Jornal O Globo
Este conteúdo faz parte da newsletter Meus Filhos, Minhas Regras?, que responde a perguntas de pais, mães e cuidadores todas as semanas. Inscreva-se gratuitamente para receber toda quarta-feira no seu e-mail. Veja como enviar sua pergunta ao final desta reportagem. Tem dúvida? Mande sua pergunta sobre crianças e adolescentes e nós vamos atrás de respostas Todas as perguntas: veja a lista completa das dúvidas de pais e mães já respondidas por nós Dúvida da semana ?♀️? "Meus filhos adoram os 'brainrots' italianos. Embora eu saiba o significado de 'brainrot', não sei se há alguma relação com essas animações italianas como 'ballerina capuccina', 'tralalero tralala'... Não sei se proíbo, ou se deixo assistirem." Está cada vez mais difícil acompanhar tudo o que circula no universo digital de crianças e adolescentes. As referências mudam rápido, os conteúdos parecem não fazer sentido e, ainda assim, grudam. A pergunta desta semana, sobre os chamados “brainrots” italianos, parte justamente dessa inquietação: afinal, o que são esses vídeos? E o que fazer com eles? Nós aproveitamos a questão para ampliar o debate: como sabemos se um conteúdo na internet é bom ou ruim? Como a gente lida com ele dentro de casa? Os especialistas ouvidos ajudam (e muito!): sem pânico e, ao mesmo tempo, sem abrir mão da responsabilidade. Redes sociais e filhos: o que muda agora com o ECA Digital? Palavra dos especialistas Fabio Campos - Pesquisador e consultor no TLTL, o Laboratório de Aprendizagens Transformadoras com Tecnologia, da Universidade de Columbia (EUA) ? Quando uma mãe me pergunta sobre “brainrot”, eu começo pelo básico: o termo vem do inglês e significa algo como “apodrecimento cerebral”. Ele descreve produções que capturam totalmente a atenção, mas não têm conteúdo significativo. Em geral, são repetitivas, muitas vezes nonsense, e várias delas hoje são até criadas por IA. Dentro desse fenômeno maior, que inclui também o hábito de ficar rolando o “feed” sem parar, existem os “memes de brainrot”. São vídeos curtos, com personagens e situações absurdas. Alguns ficaram conhecidos como “brainrot italianos”, com nomes como “ballerina capuccina” ou “tralalero tralala” (que é basicamente um tubarão com asas e patas). Eles não fazem muito sentido, mas capturam a atenção, especialmente das crianças. ⚖️ Eles são um problema? Eu diria que depende. Ver memes, por si só, não é um problema. Sempre existiram formas parecidas, como charges, que comunicam ideias ou fazem pensar. O ponto é que, no caso do "brainrot", muitos desses conteúdos não comunicam nada. E, quando comunicam, às vezes trazem elementos moralmente discutíveis. Eu não demonizo telas. Dependendo do conteúdo, acho ótimo que crianças assistam a desenhos apropriados para a idade. A questão é outra: os pais sabem o que os filhos estão vendo? Existe algum tipo de curadoria? No meu caso, por exemplo, eu faço essa curadoria: assisto junto, converso, entendo o interesse da criança e explico quando algo não é adequado. Nem todo conteúdo é nocivo. Desde que seja, de fato, conteúdo. O problema dos "brainrots" é justamente a ausência disso. Ainda assim, não há necessariamente problema em ver uma ou duas vezes. O problema é ver isso por muito tempo ou transformar esse tipo de conteúdo em hábito. Há também um fator social: esses memes viraram um elemento de coesão entre crianças. Em grupos de 8 ou 9 anos, todos conhecem. Quem não conhece pode acabar ficando de fora. ? O que fazer então na prática para lidar com esse e outros tipos de conteúdo que as crianças e adolescentes consomem? Contexto: Quando posso deixar meu filho ter um perfil nas redes sociais? ❓Há algumas perguntas importantes que pais, mães e cuidadores devem se fazer: A criança já está preparada para ter celular e acessar redes sociais, onde esse tipo de conteúdo circula? Se não está, faz sentido ter esse acesso agora? Se está, os responsáveis sabem o que circula nessas plataformas? Usam algum tipo de controle parental? Dar um celular sem saber o que a criança acessa e sem acompanhamento é “a fórmula do caos”. A chance de exposição a conteúdos inadequados ou interações fora de controle é muito grande. Outro ponto essencial é a conversa: com os filhos e também com outros pais. Entender o que a criança consome, trazer esses temas para a roda e tentar se aproximar do universo dela é muito importante. ️ Pais e mães não precisam se tornar especialistas em tudo que circula na internet. Mas é importante buscar apoio em quem já estuda isso. Existem organizações, como SaferNet e Common Sense Media, que ajudam a entender melhor os conteúdos, quais são os riscos e como lidar com eles. Esse tipo de apoio pode ajudar muito a orientar decisões no dia a dia. E, por fim, entra a educação midiática. A recomendação é que pais e crianças aprendam a reconhecer conteúdos que não são apropriados. Existem iniciativas, como o Educamídia, que oferecem formação para isso. Nas redes: Como usar controle parental nos smartphones dos filhos sem invadir sua privacidade? Proibir totalmente costuma gerar 