Jornal O Globo
Com o modelo de "democracia iliberal" do longevo líder de extrema direita Viktor Orbán à prova, a Hungria registrou participação recorde nas eleições realizadas neste domingo — que podem ser o capítulo final de um programa político que por 16 anos enfraqueceu as instituições democráticas e transformou Budapeste em um opositor do Ocidente na União Europeia. As primeiras parciais de um processo de apuração que promete se arrastar pelos próximos dias apontou vantagem do partido de oposição Tisza (Respeito e Liberdade), cujo jovem líder Péter Magyar, de 45 anos, é um ex-apoiador de Orbán, que se converteu em um de seus maiores críticos. As primeiras parciais foram divulgadas pouco mais de uma hora após o fechamento das seções eleitorais, às 19h (14h em Brasília). Com 37% dos votos apurados, as projeções apontavam que o Tisza conquiste 132 cadeiras – uma a menos do que o necessário para a maioria de dois terços no Parlamento – contra 59 do Fidesz (União Cívica Húngara), de Orbán, e 8 do Mi Hazank, sigla ainda mais à direita. Além dos candidatos eleitos pelo voto direto depositado em 106 distritos eleitorais, uma contagem paralela define 93 parlamentares, escolhidos a partir de listas partidárias sob um sistema proporcional complexo. Se nenhum partido obtiver maioria clara na votação direta, é possível que o vencedor só seja conhecido em dias. Em uma declaração à imprensa após o fechamento das urnas, Magyar disse estar "cautelosamente otimista" quanto à vitória. O candidato fez campanha sob as promessas de rever a orientação pró-Moscou e anti-UE dos anos Orbán, além de melhorar a economia, combater a corrupção e restaurar a independência da mídia e do Judiciário — que passou por uma ampla nomeação de juízes leais. — É claro que estamos cientes, vimos as últimas pesquisas... — disse o opositor. — Com base nelas, juntamente com os dados de comparecimento e as informações que recebemos, estamos otimistas. Ou melhor, cautelosamente otimistas. Além das pesquisas favoráveis, a participação recorde dos eleitores é vista com otimismo pela oposição. A Comissão Eleitoral húngara informou que meia hora antes do fechamento das urnas, a participação já era de 77,8% — acima da máxima histórica de 70,5% registrada nas eleições de 2002. Analistas apontam que a participação ampla pode favorecer ao candidato de oposição. Orbán votou em Budapeste. Ao deixar a seção eleitoral, o premier voltou a atacar a UE, afirmando que não permitiria que a política de Bruxelas privasse a Hungria de "seu futuro e sua soberania". — Felizmente, temos muitos amigos no mundo. Da América à China, passando pela Rússia e o mundo turco — declarou o premier. Ao deixar a seção eleitoral, Orbán foi recebido por manifestantes que zombavam de seus laços com a Rússia — embora tenha recebido apoio expresso do presidente americano, Donald Trump, durante a campanha eleitoral, o líder húngaro é apontado como um grande aliado do presidente da Rússia, Vladimir Putin, na Europa. — Imprimimos uma passagem de embarque para o primeiro-ministro Viktor Orbán para Moscou. Se ele perder esta noite, ainda poderá ir para Moscou — disse o manifestante Eniko Toth, de 32 anos, ouvido pela AFP. (Com NYT e AFP)
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