Jornal O Globo
De forma inédita, cientistas conseguiram utilizar uma terapia celular inovadora, chamada de CAR-T Cell, para tratar uma paciente com três doenças autoimunes diferentes e potencialmente fatais, que haviam resistido ao tratamento por anos. Os detalhes do caso foram publicados, nesta quinta-feira, como um artigo na revista científica Med, da Cell Press. Como evitar que roupas pretas desbotem? Confira dicas práticas para cuidar das peças Bola pra frente! A mentalidade otimista treina o cérebro para ser feliz; comprova a ciência Antes, a paciente precisava de infusões diárias de sangue. Agora, ela está há um ano em remissão, sem necessidade de novos tratamentos. Os resultados apontam que o CAR-T Cell, técnica que tem revolucionado o combate a alguns tipos de câncer, pode também tratar doenças autoimunes complexas e graves. “O tratamento foi extremamente eficiente em eliminar as três condições autoimunes ao mesmo tempo. Após mais de uma década doente, a paciente agora está em remissão sem tratamento e consegue retornar a uma vida quase normal. Essa terapia melhorou significativamente sua qualidade de vida”, celebra Fabian Müller, médico do Hospital Universitário de Erlangen, na Alemanha, e autor da pesquisa, em comunicado. O CAR-T Cell é uma terapia inovadora que envolve a edição genética de células de defesa do sistema imunológico chamadas de linfócitos T para que elas passem a reconhecer um determinado alvo e atacá-lo. É uma espécie de autotransplante, em que as células do paciente são coletadas, modificadas em laboratório, multiplicadas e reinseridas no paciente. Novo estudo: Chocolate, queijo e iogurte estão associados a uma vida mais longa No Brasil e no mundo, a técnica já foi aprovada para alguns tipos de leucemias e linfomas. Para isso, os cientistas reprogramam os linfócitos T para reconhecerem e destruírem as células cancerígenas em circulação na corrente sanguínea. No entanto, o custo é elevado, chega a R$ 2 milhões por paciente. Por isso, entidades como o Hemocentro de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP), a Fiocruz, o Einstein Hospital Israelita e o Instituto Butantan têm trabalhado para desenvolver versões nacionais da ferramenta e, eventualmente, possibilitar uma incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS). Como funciona o CAR-T Cell. O Globo Além disso, pesquisadores pelo mundo têm avançado em desenvolver o CAR-T Cell para outros tipos de cânceres resistentes ao tratamento convencional, como tumores sólidos, e até mesmo para outras doenças que envolvem uma disfunção do sistema imunológico, caso dos distúrbios autoimunes. Entenda o novo caso No ano passado, a equipe de Müller conheceu uma paciente de 47 anos com três doenças autoimunes: anemia hemolítica autoimune grave (AIHA), na qual o sistema imunológico ataca e destrói os glóbulos vermelhos; púrpura trombocitopênica imune (ITP), que faz com que as defesas destruam as plaquetas, aumentando o risco de sangramentos, e síndrome do anticorpo antifosfolipídeo, que eleva o risco de coágulos perigosos nos vasos sanguíneos. A paciente havia recebido os diagnósticos há mais de uma década e passado por nove diferentes linhas de tratamento desde então, incluindo terapias com anticorpos, esteroides e medicamentos imunossupressores, porém nenhuma com efeito duradouro. Foi quando ela encontrou a equipe de Müller que, de forma experimental, já havia conseguido tratar pacientes com doenças autoimunes graves, como lúpus, com o CAR-T Cell. Na época, a paciente dependia de transfusões diárias de sangue para controlar a anemia e de anticoagulantes permanentes para prevenir coágulos. Foi quando os médicos alemães decidiram testar a técnica celular inovadora para tratá-la. Como células B de defesa desreguladas pareciam ser as responsáveis pelas três doenças, eles reprogramaram os linfócitos T da paciente para reconhecerem uma proteína chamada CD19, presente na superfície dessas células. Com isso, as defesas passaram a localizar e eliminar todas as células B desreguladas do organismo. Segundo os pesquisadores, os efeitos clínicos foram impressionantes. A paciente precisou de uma última transfusão de sangue apenas uma semana após o tratamento. Duas semanas depois, já relatava se sentir mais forte e conseguia realizar atividades cotidianas. Três semanas após o término do CAR-T Cell, seus níveis de hemoglobina, uma proteína presente nos glóbulos vermelhos, dobraram e voltaram ao normal, sugerindo que o sistema imunológico já não estava mais destruindo essas células como fazia antes. Além disso, os níveis de anticorpos antifosfolipídeos, associados a coágulos perigosos, caíram gradualmente e permaneceram negativos, e a contagem de plaquetas também se estabilizou. “Após mais de dez anos de doença, os exames sanguíneos da paciente se normalizaram em apenas algumas semanas. A rapidez e a profundidade da resposta foram notáveis”, afirma Müller. Ele acrescenta que a razão pela alta eficácia provavelmente é que as células T modificadas conseguem alcançar diferentes tecidos do corpo e eliminar tanto as células B desreguladas maduras, quanto aquelas em desenvolvimento. Com isso, quando novas células B voltaram a ser produzidas, meses depois, elas eram quase totalmente “normais”, sugerindo que o tratamento reiniciou seu sistema imunológico. Um ano depois do tratamento, a paciente ainda não precisa de transfusões nem de outras terapias. Embora ainda apresente contagens mais baixas de glóbulos brancos e leves elevações de enzimas hepáticas, a equipe de pesquisadores afirma que essas condições podem estar relacionadas a anos de tratamentos anteriores, e não ao CAR-T Cell. “Acreditamos que usar a terapia CAR-T mais cedo em pacientes com doenças autoimunes graves pode ajudar a prevenir complicações decorrentes de anos de tratamentos ineficazes. Se conseguirmos intervir mais cedo, poderemos interromper o processo da doença, evitar danos aos órgãos e devolver a vida aos pacientes”, diz Müller. Embora o caso seja surpreendente, os estudos clínicos para confirmar a segurança e a eficácia do CAR-T Cell para doenças autoimunes ainda estão em andamento. Os testes são feitos em três etapas e comparam o desempenho da nova técnica com outros tratamentos convencionais já estabelecidos. Apenas após a conclusão, será possível submeter um pedido às agências reguladoras para aprovação de uso.
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