Vogue Brasil
Jessie Ware queria criar um mundo quase bom demais para ser verdade. Romântico, eufórico, cinematográfico. Superbloom, seu sexto álbum, que acaba de chegar às plataformas de streaming, é exatamente isso. O disco fecha, ao menos por enquanto, uma trilogia iniciada em 2020 com What's Your Pleasure? e continuada em 2023 com That! Feels Good!, dois álbuns que transformaram Jessie de uma cantora de soul eletrônico aclamada pela crítica em uma das maiores vozes da dance music britânica contemporânea. "Se What's Your Pleasure? é a pergunta, a incerteza, e That! Feels Good! é o momentum, a felicidade, o presente", ela explicou à Vogue Brasil, "Superbloom é o único caminho possível: direto para o céu." Chegar aos céus, nesse caso, exigiu também descer um pouco. Para construir o universo sonoro do álbum, Jessie voltou às fontes: ficou ouvindo Minnie Riperton, Tina Marie e ESG, buscando aquela sensação de nostalgia sem transformar o disco num exercício de época. "Eu ainda queria ter elementos modernos", disse. "Meu objetivo é sempre fazer algo que resista ao teste do tempo e pareça atemporal." O resultado são 13 faixas produzidas com James Ford (Depeche Mode, Kylie Minogue e Gorillaz), Barney Lister, Karma Kid, Jon Shave e Stuart Price (Madonna), e mixadas por Ben Baptie, que transitam do soul orquestral ao funk setentista, do disco à balada de piano, sem jamais perder a coesão. Jessie assinou o A&R do projeto inteiro, ou seja, teve controle total sobre repertório, produtores e direção criativa, como faz desde What's Your Pleasure?, e a escuta confirma esse controle. Cada escolha parece deliberada. Algumas dessas escolhas são espetaculares. Em Automatic, Colman Domingo, ator conhecido por Euphoria e indicado ao Oscar pelo filme biográfico Rustin, abre a faixa com um spoken word antes de a voz de Jessie tomar conta. A ideia surgiu durante uma sessão de orquestra para o álbum. Ela enviou o roteiro para ele, que gravou tudo por mensagem de voz em menos de uma hora. Em Ride, a cantora interpola o tema icônico de Ennio Morricone para Três Homens em Conflito e transforma o spaghetti western em pista de dança. "Havia amostras de O Bom, o Mau e o Feio", ela contou, conectando esses elementos ao desejo de criar "um mundo que parecesse quase bom demais para ser verdade, porque era tão romântico e tão cheio de amor." Selecionar uma imagem Mas Superbloom não é só festa. É também o disco em que Jessie decidiu deixar a vida real entrar. Os filhos (ela não revela os nomes das crianças) aparecem no álbum em gravações captadas numa praia que a família frequenta todo ano. Em 16 Summers, ela confronta o medo de não estar aproveitando o tempo com as pessoas que ama. "Eu queria celebrar a domesticidade e a normalidade da vida também", disse ela. "Não queria ignorar isso. Mas também queria poder usar vários chapéus diferentes. Por que não podem estar todos no mesmo disco?" Essa coexistência de mundos, a diva de pista e a mãe, a personagem e a mulher, é o que torna o projeto algo mais difícil de classificar do que seus predecessores. E tem a ver com um processo que começou bem antes deste álbum. Jessie estreou em 2012 com Devotion, um disco de soul eletrônico contido e melancólico que rendeu aclamação imediata e um hit em Wildest Moments. Os álbuns seguintes, Tough Love e Glasshouse, a mantiveram no radar, mas foi a virada de What's Your Pleasure? que redefiniu os termos da sua carreira. "Foi o primeiro álbum que eu fiz o A&R totalmente sozinha", lembrou. "Eu tinha tanto controle sobre ele, e valeu a pena." Fora da música, Jessie também construiu um universo paralelo com o podcast Table Manners, que apresenta ao lado da mãe, Helena, e se tornou um fenômeno no Reino Unido. É um detalhe que importa: ela não precisa mais fazer música por obrigação. Faz porque quer, porque tem algo a dizer, e essa liberdade aparece na escuta. Aparece também no palco, onde ela diz ter finalmente se livrado das inseguranças que marcaram o início da carreira. "Me deixou aproveitar muito mais as experiências. Permitiu que eu me tornasse mais ambiciosa na minha abordagem às performances. E acho que permitiu que o meu público se divertisse mais também", refletiu. Revistas Newsletter O público brasileiro, ela sabe, está entre os mais apaixonados que já encontrou. A primeira vez que Jessie veio ao Brasil ficou marcada. Ela havia chegado direto de uma passagem pelo Primavera Sound, em 2022, sem saber muito o que esperar. O que encontrou foi uma entrega que ainda carrega. "Os fãs brasileiros são tão generosos, tão apaixonados. É exatamente o que um artista quer. Amei cada segundo", garantiu. Nessa mesma visita, foi apresentada a Duda Beat. "Ela era incrível. Adoraria aprender mais sobre artistas e escritores brasileiros", disse, antes de pedir uma lista de recomendações. O cinema brasileiro também entrou na conversa: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, foi mencionado por ela com curiosidade genuína. "Minha mãe foi ver e adorou. Preciso assistir." Sobre quando volta, a britânica não se preocupou em nos deixar com expectativas: "Pergunto para o meu agente todo dia como fazer acontecer. Não tenho uma data ainda, mas prometo que estarei aí, se não este ano, no próximo." Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!
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