Jornal O Globo
Um dos fatores mais importantes para saúde a boa saúde humana é o sono. Em geral ele é tratado como uma função do cérebro: tomamos suplementos como melatonina e magnésio, usamos óculos que filtram a luz azul, compramos colchões e travesseiros caros e ligamos ar condicionados porque facilitam o sono. Afinal de contas, nesse mundo de produtivismo incessante, ele vira mais uma tarefa - e passa a ser o motivo de estresse e claro, consumo. Mas um estudo recente e muito amplo (mas ainda não revisado por pares), feito pelo instituto Weizman, de Israel, acompanhou 3500 adultos, avaliando cada refeição em tempo real e usando monitores de pulso de alto nível técnico, que distinguiam entre sono profundo e sono leve. E surpreendentemente, o melhor preditor na qualidade do sono foi a alimentação rica em fibras. As pessoas que comeram fibras em quantidades acima da média passaram mais tempo em sono profundo, restaurativo, e menos tempo em sono leve e interrompido; e apresentaram frequências cardíacas mais baixas durante a noite (um sinal de que o corpo entrou em modo reparação). Interessante notar que as fibras não atravessam a barreira intestinal. Por isso não chegam ao nosso cérebro diretamente. São as bactérias do nosso microbioma que digerem essas fibras, deixando como subprodutos os ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato. Essas moléculas atuam de diferentes maneiras: reduzem a inflamação sistêmica, fortalecem o revestimento da mucosa intestinal, e enviam sinais através do nervo vago diretamente para o cérebro: é o famoso eixo cérebro intestino, uma comunicação bidirecional entre o intestino e o sistema nervoso. Hoje sabemos que não se trata de um ou outro super alimento ou suplemento mágico. O que confere melhor saúde – e sono também – é a diversidade vegetal na alimentação, que vai gerar diversidade bacteriana no microbioma, e portanto, mais substâncias benéficas. Os super longevos das chamadas “zonas azuis” como Okinawa e Sardenha em geral dormem muito bem, e a alimentação deles é sabidamente variada em vegetais, contendo de 30 a 50 g de fibra por dia. Compare com a dieta do americano médio: 12 g de fibra apenas. Não é à toa que a saúde por lá esteja no último lugar entre os países ricos (há outros fatores, claro, como a desigualdade e a ausência de um sistema público de saúde). Se você quer dormir melhor e ver seu filho escolar ou adolescente dormindo bem, ofereça a maior variedade possível de alimentos vegetais para ele: leguminosas como feijão, cereais integrais, legumes, folhas verdes, frutas, castanhas e nozes. Em geral, não é preciso suplementos. A natureza cuida bem da gente. Referência: medRxiv DOI: 10.64898/2026.02.17.26346471
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