Collector
Nem tudo dá para terceirizar: qual é o custo invisível de delegar demais? | Collector
Nem tudo dá para terceirizar: qual é o custo invisível de delegar demais?
Jornal O Globo

Nem tudo dá para terceirizar: qual é o custo invisível de delegar demais?

É curioso como nem tudo é tão evidente quando pensamos sobre o que pode ou não ser delegado. Existem coisas óbvias. Ninguém delega fazer xixi. Ninguém delega beber água ou comer quando se está com fome. São funções tão básicas que vieram “embutidas”, como um lembrete silencioso do que é essencial e intransferível. Mas a vida não vem com manual para o resto. Ao longo do caminho, a gente se perde ou se confunde sobre o que é delegável. E não é por falta de inteligência. É por excesso de demanda, de cansaço, de pressa, de expectativa interna ou externa. Às vezes, é até por sobrevivência. Na criação dos filhos, por exemplo. Dá para delegar tarefas? Sim. Mas e o tempo? Qual tempo é delegável e qual não é? Dar banho no seu filho pode até ser. O dever de casa, talvez. Mas e a conversa antes de dormir? E o olhar atento que percebe uma mudança de humor, um medo ou uma aptidão? Existe uma linha invisível entre apoio e ausência e ela nem sempre é fácil de enxergar. E nós, mulheres, muitas vezes tendemos a terceirizar menos e nos sobrecarregar mais. Isso também não é bom. No trabalho, aprendemos que delegar é sinal de maturidade, de liderança. E é mesmo. Tem a ver com autoconhecimento. Sobre o que fazemos bem ou não. Sobre tarefas que são possíveis que outra pessoa exerça sem problemas. Mas também existe um ponto em que delegar demais começa a nos afastar daquilo que só a gente pode fazer: dar direção, imprimir visão, sustentar cultura e propósito. E talvez um dos lugares mais delicados dessa confusão seja a gestão da própria carreira. Quantas vezes a gente entrega isso para terceiros? Para um chefe, para uma empresa, para o “mercado”, para o algoritmo do LinkedIn. Vai seguindo, respondendo, performando... E, de repente, não se reconhece mais no caminho que está trilhando. E aí vem a frustração. Talvez o problema não tenha sido a escolha e sim a delegação de coisas que são indelegáveis. Porque há coisas que até podem ser feitas por outros, mas não podem ser decididas por outros. Não sem custo. Delegar o fazer pode ser estratégia. Delegar o sentido costuma ser perda. Vamos combinar que a linha entre sentido e estratégia pode ser bem tênue. E isso não tem a ver com controle. Tem a ver com autoria. Uma das grandes práticas em constante aprimoramento da vida adulta não seja apenas aprender a delegar melhor, mas aprender a revisitar constantemente o que é, de fato, indelegável. Nos mais variados contextos: do cuidado com os pais que estão envelhecendo aos com a carreira. E no meio disso tudo a gente muda, as prioridades mudam. O que ontem era prioridade, hoje pode não ser mais. O que antes era essencial, pode ter sido substituído. E o contrário também: coisas que a gente terceirizou lá atrás, hoje gritam pedindo presença. No fundo, a pergunta não é “isso é delegável?” A pergunta é: se eu não estiver aqui, o que deixa de existir? Tem coisa que alguém até faz melhor. Mais rápido, mais barato, mais eficiente. Mas tem coisa que, se não for você, simplesmente não acontece. O que é indelegável não é o que ninguém pode fazer. É o que ninguém pode ser no seu lugar.

Go to News Site