Collector
Exposição em Paris revela o Matisse mais radical | Collector
Exposição em Paris revela o Matisse mais radical
Jornal O Globo

Exposição em Paris revela o Matisse mais radical

Em 1941, Henri Matisse (1869-1954) tinha 71 anos, acabava de sobreviver a uma operação gravíssima no intestino e estava confinado a um quarto do hotel. Os médicos não apostavam nele que tampouco podia segurar um pincel por muito tempo. E o que fez? Inventou uma nova linguagem. Pegou tesoura, papéis pintados com guache e começou a recortar formas diretamente na cor. “À beira dos 80 anos, inaugurava uma fase mais livre, mais radical e, para muitos críticos, a mais genial de toda a sua carreira. É essa virada que se vê na exposição “Matisse: 1941-1954”, em cartaz no Grand Palais, em Paris, até 26 de julho, reunindo mais de 300 trabalhos entre pinturas, desenhos, livros ilustrados, têxteis e vitrais, dedicados aos derradeiros 13 anos do pintor francês. Há algo de profundamente reconfortante — e, ao mesmo tempo, desconcertante — nessa mostra. Reconfortante porque reforça um mito que todos adoramos contar: o da maturidade como coroação de uma biografia, o momento em que tudo se encaixou e o artista colheu o que plantou. Desconcertante porque, à medida que percorremos as salas, fica claro que nem todo final é sinônimo de acomodação. Doente, operado, muitas vezes acamado, Matisse falou desse período como uma “segunda vida”. Não vemos ali um senhor que suaviza a própria obra para envelhecer em paz, mas alguém que decide radicalizá-la. As paredes desmentem qualquer ideia de serenidade crepuscular. Há quadros de guerra e naturezas-mortas de fundo negro, em que flores parecem avançar sobre quem olha. Interiores domésticos se tornam quase sufocantes: figuras comprimidas em cômodos estreitos, mesas e cadeiras encavaladas, janelas que não se abrem. O mundo, ali, não é harmonioso; é assustador, às vezes claustrofóbico. A velhice de Matisse não se apresenta como acomodação elegante, mas como um embate direto entre as limitações do corpo e o fulgor que ainda queimava por dentro. Ao mesmo tempo, ele está cansado, não banca o super-herói. “A morte pesa muito”, confidenciou a um amigo. É justamente nesse ponto de tensão que acontece o salto. Incapaz de pintar como antes, Matisse pega a tesoura. E, com ela, inventa uma linguagem inteira. As gouaches découpées, os famosos recortes, não são um recurso menor, um truque tardio para driblar a doença, mas um avanço na história da arte. Cor direta, forma essencial, escala monumental. Um gesto que parece simples, mas que exige precisão de operação. Como se, ao perder um instrumento, ele tivesse encontrado outro ainda mais livre. Diante de “Jazz”, com suas acrobatas contorcidas, explosões de amarelos, azuis, rosas, ou de “Ícaro”, aquele corpo branco atravessado por um vermelho pulsante no peito, a sensação é física, o nosso olhar é quase atropelado pelas figuras. Nas grandes composições vegetais e marinhas, ramos, folhas, algas e estrelas do mar parecem sair da moldura e crescer pelas paredes, tomando o espaço como se fossem coreografias em câmera lenta. O resultado é uma alegria estranha, construída a partir de um corpo limitado que ousa sonhar em grande formato. Tudo vibra. Tudo respira. Tudo nasce de alguém que mal consegue se levantar da cama. Em tempos que comemoram o precoce, o imediato, o jovem — o artista-prodígio, o influenciador de 20 anos, uma carreira que precisa “acontecer” antes dos 30 —, essa exposição reorganiza a conversa. Fala de um recomeço aos 71. De um homem que reinventa radicalmente a própria linguagem aos 75. E que produz algumas de suas obras mais conhecidas, como os Nus azuis e grandes painéis como “A Gerbe” e “O Caracol”, quando já se aproxima dos 80. As imagens provam que os epílogos ainda podem reservar grandes pontos de virada, não apenas notas de rodapé. E, quando se pensa que é tarde demais, descobre-se que tarde pode ser também demais.

Go to News Site