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Quando Anitta gravou Show das Poderosas num teatro da Barra da Tijuca com 30 bailarinos e uma câmera em preto e branco, ela ainda atendia pelo nome de MC Anitta. Era 2013. Mais de uma década depois, a mesma cantora chega ao oitavo álbum da carreira, o EQUILIBRIVM, com 15 faixas gravadas em Ibitipoca, Minas Gerais, e uma lista de colaboradores que inclui Liniker, Luedji Luna, Marina Sena, Rincon Sapiência e Shakira. O disco, que sai na quinta-feira (13.04), é dividido em duas partes: uma em português, ancorada em espiritualidade e brasilidade, e outra em inglês e espanhol para o mercado internacional, com direito a uma versão de Várias Queixas, do Olodum, revelada como faixa surpresa no Saturday Night Live na semana passada. Nada nessa trajetória foi acidente. Para entender o que o novo disco diz sobre quem Anitta se tornou, é preciso voltar ao começo, e passar por cada música que ajudou a construir uma das carreiras mais calculadas e surpreendentes da música brasileira. Selecionar uma imagem Show das Poderosas (2013) Era uma outra Anitta, ainda chamada de MC Anitta, quando Show das Poderosas chegou às rádios brasileiras em abril de 2013. A música, composta pela própria cantora, foi o primeiro single lançado pela Warner Music e abriu o álbum de estreia homônimo, que vendeu mais de 120 mil cópias em três meses e foi certificado disco de platina no Brasil. O clipe, filmado em preto e branco num teatro da Barra da Tijuca com 30 bailarinos formando uma espécie de exército feminino, tinha inspiração declarada no videoclipe de "Run the World (Girls)", de Beyoncé. Em 2015, tornou-se o primeiro clipe de uma artista brasileira a atingir 100 milhões de visualizações no YouTube. Mais de dez anos depois, o Ecad apontou a música como a mais regravada e a mais tocada de toda a discografia de Anitta na última década no Brasil. Difícil imaginar um começo mais poderoso do que esse. Meiga e Abusada (2013) Antes da Warner, antes do contrato, antes do álbum, havia Meiga e Abusada. Lançada em fevereiro de 2013, a música funcionou como cartão de visita de uma jovem de Honório Gurgel que já gerenciava sua própria imagem com precisão rara para a época. Foi o single que a levou a negociar com as maiores gravadoras do país, e ela escolheu a Warner. O clipe, filmado em Las Vegas, foi a primeira grande produção audiovisual de sua carreira e acumulou milhões de visualizações rapidamente. A dualidade do título, meiga e abusada ao mesmo tempo, definia com perfeição a persona que Anitta construiria para si: sedutora sem pedir permissão, popular sem abrir mão da atitude. Não Para (2013) Do mesmo álbum de estreia, Não Para chegou ao top 10 das rádios brasileiras e consolidou Anitta como um fenômeno de múltiplos hits em uma mesma tacada. Enquanto Show das Poderosas carregava o peso do manifesto e Meiga e Abusada tinha a função de apresentação, Não Para era puro prazer, uma faixa de dança irresistível que mostrava o quanto a cantora dominava a arte do chiclete bem-feito. A música ficou entre as cinco primeiras posições no Top 100 Brasil. Na Batida (2014) Com o segundo álbum, Ritmo Perfeito, Anitta confirmou que não era fenômeno de um disco só. Lançada em julho de 2014 como terceiro single do trabalho, Na Batida atingiu um milhão de visualizações no YouTube em menos de 24 horas e chegou ao quarto lugar nas paradas musicais brasileiras. A faixa marcou uma fase em que a cantora começava a expandir o som para além do funk carioca de origem, incorporando influências de R&B e electropop com desenvoltura. Naquele mesmo período, a revista francesa Paris Match a chamou de "rainha do pop brasileiro", título que começava a fazer sentido para além das fronteiras do país. Bang (2015) O terceiro álbum de estúdio é até hoje o mais vendido da carreira de Anitta, com mais de 300 mil cópias comercializadas no Brasil. Bang, a faixa-título, foi a música que levou a cantora a outro patamar de visibilidade: o clipe ultrapassou 300 milhões de visualizações no YouTube, tornando-a a única artista brasileira feminina a atingir essa marca à época. A produção do álbum contou com Giovanni Bianco, mesmo criativo que trabalharia com ela anos depois em Sua Cara, e a estética visual sofisticada já sinalizava uma artista que controlava cada detalhe de sua imagem com intenção. Bang foi também a música escolhida para o videogame Just Dance 2017, levando a coreografia de Anitta para salas de estar do mundo inteiro. Vai Malandra (2017) Lançada dentro do projeto CheckMate, no qual Anitta prometeu um single por mês ao longo de 2017, Vai Malandra foi a que ficou. Em parceria com MC Zaac, Maejor, Tropkillaz e DJ Yuri Martins, a música entrou de vez no debate sobre funk carioca e mainstream, num momento em que o gênero ainda enfrentava tentativas de proibição no Rio de Janeiro. O clipe, dirigido por Terry