Revista Oeste
“Eu queria um Brasil melhor para os meus filhos. Foi por eles que eu estava lá, mãe” (Débora Rodrigues, presa política do regime luloalexandrino) A entrevista realizada pelo repórter da Oeste Cristyan Costa com Débora Rodrigues — a presa política que ficou conhecida como “Débora do batom — é um marco jornalístico e deveria despertar em todo brasileiro decente um clamor ardente por justiça. Trata-se de um dos casos de abuso de autoridade e perversidade estatal mais escandalosos da história brasileira, e, ao tomar conhecimento de seus detalhes, não há uma só pessoa de caráter e discernimento que não veja nos arquitetos da prisão de Débora — do juiz ao procurador-geral da República, dos capangas fardados que invadiram sua residência às alcaguetes fantasiadas de jornalistas que primeiro a identificaram — a marca de uma monstruosidade moral. Antes de mais nada, é preciso considerar o “crime” de Débora e o contexto que o explica. A cabeleireira — uma brasileira comum, sem qualquer antecedente criminal, que, junto com seu marido, pintor de parede, trabalhava incansavelmente para pagar impostos, sustentar a casta do alto funcionalismo público de Brasília e, com o que sobrar, sustentar dois filhos pequenos — subiu na estátua da Justiça e, instigada por outro manifestante, acabou concluindo a pichação da frase “Perdeu, mané” com um batom. Mas por que essa frase? Como talvez nem todo o público se recorda, ela foi dita por Luís Roberto Barroso, que recém presidira o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na ocasião, Barroso caminhava em Nova York, acompanhado do colega Alexandre de Moraes (hoje alcunhado de “Careca do Master”), quando foi abordado por um manifestante que, educadamente, o questionava sobre a segurança do código-fonte das urnas eletrônicas brasileiras e a lisura do processo eleitoral. O ex-ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF) discursa em evento da União Nacional dos Estudantes (UNE) e diz: 'Nós derrotamos o bolsonarismo' — 13/7/2023 | Foto: Wilson Dias/Agência Brasil Com um claro animus humiliandi , o magistrado que pouco depois viria a celebrar o fato de ter “derrotado” aquele e milhões de outros eleitores de Jair Bolsonaro, não se vexou em tripudiar e debochar de quem havia vencido. A escolha do vocabulário — usado por meliantes que, nas grandes cidades, assaltam as vítimas e lhe surrupiam o patrimônio (uma bolsa, um celular, um tênis etc.) sob a mira do revólver — é bastante simbólica. Barroso falava por toda a sua classe, a classe dos “malandros — composta por servidores togados que, em lugar de responder ao público (ou seja, aos “manés”), prefere viver para cima e para baixo voando em jatinho de banqueiro estelionatário, frequentando suas surubas, prestando-lhe serviços advocatícios milionários e, tal como cães dóceis e amestrados, bebendo uísque de primeira na mão do dono. A ação de Débora — que poderia, no máximo, acarretar-lhe uma multa por dano ao patrimônio e, quem sabe, a prestação de algum serviço à comunidade — deu-se num contexto de uma revolta social legítima, causada pela nítida percepção (hoje cada vez mais justificada), por parte de pelo menos metade do eleitorado nacional, de que as eleições foram conduzidas de maneira totalmente desequilibrada e sem qualquer resquício de isonomia. Conduzida, em meio à censura e à perseguição política, por tipos como Barroso, Moraes, Gilmar Mendes e outros, que se comportaram sem o mínimo de decoro exigido para a posição de juiz, não se vexando em desempenhar o papel de atores políticos e inimigos de um dos contendores da disputa, bem como de seus eleitores e apoiadores. Os ministros do STF, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, Luiz Inácio Lula da Silva e o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, durante a solenidade comemorativa ao Dia do Soldado, em 2024, Brasília | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Mas, em razão da pichação, Débora foi tratada como nem mesmo os piores e mais violentos criminosos brasileiros — estupradores, narcoterroristas, homicidas etc. —são tratados. Tudo está registrado na entrevista, e não há mais como ninguém fingir que a infâmia não aconteceu. Débora foi acusada de “golpista” — eis a senha para o cometimento das piores atrocidades (algumas letais) por parte de agentes do Estado, que até hoje lançam mão do expediente para se blindarem contra investigação de suas maracutaias financeiras. Hoje, sabe-se bem o quão compensatória foi a “missão dada, missão cumprida” de “defender a democracia” contra pessoas como Débora, Clezão e tantas outras vítimas do regime luloalexandrino. A polícia política chegou à casa da cidadã trabalhadora Débora Rodrigues antes das 6h da manhã. A família inteira, incluindo as crianças, foi acordada pela gritaria e pelos murros no portão. Débora, ainda de pijama, correu assustada para o banheiro, tentando inutilmente contatar um advogado. Os capangas do regime ameaçaram arrombar a porta do banheiro. Tremendo de medo, e depois de tentar acalmar o marido e os filhos, a cabeleireira foi algemada na frente da família (como se representasse qualquer ameaça de resistência) e levada inicialmente para uma cadeia em Paulínia (interior de São Paulo), sua cidade de residência. Foi jogada numa cela infecta, cheirando a fezes e urina, o chão repleto de bitucas de cigarro. Débora não conseguia comer nem dormir direito. Dias depois, foi transferida para a penitenciária feminina de Mogi-Guaçu, uma prisão de segurança máxima. Ali também ela não conseguia dormir, por conta do frio e da imundície do leito, junto a uma parede coberta de fezes e manchas de sangue. A presa política conta ter passado as noites ajoelhada ao lado da cama, rezando até desmaiar de exaustão. Com muito frio, Débora solicitou um cobertor. O que recebeu estava encharcado de urina. Sem conseguir dormir e mal conseguindo se alimentar, ela tentava ler a Bíblia pela réstia de luz que vinha da passagem de alimentação. Pensava constantemente nos filhos. Ainda não voltara a ter qualquer contato com a família. Tempos depois, Débora foi transferida para o Centro de Ressocialização de Rio Claro, onde passou a maior parte do período de custódia. Na transferência, ela foi algemada pelas mãos e pelos pés, como um animal selvagem ou um criminoso de alta periculosidade. O recado era claro: ela tinha que aprender, por meio do terror, a nunca mais ousar questionar os “malandros” que a prenderam e que, desde então, governam o país como querem, totalmente alheios à lei e quaisquer limites. Foi em Rio Claro que Débora recebeu a visita do marido e dos filhos pela primeira vez. As crianças, assustadas com o ambiente e sem compreender por que a mãe se encontrava em tal situação, choravam copiosamente enquanto a agarravam com ânsia e pavor. O trauma psicológico foi brutal. O maior, Caio, não voltara a sorrir desde a prisão. Pois chorando, e agarrados à mãe, as crianças lhe perguntaram: “Por que você está aqui, mamãe? Você é uma criminosa?”. E, fustigada por uma dor lancinante, Débora tentava lhes explicar que não, ela não era uma criminosa. Ela era apenas mais uma “mané” num país governado por “malandros”. O post Débora, a mané presa por malandros apareceu primeiro em Revista Oeste .
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