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Aline Midlej: "Estar no mundo é ir além de ser parte dele" | Collector
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Aline Midlej: "Estar no mundo é ir além de ser parte dele"

Quando entrei no camarim, não a reconheci de imediato. Foi preciso o alerta do psicanalista e amigo Alexandre Coimbra de que eu estava diante de Nita Freire, pedagoga, viúva de Paulo Freire e a responsável pela preservação de um imenso legado humano. Depois de um longo abraço, veio a confidência de sua audiência diária e a frase que levarei para vida quando conversamos sobre os debates na atualidade: “para estar no mundo é preciso saber o que se passa nele, pra além de nós. É realmente ter esse interesse e ir em busca disso, como for, em tudo o que nos envolve”. ESTAR NO MUNDO não é trivial. Um ser com o mundo e com os outros é diferente de um ser no mundo. ESTAR demanda o reconhecimento do outro, a atenção, o exercício de ir além das nossas convicções e certezas. "Estar" da prontidão do despertar contínuo. Paulo Freire foi isso, insistiu no outro a vida inteira. Nita faz o mesmo. Aos 92 anos, estava ali, num Festival sobre educação no Recife, para nos lembrar que só estando de verdade para sermos capazes de construir transformação, fraternidade (que palavra fora de moda, não é?). Nita Freire tem viajado pra divulgação do último livro de Paulo Freire. Na obra Meus Registros de Educador, temos acesso às anotações de uma vida inteira de quem fez questão de estar no mundo, em cada possibilidade, pois entendia que influencia a nossa forma de pensar e criar consciência. Selecionar uma imagem Ouço Nita Freire em dias em que estar no mundo é sobre construir e sustentar suas próprias narrativas. E não basta criticar, é preciso desqualificar. Não estamos no mundo, estamos nos tornando narrativas nele, representações do que os outros definem que somos. Uma palavra, um verbo, e já nos tornamos representantes de algo a ser escrutinado. Já não é possível viver se enturmando, apenas ache sua turma e seja definido a partir dela.  Humanos qualificados e desqualificados ao primeiro acorde de contrariedade. Como estar no mundo onde não se é capaz de admitir que é impossível saber exatamente o que se passa com outro pra que ele diga o que diz? Porque estamos sugestionados à crítica constante, encastelados em definições que não conversam com a maravilha da multiplicidade humana.  Aline Midlej e Nita Freire Acervo Pessoal Afinal... Pra que reagir e criticar com respeito se já temos os nossos nos amparando pelos gritos que soltamos para criticar outros gritos?  Ouço e leio opiniões sobre intolerantes sendo respondidas com intolerância. Fecho as abas e abro as páginas de Edgar Morin, minha primeira descoberta de um mestrado recém-iniciado. O antropólogo francês, referência em estudos sobre educação, já lançava décadas atrás provocações sobre os efeitos coletivos numa sociedade que não desenvolve pensamento complexo. Que desconsidera contextos e suas próprias sombras ao emitir diagnósticos. Edgar Morin e Paulo Freire foram contemporâneos e revolucionaram a educação porque entendiam os seres humanos e suas relações como algo complexo e bonito, e onde morava o desafio da evolução. Estamos num aterro ensimesmado das nossas ideias. Fundo de raiva, raso de paciência. Caudaloso de preconceitos, cristalizado de convicções. Seco de tolerâncias, abundante de agressividade. Do que vale foto no feed pra reafirmar sua turma pro mundo, quando seu mundo só se diminui? E perde o viço que só a desconstrução oferece. Nita Freire me descontruiu em uma frase e, a partir de agora, só quero ser parte onde realmente puder estar. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

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