Richardson, foi filmado no Morro da Providência e colocou as imagens da favela carioca no centro de uma produção de alto orçamento. Ganhou o Prêmio Multishow e o Capricho Awards de clipe do ano. Antes do sucesso de "Envolver", era a música de Anitta com melhor posicionamento no Spotify global, tendo chegado ao 18º lugar. Paradinha (2017) Ainda em 2017, Anitta lançou Paradinha, seu primeiro hit solo inteiramente em espanhol, e mudou de vez o rumo da carreira. A decisão de gravar em espanhol não era óbvia para uma artista cuja identidade estava tão ligada ao funk carioca e ao português do Brasil, e havia resistência, inclusive interna. Mas Paradinha abriu o mercado latino de forma definitiva, acelerou o crossover para o reggaeton e estabeleceu a cantora como nome relevante além das fronteiras lusófonas. Era o início de uma estratégia internacional que Anitta conduzia ela mesma, sem depender de validação externa. Sua Cara (2017) Se Paradinha abriu a porta para a América Latina, Sua Cara derrubou uma parede. A parceria com o coletivo americano Major Lazer e com Pabllo Vittar, lançada em junho de 2017, atingiu 20 milhões de visualizações no YouTube em um único dia e se tornou a faixa mais tocada do EP em que foi lançada, superando inclusive o single principal com Camila Cabello, Travis Scott e Quavo. O clipe foi gravado no Marrocos, numa produção que colocava o Brasil em diálogo com o Oriente Médio sem forçar nenhuma das duas referências. Mais do que um hit, Sua Cara foi um encontro: Anitta, Pabllo Vittar e Diplo num mesmo frame representavam algo que a música pop brasileira raramente havia feito antes. Downtown (2017) Também do projeto CheckMate, Downtown com J Balvin chegou em outubro de 2017 e cimentou a relação de Anitta com o reggaeton colombiano que dominava as paradas latinas. J Balvin era, àquela altura, um dos artistas mais ouvidos do mundo, e a parceria colocava a cantora brasileira num circuito que poucos compatriotas haviam acessado. A música funcionava como declaração de posicionamento: Anitta não estava apenas tentando o mercado internacional, ela já estava dentro dele. Medicina (2018) Lançada em julho de 2018, Medicina foi gravada na Colômbia e construída com referências do reggae e do reggaeton, inteiramente em espanhol. A música saiu contra a vontade da própria cantora, que preferia lançar Veneno primeiro, e mesmo assim venceu o Latin American Music Awards de clipe favorito. A letra, que compara o poder da música ao de um remédio, foi eleita uma das cinco melhores faixas da semana pelo Vulture, ao lado de Tyler, The Creator, ASAP Rocky e The 1975. Era a confirmação de que Anitta havia cruzado um limiar: não estava mais sendo avaliada como curiosidade brasileira, mas como pop star em disputas de igual para igual. Girl From Rio (2021) A ideia veio dos produtores Stargate: pegar a melodia de "Garota de Ipanema", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e transformá-la em um hit de trap para o mercado americano. Anitta topou, mas quis trazer para a letra o Rio que ela conhecia de verdade, o de Honório Gurgel, não o de Ipanema. "Girl From Rio" foi lançada em abril de 2021 e se tornou a porta de entrada de Anitta nos Estados Unidos, com apresentações no Today Show, no Jimmy Kimmel Live e no VMA da MTV. O clipe foi fotografado pela mesma dupla que assinaria depois a identidade visual do EQUILIBRIVM, num projeto visual que dialogava com o Rio dos anos 1960 e 1970 sem cair na nostalgia fácil. Boys Don't Cry (2022) O electropop em inglês de Boys Don't Cry, lançado em janeiro de 2022, soava quase como provocação vinda de uma cantora que havia construído sua identidade no funk brasileiro. Era uma faixa de ruptura estética, com referências ao pop dos anos 1980 e uma letra de empoderamento feminino que dispensava qualquer ambiguidade. A versão ao vivo gravada com Miley Cyrus no Lollapalooza Brasil daquele mesmo ano entrou no álbum ao vivo da americana. Boys Don't Cry chegou ao número 1 do iTunes em 45 países, ampliando o recorde de Anitta como a artista brasileira com mais posições de topo na plataforma. Envolver (2022) Em novembro de 2021, Envolver foi lançada quase sem alarde. Meses depois, uma dança que aparecia no clipe viralizou no TikTok e reconfigurou completamente a escala da música. Em março de 2022, a faixa chegou ao primeiro lugar do Top 50 Global do Spotify, tornando Anitta a primeira artista solo latina e a primeira artista brasileira a liderar o chart global da plataforma. O feito lhe rendeu dois recordes no Guinness World Records no mesmo ano, o MTV VMA de Melhor Clipe Latino e o American Music Awards de Artista Latina Favorita, ambos também inéditos para artistas brasileiras. Uma dança no TikTok que virou história da música. Revistas Newsletter Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!
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