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Musk, Bezos e Isaacman: entenda o papel dos bilionários no programa lunar dos EUA | Collector
Musk, Bezos e Isaacman: entenda o papel dos bilionários no programa lunar dos EUA
Jornal O Globo

Musk, Bezos e Isaacman: entenda o papel dos bilionários no programa lunar dos EUA

Enquanto comemora-se o sucesso da Artemis II, a primeira missão tripulada a circular a Lua em mais de 50 anos, a Nasa segue trabalhando para tentar um pouso no satélite natural da Terra. Essa meta requer não apenas tecnologia, mas a coordenação de interesses entre três bilionários americanos: Jared Isaacman, Elon Musk e Jeff Bezos. O primeiro deles, fundador da Draken (empresa que provê equipamento e serviços à Força Aérea dos EUA), é quem está no centro da empreitada. Após vender a companhia, Isaacman foi nomeado administrador da Nasa pelo presidente Donald Trump, e ele é quem supervisiona todo o programa lunar agora. Retorno triunfal: Artemis II conclui a mais importante viagem espacial tripulada em 5 décadas, em passo crucial para a exploração do cosmos A partir da missão Artemis III, a Nasa precisará do envolvimento da SpaceX, a gigante aeroespacial de Elon Musk, dono da Tesla, para cumprir seu objetivo. No próximo voo, que deve ocorrer em 2027, a espaçonave Orion deve ser acoplada ao módulo StarShip projetado para uma "alunissagem" (uma aterrissagem lunar). Essa missão não seguirá até a Lua da primeira vez, porém, limitando-se apenas testar as operações de acoplamento na órbita da Terra. No ano seguinte, na Artemis IV, a Nasa já espera que astronautas possam pisar o solo lunar. Corrida espacial: Após a Artemis II, Estados Unidos e China entram em nova fase da disputa espacial A sequência de procedimentos que permitirá missões da Artemis viajarem até a Lua, pousarem, decolam de novo e retornam à Terra será um pouco diferente daquele adotado durante o programa Apollo nas décadas de 1960 e 1970, mas também vai envolver encaixes e desencaixes de módulos no espaço. O problema de momento é que o desenvolvimento da StarShip está atrasado. A SpaceX deveria tê-lo já plenamente testado para a Artemis III, mas com o sistema ainda não foi totalmente validado para humanos, a agência espacial dos EUA preferiu fazer só o teste orbital. O plano dos engenheiros de Musk para levar o módulo até a Lua é complexo, e vai requerer o lançamento de algo entre cinco ou oito outras espaçonaves-tanque para abastecê-lo ainda na órbita da Terra. Luís Loures, professor de engenharia aeroespacial no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), diz que há detalhes que precisam ser resolvidos. — A solução do módulo StarShip, que a SpaceX propõe, faz parte do conceito que chamam de 'new space', que busca diminuir os custos da atividade espacial. Ele já teve mais de dez lançamentos de teste, uns com sucesso, outros não, e está caminhando — diz. — Particularmente, acho uma solução complexa para a missão, principalmente por causa do abastecimento de propelente criogênico em órbita terrestre para ir até a Lua. Isso é o que o painel de segurança da Nasa colocou para a SpaceX. A Blue Origin entrou na corrida depois e acabou também conseguindo um contrato com a agência espacial, em princípio para operar a partir da Artemis V. O plano da empresa de Bezos, dono da Amazon, é um pouco distinto do da SpaceX, com desafios diferentes. A ideia do módulo Blue Moon é usar como combustível hidrogênio e oxigênio líquidos, que oferecem mais propulsão por um volume menor de carga. Uma segunda espaçonave tanque projetada em parceria com a Lockheed Martin levaria o material para fazer o reabastecimento na órbita da Lua, porém, o que também adiciona uma certa complexidade ao plano. Apesar da entrada tardia de Bezos na corrida, a Blue Origin está caminhando mais rápido, e a Nasa não descarta que a StarShip seja substituída pela BlueMoon nas missões Artemis III ou IV. Para ambas as companhias contudo, o prazo parece apertado. Casey Dreier, analista de política espacial do centro de pesquisas The Planetary Society, diz que não está claro se as empresas sequer conseguirão obter lucro com essas operações. A perspectiva de prestígio pode encorajar Musk e Bezos a colocarem recursos do próprio bolso na empreitada, mas é claro que para tudo há um limite. — A Nasa está pagando cerca de US$ 2 bilhões por ano para cada empresa, o que é bastante mas não chega nem perto do que gastaram com o programa Apollo, que consumiu US$ 30 bilhões para desenvolver um módulo de pouso em seis anos — diz Dreier. — É verdade que isso foi há mais de 50 anos, mas é o único exemplo de sucesso que temos. Prazo apertado A pressa em fazer o plano funcionar logo se deve a dois fatores. Um deles é a promessa da China de aterrissar uma nave tripulada na Lua até 2030. O país asiático também tem seus próprios desafios, e não está claro se cumprirá esse prazo. Mas a perspectiva de uma segunda corrida lunar, em contraposição à primeira nos anos 1960 entre EUA e União Soviética, adiciona um pouco de motivação geopolítica. O segundo fator em jogo é o interesse de um quarto bilionário envolvido na história: o presidente Donald Trump. Tendo sido um dos "pais" do progrma Artemis, iniciado em seu primeiro mandato, o republicano já deu sinais de que gostaria de ver astronautas americanos pisando a Lua antes de 2028, quando ele entrega o cargo. Como se o ego de Trump não fosse o bastante para a Nasa ter que administrar, a entrada de Musk e Bezos na história não facilita. Antes de conseguir o contrato para a Artemis V, a Blue Origin chegou a processar a SpaceX sob a acusação de favorecimento ilícito, mas perdeu a ação. Isso é parte da razão para o atraso no programa. Agora os dois empresários parecem ter selado paz, mas Isaacson é muito próximo de Musk, que já lhe vendeu um passeio espacial de natureza turística pela SpaceX. A amizade em si não foi considerada conflito de interesse, ainda que Bezos já tenha se mostrado disposto a questionar essa relação na justiça se for preterido de novo. A equação final a ser resolvida, segundo Dreier, da Planetary Society, é que o dinheiro no caixa da Nasa tem um limite, e Musk e Bezos ainda estão, de certa forma, disputando espaço na Artemis. — Nós estamos tentando voltar para a Lua por cerca de um terço do que gastamos com a Apollo e para fazer um programa mais ambicioso, que é estabelecer uma base lunar e ter uma presença sustentada na Lua — diz. — A aposta, ou a fé, é que essas empresas privadas possam enxugar parte do custo ou achar outras maneiras de tornar isso sustentável. Não sabemos se isso vai dar certo.

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