento emocional da sociedade do que sobre o futuro da tecnologia. Ele alerta que evitar o desconforto pode parecer uma solução imediata, mas interrompe processos fundamentais de desenvolvimento pessoal. Nesse sentido, a tecnologia passa a ocupar um espaço que deveria ser preenchido por relações humanas reais, ainda que imperfeitas. "A tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa. Mas ela nunca vai te dar o que só o outro humano consegue provocar em você. E quem foge dessa tensão, no fundo, está fugindo de si mesmo", conclui.
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