Jornal O Globo
Você abre o aplicativo, rola a tela, e um influenciador aparece compartilhando um treino sem qualquer formação na área. Passa o vídeo e surge outra pessoa contando sobre a sua última maratona e como todos devem ter como objetivo correr 42 quilômetros. Em outra publicação, alguém fala como se fosse o hábito mais simples do mundo que acordou antes de o sol nascer para colocar os treinos em dia. O excesso de informações sobre atividade física e a pressão gerada pelas redes sociais são sentidas por qualquer um que utiliza as plataformas: a cobrança por performance e o número de tutoriais que prometem melhorá-la nunca foi tão grande. Mas o quanto isso pode impactar a saúde mental? E o quão mais suscetíveis a esses riscos estão atletas jovens, que estão construindo a sua identidade em meio ao ambiente de competição e desempenho? — O atleta jovem já é uma pessoa que tem uma carga de pressão acima da média para a idade, diferente de crianças que só vão para a escola. E as redes sociais, por si só, também são um fator de aumento de ansiedade, de estresse e de mais pressão. Então, é uma combinação de fatores que pode sobrecarregar um indivíduo que não tem a capacidade que nós adultos temos de lidar com a pressão, com a comparação diária — diz Miguel Bunge, psicólogo especializado em infância e adolescência, autor do livro “Criação Consciente” (Editora Casa do Editor). Essa equação pode levar a um impacto significativo na saúde mental de qualquer um, porém Simone Domingues, psicóloga especialista em psicologia clínica, com pós-doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille, na França, concorda que os mais novos são mais suscetíveis por ainda estarem numa fase de desenvolvimento identitário e emocional. — Do ponto de vista psicológico, um dos principais riscos está na intensificação da comparação social. Jovens atletas são constantemente expostos a recortes idealizados de desempenho, corpo e rotina de treino de outros atletas, o que pode distorcer a percepção de realidade e gerar sentimentos de inadequação, inferioridade e frustração. Isso é particularmente relevante em adolescentes, cujo senso de valor pessoal ainda está muito atrelado à validação externa — diz. Além disso, ela lembra que as plataformas digitais funcionam como uma “vitrine pública”, em que resultados, conquistas e falhas são amplamente expostos e julgados. Esse processo favorece padrões rígidos de autoexigência, muitas vezes inadequados para a faixa etária; medo de errar e dificuldade de lidar com as frustrações – todos fatores associados a um maior risco de ansiedade, burnout e até abandono precoce do esporte. — A possibilidade de críticas, comentários negativos ou baixa interação, como curtidas, visualizações, pode ativar mecanismos de hipervigilância e insegurança, impactando diretamente a autoconfiança e o foco atencional durante treinos e competições. E essa fase da vida é marcada pela pela maior influência do grupo social. A autoimagem ainda é instável e fortemente dependente de feedback externo, o que intensifica o impacto de comparações sociais e julgamentos — acrescenta Simone. Os especialistas contam que essa maior vulnerabilidade está atrelada também a questões biológicas do desenvolvimento do próprio cérebro. Regiões subcorticais, como o sistema de recompensa, ficam altamente reativas durante a adolescência, tornando o jovem mais sensível a estímulos de aprovação social, novidade e reforço imediato, como os que as redes proporcionam. — O cérebro termina de se formar lá pela fase adulta, aos 24, 25 anos. A última área do cérebro que se forma é justamente a parte frontal, que é relacionada a pensamentos mais racionais, planejamento e execução. Então o jovem é um indivíduo que ainda não tem um pensamento crítico consolidado — afirma Bunge. Riscos de recomendações online Outro efeito negativo é o excesso de informações sobre atividades físicas que não são necessariamente indicadas para o perfil do atleta ou até mesmo validadas cientificamente, conta o professor de Psicologia do Esporte da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Raphael Zaremba: — Quando pensamos em jovens atletas, são indivíduos que talvez não tenham acesso a tanta informação de qualidade e podem acabar sendo alvos fáceis para “profissionais” não tão preparados, ou até mesmo aventureiros que não têm conhecimento de um assunto, mas que vão ali para as redes vender ideias que, muitas vezes, não fazem absolutamente nenhum sentido. Nesse contexto, o jovem pode acabar seguindo recomendações não adequadas para a sua faixa etária, que favorecem o risco de lesões ou até mesmo que contrastam com as orientações de seu técnico ou professor, prejudicando a confiança no profissional e o desempenho no esporte. — Esse excesso favorece a insegurança e a perda de confiança no processo. O atleta passa a questionar constantemente se está treinando “certo”, se sua alimentação é adequada ou se deveria estar fazendo algo diferente. Esse padrão de dúvida contínua pode comprometer a consistência, que é um dos pilares do desenvolvimento esportivo, e aumentar a ansiedade de desempenho. O atleta passa a operar em um estado de hiper monitoramento, tentando aplicar múltiplas técnicas ou corrigir vários aspectos simultaneamente com base no que viu online — diz Simone. Para Zaremba, o cenário reforça a importância de buscar profissionais capacitados para orientar o jovem e tirar suas dúvidas. Além disso, de instruir os atletas a evitarem acreditar em tudo que se encontra nas plataforma digitais e a seguir recomendações de desconhecidos: — É importante procurar pessoas que efetivamente tenham uma formação, tenham um conhecimento comprovado na área, para que você possa ter uma orientação que tenha fundamento e faça sentido. Esse é o ponto-chave. Sinais de alerta e o que fazer Entre os sinais de alerta que as redes podem estar prejudicando o jovem atleta, os especialistas citam uma mudança na relação com a própria identidade e autoestima, como quando o adolescente passa a vincular seu valor pessoal e motivação à repercussão on-line e à validação externa. — Outro indicativo importante é o aumento de comparação social disfuncional, que se manifesta por pensamentos recorrentes de inferioridade, sensação de estar “sempre atrás” ou necessidade constante de se equiparar a outros atletas. Clinicamente, pode aparecer associado a ansiedade, irritabilidade, queda de autoconfiança e desmotivação — diz Simone. Sinais como perda de foco em treinos, necessidade de acessar o celular em momentos inadequados ou queda na qualidade do sono são outros marcadores importantes. Aumento de autoexigência rígida, dificuldade em tolerar erros, frustração intensa após desempenhos considerados baixos e até evitar competições e treinos também podem indicar que a influência das redes está se tornando disfuncional. Para contrapor esses malefícios, Simone recomenda ações que passam por educação emocional, desenvolvimento de senso crítico sobre o conteúdo consumido, fortalecimento da identidade para além do desempenho esportivo e, quando necessário, acompanhamento psicológico para promover regulação emocional e construção de uma autoimagem mais estável e realista. — Nem todo conteúdo disponível é confiável ou aplicável à sua realidade. Aprender a questionar fontes, entender que rotinas divulgadas são recortes e reconhecer diferenças individuais reduz a tendência à comparação disfuncional e à adoção de práticas inadequadas. Ela recomenda ainda estabelecer limites claros de uso das redes, evitar o uso antes de dormir e treinar a atenção para o presente. Initial plugin text
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