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Um dos sintomas que mais me pegou na menopausa (e mesmo antes, na perimenopausa), foi o cansaço. E, veja bem, não estou falando apenas do cansaço físico, mas de uma certa canseira na alma. O esforço para entender o que estava acontecendo com meu corpo, minha cabeça, minhas emoções… Depois, o empenho para voltar a ser como era antes, de tentar fazer tudo ficar normal. Exaustivo. Quando entendi que o processo pelo qual estava passando, o climatério, isso sim era normal, esse peso que vinha me arrastando começou a diminuir. Primeiro porque fui atrás de ajuda médica, segundo porque, em vez de tentar reverter o relógio, vi que ajustá-lo faria mais sentido. “A gente tende a achar que o corpo deveria funcionar sempre igual, mas ele não foi feito para isso”, diz a biomédica e cientista Ursula Coelho. Ela explica que o ciclo circadiano — o relógio interno que organiza nosso corpo ao longo de 24 horas, regulando sono, temperatura corporal, produção hormonal — passa por ajustes ao longo de toda a vida. A frustração de não conseguir manter a mesma rotina de antes é comum; mas, se entendermos a biologia, vemos que não faz sentido se sentir fracassada. “O que acontece nessa fase não é uma falha individual. É uma mudança fisiológica”, explica Ursula. “E não se trata de uma única coisa. São vários sistemas se transformando ao mesmo tempo.” Não é você, é seu relógio biológico Um recente artigo publicado na revista Frontiers, conduzido por pesquisadores da Carol Davila University of Medicine and Pharmacy, na Romênia, reforça que o envelhecimento não é apenas uma soma de anos, mas uma transformação progressiva do ritmo biológico. Os pesquisadores destacam que a desregulação do ciclo circadiano está associada a inflamação crônica e estresse oxidativo, além de maior vulnerabilidade a doenças relacionadas ao envelhecimento. No centro desse sistema circadiano está a melatonina, marcador biológico que ajuda a calibrar nosso funcionamento interno e cuja produção, você já deve ter adivinhado, diminui com a idade. É justamente essa mudança que ajuda a explicar por que o que acontecia aos 25 anos já não funciona da mesma forma aos 40, 50, 60… Na juventude, nosso organismo é mais flexível. Aguenta os excessos, compensa noites mal dormidas, lida melhor a variações de rotina. Na vida adulta, esse sistema encontra um certo equilíbrio. “Nesse período, existe uma janela de sono mais bem definida, mais organizada. Mas com a chegada da perimenopausa, esses marcadores começam a ficar mais sutis, sensíveis e passam a sofrer com a descalibragem”, diz a biomédica. O corpo deixa de dar sinais tão claros. “Aquela sensação de ‘estou com sono, é hora de dormir’ já não vem com a mesma precisão. E, muitas vezes, você só percebe quando já está exausta — e o ideal é ir para cama um pouquinho antes de se sentir exaurida, porque o corpo precisa de energia para fazer todos os processos para dormir.” Nessa fase da vida, a privação de sono não perdoa: cansaço, irritação, falta de atenção, fome… Tudo em doses exageradas. É importante dizer que a redução da melatonina é parte do processo natural do envelhecimento, mas não acontece isoladamente. “Na perimenopausa, essa diminuição vem acompanhada do arrefecimento dos ciclos metabólicos, o próprio ciclo hormonal está aquela bagunça, e tudo acontecendo ao mesmo tempo. Isso impacta diretamente a energia e o bem-estar”, diz a especialista. Sem falar que o próprio funcionamento do cérebro feminino influencia a experiência do sono. “A mente da mulher é mais atenta, mesmo durante o descanso. A gente percebe mais os estímulos — luz, temperatura, ruídos. Então, muitas vezes, a sensação é de ter dormido mal, mesmo quando o sono aconteceu”, explica Ursula. Ajustando os ponteiros Se o corpo muda, a resposta mais inteligente não está em insistir nos mesmos padrões, mas sim em ajustá-los. “O primeiro passo é entender que essas mudanças — redução da melatonina, dos hormônios … — não é uma patologia, não é doença. É um processo natural do próprio organismo”, diz. E mais: descobrir que o corpo não precisa, e nem deve, funcionar como antes pode ser libertador. “Muito do impacto dessas mudanças é psicológico”, diz Ursula. “A gente se cobra muito para manter um padrão que já não corresponde mais ao momento do corpo.” A alternativa saudável é redefinir parâmetros. “Quando você entende o seu ritmo atual, você começa a trabalhar a favor dele, e não contra”, explica Ursula. Não estamos falando de jogar a toalha, mas de afinar a rotina — de exercícios, alimentar, alcoólica, festeira, do trabalho, de cuidados com a saúde — ao ciclo biológico. A especialista conta que pequenos ajustes já fazem muita diferença na hora de melhorar a energia, como criar uma rotina de horários para dormir e acordar, reduzir estímulos à noite (especialmente luz e telas) e ajustar o horário das refeições. “A alimentação também é um sinalizador do ciclo circadiano. Comer muito tarde faz o corpo entender que ainda é hora de trabalhar para fazer a digestão, e não de descansar.” Segundo ela, o ideal é que a última refeição aconteça cerca de três horas antes de dormir — ou, se não for possível, que ela seja leve. E outro alimento que bagunça muito o relógio é o açúcar, porque ele aumenta o pico de insulina e o corpo entende que está no momento ativo. “Insulina dá energia. Então, se quiser aquele docinho, prefira comer até o início da tarde. Esses pequenos ajustes ajudam o corpo a reconhecer novamente seus próprios ritmos.” Encontrar esse compasso, acredite, faz a menopausa sair de uma tentativa louca de acertar o passo em um tango e entrar em uma dança fluida, no melhor estilo new age e indie — as 50+ me entenderão.
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