Jornal O Globo
A divulgação do laudo financeiro da SAF do Botafogo, neste sábado, abriu uma nova frente na disputa pelo controle do clube e escancarou um cenário econômico ainda mais delicado do que o esperado. Elaborado pela Meden Consultoria a pedido da SAF comandada por John Textor, o documento aponta que a empresa tem valor econômico negativo — estimado em cerca de R$ 489 milhões — e enfrenta desequilíbrio estrutural entre receitas, custos e endividamento. A publicação ocorre no mesmo momento em que o americano convoca uma Assembleia Geral Extraordinária para discutir a necessidade de capitalização, em meio a uma queda de braço com o clube social. O laudo mostra que, apesar do crescimento expressivo de receitas nos últimos anos (de R$ 312 milhões em 2023 para R$ 655 milhões em 2025), a SAF não conseguiu converter esse avanço em sustentabilidade financeira. Os custos e despesas operacionais chegaram a R$ 892 milhões no último exercício, levando a mais um prejuízo relevante, de R$ 287 milhões. Trata-se do terceiro ano consecutivo de resultado negativo, evidenciando um modelo que, até aqui, depende de aportes e receitas extraordinárias para se manter. O documento foi elaborado com base em demonstrações financeiras de 2025 ainda em processo de auditoria, utilizadas como referência para as projeções e conclusões apresentadas. Além do resultado operacional, o laudo chama atenção para a situação de curto prazo. O Botafogo encerrou 2025 com passivo circulante superior ao ativo disponível, gerando um déficit de cerca de R$ 421 milhões no capital de giro e um índice de liquidez de 0,74. Na prática, isso indica que o clube não tem recursos suficientes para arcar com as obrigações que vencem em até um ano, ponto que ajuda a explicar episódios recentes, como o transfer ban imposto por inadimplência. Projeção esportiva conservadora embasa cenário financeiro Nas premissas utilizadas para projetar o futuro da SAF, o laudo adota um cenário esportivo estável, sem grandes saltos de desempenho até 20235. A expectativa é de campanhas intermediárias no Campeonato Brasileiro, entre a sétima e a 12ª posição, presença frequente até as quartas de final da Copa do Brasil e participação regular na Copa Sul-Americana. A Libertadores aparece apenas pontualmente, sem recorrência de participação ao longo do período projetado. Mesmo com esse desempenho competitivo regular, mas longe de picos extraordinários, a modelagem indica que o clube seguiria dependente de venda de jogadores e de aportes para sustentar sua operação. Outro elemento central do laudo é o peso das operações com partes relacionadas, especialmente empresas ligadas ao grupo Eagle Football. O saldo líquido dessas transações é positivo em cerca de R$ 558 milhões, mas o próprio relatório ressalta que a realização desses valores depende de condições societárias e contratuais. Caso esses recursos não se concretizem, o impacto negativo sobre o valor da SAF seria direto, ampliando ainda mais o desequilíbrio. O documento também detalha mecanismos financeiros que ajudam a entender a engrenagem do modelo atual. Em operações envolvendo jogadores negociados com o Lyon, clube que integra a rede de Textor, o Botafogo assumiu obrigações de repasse após revender atletas no mercado. A estrutura reforça a interdependência entre as empresas do grupo e expõe o clube a riscos que vão além do desempenho esportivo. Disputa em meio à crise É nesse contexto que a divulgação do laudo se conecta diretamente à convocação da Assembleia Geral. Textor propõe um aporte de R$ 125 milhões, por meio da emissão de novas ações da SAF, como forma de reforçar o caixa no curto prazo. A proposta, no entanto, enfrenta resistência do clube social, que vê na operação um potencial de diluição de sua participação e de fortalecimento do controle do investidor americano. A coincidência entre a apresentação do diagnóstico financeiro e o avanço da disputa societária não é casual. O laudo funciona, na prática, como peça central do argumento de urgência para a capitalização, ao evidenciar a necessidade de recursos imediatos. Do outro lado, a resistência ao aporte também se ancora na leitura de que o modelo atual, baseado em alto investimento e dependência de fluxos internos do grupo, precisa ser revisto. Com isso, o debate sobre as finanças do Botafogo deixa de ser apenas contábil e passa a ser também político. Mais do que explicar o passado recente, o laudo projeta o impasse que se coloca no presente: a SAF cresce em receitas e competitividade, mas ainda depende de financiamento contínuo para sustentar sua operação. Sem a aprovação do aporte, o clube pode ter dificuldade de cumprir compromissos no curto prazo, ampliando a pressão sobre a assembleia que discutirá os rumos do Botafogo nos próximos anos.
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