Jornal O Globo
Nesta altura do campeonato já é seguro dizer que Justin Bieber reina poderosamente no panteão mais alto da indústria da música pop. Pouca gente pode ostentar o patamar de mais de 90 bilhões de streamings, 150 milhões de cópias (digitais e físicas) vendidas dos oito álbuns de estúdio e quatro turnês mundiais. Crítica: E o show de Justin Bieber no Coachella, foi ruim mesmo? Longe disso Ainda que a Justice World Tour, de 2022, tenha sido parcialmente cancelada por problemas de saúde, os ingressos venderam bem e a frustração de quem não conseguiu ver o astro ao vivo acabou alimentando a saudade dos fãs Por isso mesmo, a expectativa estava nas alturas em torno do show do astro no festival Coachella, no último domingo (12). Só que algo não foi exatamente como se esperava. Justin resolveu ignorar solenemente a cartilha dos megashows pop, redesenhada lá nos anos 80, pelos dois artistas cujos nomes começam com "M". Ao contrário do que se esperava, Justin não trouxe bailarinos, não trocou de roupa, não fez coreografia elaborada e não sobrevoou o público. Logo na primeira música, "All I can take", ele já deu o tom de como as coisas funcionariam. Seriam apenas ele, um laptop e um telão. A parte principal do show consistiu em Justin entrar no Youtube, procurar suas músicas, dar play e cantar em cima da própria voz. Em alguns momentos, provocando a loucura dos fãs, como na hora em que cantou "Baby" junto com sua versão menino. As duas vozes sobrepostas criaram uma atmosfera de nostalgia e conforto que fez Katy Perry gritar loucamente da plateia, onde assistia ao show ao lado do namorado Justin Trudeau, ex-primeiro ministro do Canadá. Emocionados As reações ao show low-tech de Justin têm sido bem mais elaboradas do que o palco (sofisticadamente) minimalista. O coro dos críticos decepcionados é alto, mas as vozes dos fãs entusiasmados parecem mais potentes. Entre as centenas de trechos de vídeos postados pela audiência entre a noite de domingo e a manhã de segunda-feira, não são poucos os relatos emocionados daqueles que cresceram ao som dos hits do popstar de 32 anos. "Parece que eu estou scrolling com ele, vendo os vídeos", disse uma fã no Youtube. "É como se a gente estivesse no quarto dele", disse um rapaz que não disfarçava o encantamento diante do que via. Ao escolher o bate-papo enquanto navega no laptop, Justin ajudou a fortalecer ainda mais o alicerce que sustenta o pop: a falsa impressão de que o artista é "seu amigo". E tal construção só foi possível ao se afastar drasticamente de uma estética cada vez mais high-tech desta indústria. Em tempos em que a IA torna praticamente qualquer coisa possível, preparando o terreno para artistas oficialmente fabricados num computador, Justin parece querer trafegar no caminho oposto, reforçando ainda mais sua humanidade. A mais bobinha... A indústria da música pop não é para amadores. Há que se ter um bom quinhão de resiliência, amor próprio e alguma ousadia para sair vivo (em alguns casos, literalmente) desta máquina de moer gente. Por trás dos grandes números de streaming, vendas e turnês também estão os estrategistas de marketing mais talentosos do planeta. Neste território, dá para dizer que "a mais bobinha corre de costas e de tamanco". Por isso, não seria exagero dizer que a ideia de ir na contramão dos ambientes hipertecnológicos e dos shows altamente elaborados talvez tenha surgido de um marketeiro altamente inspirado. Ainda assim, Justin a realizou com maestria, provando que é, sim, um dos artistas pop mais interessantes de sua geração e, de quebra, provocando o início de uma conversa que promete chacoalhar a crítica especializada, os produtores e os consumidores do chamado "showbizz" nas próximas semanas.
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