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Ormuz: o termômetro do colapso e o retrato da omissão brasileira
Revista Oeste

Ormuz: o termômetro do colapso e o retrato da omissão brasileira

O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas uma rota estratégica para se tornar o verdadeiro termômetro econômico e político do mundo. É ali que hoje se mede, em tempo real, o nível de tensão geopolítica, o preço da energia e a estabilidade das economias. Por aquele estreito passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido globalmente. A simples ameaça à sua operação já foi suficiente para encarecer seguros marítimos, pressionar fretes e desorganizar cadeias logísticas. O resultado imediato é previsível: energia mais cara, inflação disseminada e crescimento sob pressão. Esse choque funciona como um imposto invisível sobre a economia mundial. Ele encarece combustíveis, alimentos e transporte, pressiona a produção industrial e obriga bancos centrais a manter juros elevados. O cenário que se desenha é o de baixo crescimento combinado com inflação persistente, uma combinação historicamente difícil de administrar e politicamente explosiva. Nesse contexto, o Brasil aparece como exemplo de fragilidade estrutural. Ao longo dos últimos anos, consolidou-se uma política energética baseada em curto prazo, com redução do repasse imediato das variações internacionais sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva . O objetivo era suavizar impactos internos, mas o efeito prático foi a criação de um sistema menos previsível, mais distorcido e mais vulnerável a choques externos. A queda recente do dólar contribuiu marginalmente para aliviar custos, mas esse efeito foi amplamente superado pela alta do petróleo e pelo aumento do risco global. O câmbio ajudou a reduzir a percepção imediata da crise, mas não alterou sua essência. O que se formou foi um descolamento entre o preço real e o preço praticado internamente, criando uma sensação de estabilidade que não se sustenta no tempo. A defasagem e o risco do ajuste As estimativas sugerem que a gasolina pode estar entre 10% e 15% abaixo da paridade internacional, enquanto o diesel apresenta defasagem ainda maior, entre 15% e 25%. Em termos concretos, isso significa que 1 litro de gasolina, hoje na faixa de R$ 6, deveria estar próximo de R$ 6,60 ou R$ 6,90, enquanto o diesel a superar R$ 7, com impacto direto sobre fretes e, consequentemente, sobre toda a cadeia de preços da economia. O consumidor não está pagando menos porque o sistema funciona melhor, mas porque parte do custo foi temporariamente absorvida ou postergada. Quando o ajuste ocorre, tende a ser mais abrupto e mais doloroso. A Petrobras , que poderia atuar como eixo de estabilidade e planejamento, opera sob interferência política recorrente, o que reduz previsibilidade e limita sua capacidade estratégica. Ao mesmo tempo, o país segue dependente da importação de derivados por não ter avançado de forma consistente na expansão do refino. Exporta petróleo bruto e importa produtos refinados mais caros, um modelo que amplia a vulnerabilidade exatamente nos momentos de maior estresse global. + Leia notícias do Mundo em Oeste A crise de Ormuz não criou a fragilidade brasileira. Apenas a expôs com mais nitidez. Enquanto outras economias reforçam estoques estratégicos, diversificam fontes e tratam energia como ativo de segurança nacional, o Brasil segue reagindo a eventos, sem coordenação e sem plano de contingência. O mundo está mudando de lógica. Eficiência deu lugar à resiliência. Energia voltou a ser sinônimo de poder. E Ormuz se tornou o indicador mais sensível dessa transformação. O problema é que, diante desse novo cenário, o Brasil aparece como espectador de uma reorganização global para a qual não se preparou. A conta continua sendo construída, e quando vier, não virá diluída. Em economia, crises ignoradas não desaparecem. Elas apenas ganham força. https://www.youtube.com/watch?v=GISPq7q0DXM Paulo Faria é advogado e correspondente internacional de Oeste nos Estados Unidos O post Ormuz: o termômetro do colapso e o retrato da omissão brasileira apareceu primeiro em Revista Oeste .

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