'efeito rebote', especialmente na adolescência, afirma especialista Freepik Luciana Nunes - Psicóloga, CEO Psicoinfo, onde coordena grupos de pais abertos ao público como o "Tela, Emoção e Convivência". Autora do livro "Geração gamer: como os games estão redefinindo a adolescência" ? “Brainrot” é um termo da internet que, traduzido literalmente, significa algo como “cérebro apodrecido”. São conteúdos “vazios”, repetitivos, simples, rápidos e altamente estimulantes, que acabam sendo consumidos de forma quase automática com o poder do “scrolling” (rolagem de tela) infinito. Normalmente, eles aparecem em plataformas como TikTok, YouTube Shorts e Instagram Reels. ? O termo “brainrot” não é um termo oficialmente psicológico, mas já tem um padrão de comportamento: ⚡ 1. Sobrecarga dopaminérgica: conteúdos rápidos e recompensadores ativam constantemente o sistema de recompensa, criando um ciclo de busca por estímulo imediato. ⏳ 2. Redução da tolerância ao tédio: o cérebro passa a ter dificuldade com atividades mais lentas (estudo, leitura, treino estratégico). 3. Atenção fragmentada: diminui a capacidade de foco sustentado. Pessoas que antes assistiam a séries de 30 minutos agora se pegam em segunda tela em poucos minutos. 4. Consumo automático (quase compulsivo): a pessoa não escolhe mais ativamente, ela apenas aceita o conteúdo e… scrolls! ? Existe relação com o cérebro infantil? Sim, é uma relação direta. O cérebro da criança (principalmente até a adolescência) ainda está em desenvolvimento, especialmente: ● Córtex pré-frontal → controle de impulsos, planejamento, atenção ● Sistema de recompensa (dopamina) → busca por prazer imediato Conteúdos tipo “brainrot” exploram exatamente esse sistema, com recompensa rápida, novidade constante e ausência de esforço. O cérebro aprende a preferir estímulos fáceis e rápidos. Isso não “danifica” o cérebro de forma permanente, mas molda padrões de funcionamento. Nosso cérebro, pela neuroplasticidade, pode criar novos padrões, mas isso precisa ser intencional. E mudar hábitos costuma ser difícil. ⚖️ Conteúdos desse tipo fazem mal? A resposta mais honesta é: depende da intensidade, frequência e contexto. Quando o consumo é excessivo, os efeitos mais observados são: Dificuldade de foco sustentado (especialmente em tarefas sem recompensa imediata) Baixa tolerância à frustração Impaciência e irritabilidade Desinteresse por atividades mais lentas (leitura, estudo, treino) Busca constante por estímulo (tédio vira quase intolerável) Em termos simples: o problema não é o conteúdo isolado, mas o padrão de consumo repetitivo e automático. Sinais de alerta nos filhos a partir de alguns indicadores importantes: Comportamentais Não consegue parar de ficar no scrolling de vídeos (rolando a tela sem parar) Fica irritado quando interrompido Perde interesse por atividades que antes gostava ? Cognitivos Dificuldade crescente de concentração Evita tarefas que exigem esforço mental Emocionais Tédio constante Ansiedade leve quando está sem estímulo Relacionais Respostas automáticas, pouca presença nas conversas Uso de memes/referências como forma principal de comunicação Game: Posso deixar meu filho jogar Roblox? ⚖️ Diante disso, o que fazer? Proibir totalmente costuma gerar efeito rebote, especialmente na adolescência. O caminho mais eficaz não é “liberar tudo” e nem “proibir tudo”, mas regular com presença. Mas regular dá trabalho, e os pais dessa geração digital lidam com um cenário completamente novo. Eu não gosto da proibição pura: ela repete o mesmo padrão automático que criticamos e ainda aumenta o valor do conteúdo proibido. O jovem tende a consumir escondido e perde-se a oportunidade de educar o olhar crítico e desenvolver autonomia responsável. A melhor forma é engajar: entrar no conteúdo com eles, perguntar: “o que você gosta nisso?”, entender o padrão (humor, ritmo, repetição). Depois, é importante introduzir alternativas com estímulo e conteúdo, criar limites claros de tempo, trabalhar consciência de uso (ainda que isso seja difícil). ✅ Checklist simples para avaliar conteúdos que encontramos pela internet: 1. Prende pela repetição ou pelo conteúdo? 2. Existe aprendizado ou só estímulo? 3. Incentiva criação ou só consumo? 4. Meu filho sai melhor ou mais irritado? ⛔ 5. Ele consegue parar sozinho? Se a maioria das respostas for pelo lado negativo, é sinal de atenção. NO RADAR Como lidar com conteúdos tipo 'brainrot' em cada faixa etária, por Luciana Nunes: ? Crianças (até 10 anos) Mais vulneráveis Menor capacidade de autorregulação Maior impacto na formação de atenção Precisam de mediação ativa dos pais e regulação com limitações nos próprios apps e plataformas. ? Pré-adolescentes (10 a 13 anos) Já entendem regras, mas têm baixa consistência Forte influência social Precisam de limites e diálogo constante (o impacto acadêmico pode ser um sinal). ? Adolescentes (14+) Buscam autonomia Consomem também por identidade social Precisam de negociação e responsabilidade compartilhada. Initial plugin text
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