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’Terapia do abraço’ parece ser o que todos nós precisamos agora, mas será que realmente funciona? | Collector
’Terapia do abraço’ parece ser o que todos nós precisamos agora, mas será que realmente funciona?
Jornal O Globo

’Terapia do abraço’ parece ser o que todos nós precisamos agora, mas será que realmente funciona?

A “terapia do abraço” está em alta. A proposta dessa prática emergente é que você agende um horário com um “abraçador profissional”. Sites promovem terapeutas do abraço como especialistas em toque platônico, oferecendo um serviço para pessoas que querem abraçar por companhia, para relaxar ou lidar com desafios emocionais. Mounjaro e Ozempic: novo estudo revela deficiências de proteína em pessoas que usam esses medicamentos CAR-T Cell: pela 1ª vez, terapia celular inovadora leva à remissão paciente com três doenças autoimunes fatais O objetivo é encontrar conexão e melhorar a saúde mental e o bem-estar. Mas isso realmente funciona? Veja o que considerar antes de marcar uma sessão. O que é a terapia do abraço? Terapeutas do abraço oferecem abraços consensuais e não sexuais em um ambiente estruturado e seguro, pensado para ser livre de julgamentos, preconceitos, conflitos e qualquer comportamento ou conversa que possa parecer insegura ou ameaçadora. Esses profissionais não são regulamentados oficialmente. Não há indícios de programas de formação credenciados ou de entidades que supervisionem e regulem essa prática. Ainda assim, há muitas pessoas que se apresentam como abraçadores profissionais, e cujos serviços prometem uma série de benefícios psicológicos e fisiológicos. Entre eles, estão a redução da depressão, da ansiedade e da solidão, melhora das habilidades sociais e do funcionamento do sistema imunológico, diminuição da pressão arterial e menor risco de doenças cardíacas. Também se sugere que a terapia do abraço pode aliviar sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, aumentar a capacidade de recuperação após experiências de abuso físico ou sexual e reduzir o desejo associado ao uso de substâncias. Initial plugin text Promessas reconfortantes, pouca evidência Apesar dessas afirmações, não há estudos publicados e revisados por pares que analisem diretamente os efeitos psicológicos ou fisiológicos de contratar um abraçador profissional. Existe, porém, um conjunto mais amplo de pesquisas sobre os benefícios do toque físico não sexual, como abraços e contato suave e prolongado. Esse tipo de toque tem sido associado à redução do estresse diário e à melhora do bem-estar geral. Também é visto como uma forma de expressar empatia, fortalecer vínculos sociais e demonstrar cuidado. A maior parte dessas pesquisas, no entanto, se concentra no toque em relações próximas — como entre parceiros, pais e amigos — e não em interações pagas com um profissional. Portanto, não se sabe se esses resultados se aplicam à terapia do abraço. Sabe-se, por outro lado, que o toque físico pode estimular a liberação do hormônio oxitocina. A oxitocina interage com outros neuroquímicos, especialmente a dopamina, que está associada a sensações de conforto e conexão. Juntas, essas respostas ajudam a explicar por que o toque prolongado pode ter um efeito calmante e reconfortante. Limites profissionais Como a terapia do abraço envolve contato físico, vulnerabilidade emocional e uma relação de poder entre profissional e cliente, ela levanta questões éticas importantes. 1. Consentimento informado Se você pensa em experimentar, pergunte exatamente o que o serviço inclui e o que não inclui. Tenha clareza sobre os limites, onde o toque é permitido ou não e como funciona a sessão. Você deve dar consentimento explícito e informado antes de começar — e pode retirá-lo a qualquer momento. 2. Limites claros são essenciais A relação deve permanecer profissional o tempo todo. Não é adequado que o terapeuta demonstre interesse pessoal ou romântico, nem que diga que a conexão entre vocês é “especial” ou exclusiva além do combinado. Da mesma forma, o profissional não deve pressionar você a compartilhar informações pessoais ou se expor além do que se sente confortável. Manter limites firmes ajuda a garantir que a experiência seja segura, respeitosa e centrada no seu bem-estar, sem se confundir com uma relação pessoal. 3. Atenção à dependência Você pode procurar esse tipo de terapia em um momento de vulnerabilidade — como solidão, depressão ou dor emocional. É compreensível que o contato físico traga sensação de acolhimento, segurança ou estabilidade naquele momento. Mas é importante observar sinais de dependência, como acreditar que só consegue se sentir bem depois de ver aquele profissional específico ou querer aumentar a frequência das sessões. 4. Não substitui tratamento para questões complexas Embora possa oferecer alívio temporário e sensação de conexão, a terapia do abraço não resolve problemas psicológicos mais profundos nem substitui acompanhamento profissional em saúde mental. Ela deve ser vista como uma experiência de apoio, não como cura para questões emocionais complexas. Principais pontos A terapia do abraço é uma prática recente baseada em toque físico consensual e não sexual, em ambiente estruturado. É divulgada como forma de reduzir o sofrimento emocional e melhorar o bem-estar. No entanto, não é regulamentada e não há formação formal ou órgãos responsáveis por definir padrões profissionais. Assim, as informações disponíveis vêm mais dos próprios prestadores do serviço do que de evidências científicas. Há evidências sobre os benefícios do toque físico em geral. Ainda assim, se você decidir experimentar, certifique-se de que existem limites claros, que o consentimento é respeitado e que você pode interromper a experiência a qualquer momento. * Glen Hosking é psicólogo clínico e professor associado de Psicologia na La Trobe University * Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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