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Análise: derrota de Orbán na Hungria é momento crucial para a União Europeia
Jornal O Globo

Análise: derrota de Orbán na Hungria é momento crucial para a União Europeia

Viktor Orbán sempre foi um desafio e uma fonte de frustração para a União Europeia, e sua derrota nas eleições húngaras deste domingo foi recebida pelos principais líderes da UE como um momento potencial para uma mudança radical após anos de conflitos entre Bruxelas e Budapeste. Eleições na Hungria: Orbán admite derrota após votação com recorde de comparecimento que pôs fim a 16 anos de governo Leia também: Peru vai às urnas com Keiko Fujimori na liderança em meio a crise política e aumento da violência "O coração da Europa bate mais forte na Hungria esta noite", publicou Ursula von der Leyen, presidente do braço executivo da UE, nas redes sociais à medida que os votos eram apurados. Orbán frequentemente se opôs a objetivos políticos cruciais para a União Europeia, incluindo o bloqueio de um empréstimo à Ucrânia e de pacotes de sanções contra a Rússia. Sua administração é vista há muito tempo como um risco à segurança em reuniões sensíveis devido aos seus laços relativamente estreitos com o Kremlin. Com a vitória do partido da oposição húngara, liderado por Peter Magyar, isso poderá começar a mudar. Magyar e seu partido, Tisza, adotaram um tom mais amigável em relação à União Europeia e à Otan. Durante a votação, ele destacou que ela estava ocorrendo no aniversário da votação de 2003 a favor da adesão da Hungria à UE — um possível sinal de que ele queria romper com a animosidade de Orbán em relação a Bruxelas. Initial plugin text A expectativa mais imediata é que a nova liderança abra caminho para um empréstimo de 90 bilhões de euros à Ucrânia, que está congelado há semanas devido às objeções de Orbán. “O resultado das eleições é um divisor de águas para a Europa”, disse Mujtaba Rahman, diretor-geral para a Europa do Eurasia Group, uma consultoria de risco político. Mas Magyar também adota uma visão cética em relação a certas políticas europeias. Em um momento em que o bloco tenta cortar os seus laços energéticos com a Rússia, ele indicou que, embora a Hungria deva se desvencilhar da dependência, as importações russas precisam continuar sendo uma opção. Seu partido também se opôs a algumas mudanças iminentes nas políticas de migração. E há muitas áreas em que a Hungria era apenas uma voz divergente. Agora, outros desacordos entre os Estados-membros sobre questões espinhosas que exigem unanimidade — incluindo a expansão da UE — podem vir à tona. “Isso facilita as coisas: você não tem a chantagem sistemática”, disse Eric Maurice, analista de políticas do Centro de Políticas Europeias, referindo-se aos frequentes obstáculos que Orbán criou. “Mas isso não torna as coisas fáceis.” O premier da Hungria, Viktor Orbán, admite derrota em discurso em Budapeste Attila KISBENEDEK / AFP O governo Orbán tem sido complicado para os funcionários europeus, como no caso do empréstimo de 90 bilhões de euros para a Ucrânia. Os líderes europeus concordaram em conceder o empréstimo no final de 2025, e a Hungria permitiu que o plano fosse aprovado. Mas Orbán e seu partido surpreenderam Bruxelas ao suspenderem o empréstimo em fevereiro, alegando a lentidão da Ucrânia em consertar um oleoduto que atravessa o território ucraniano antes de fornecer combustível russo à Hungria e à Eslováquia. O atraso foi visto como uma manobra política antes das eleições húngaras, nas quais o partido de Orbán, o Fidesz, adotou uma linha abertamente anti-Ucrânia e anti-União Europeia. O Fidesz espalhou imagens pouco lisonjeiras do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em outdoors por toda a Hungria, culpando-o e à União Europeia pelo aumento do desemprego e pelo crescimento estagnado, e acusando-os de tentar desviar dinheiro húngaro. Orbán também tem sido um obstáculo constante aos esforços para prejudicar a economia russa com sanções, muitas vezes usando o veto da Hungria como moeda de troca para obter exceções ou acesso a financiamento de Bruxelas. O governo Orbán também representou um desafio para os funcionários da UE de outras maneiras, como quando decidiu proibir a Parada do Orgulho LGBTQIA+ em 2025. Mais recentemente, o partido Fidesz de Orbán tornou-se alvo de intenso escrutínio e censura devido a vazamentos para a Rússia. A mídia europeia noticiou que membros do governo de Orbán estavam compartilhando informações de reuniões da UE com o Kremlin. Galerias Relacionadas Uma colaboração mais estreita com Bruxelas poderá revelar-se vantajosa para a Hungria. O governo húngaro deverá tentar desbloquear bilhões de euros em financiamento congelado por Bruxelas, incluindo um pacote de subsídios de cerca de 10 bilhões de euros que exige aprovação até ao final de agosto. A Hungria também trabalha para obter 16 bilhões de euros em empréstimos para um rearmamento. A derrota de Orbán significa também que a União Europeia está perdendo talvez seu crítico interno mais ferrenho. Na preparação para as eleições, a equipe de Orbán insistiu que a União Europeia estava interferindo na votação, frequentemente fazendo alegações com poucas evidências. O governo Trump adotou essa linha de argumentação, com o vice-presidente JD Vance acusando Bruxelas de "um dos piores exemplos de interferência eleitoral que já vi ou sequer li a respeito" durante uma visita a Budapeste na semana passada. Autoridades da UE negaram as acusações. Durante a votação, evitaram comentar o pleito, receosas de alimentar a narrativa de interferência. “Sempre acho estranho que um vice-presidente da Comissão Europeia não possa comentar sobre eleições, enquanto o vice-presidente dos EUA comenta sobre as eleições e a campanha”, disse Stéphane Séjourné, vice-presidente da Comissão Europeia, na semana passada. Assim que a notícia da vitória da Hungria foi divulgada na noite deste domingo, os líderes da UE acolheram a mudança. “O lugar da Hungria é no coração da Europa”, escreveu Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, nas redes sociais na noite deste domingo.

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