Jornal O Globo
A prolongação da guerra no Oriente Médio impediu centenas de pessoas e, sobretudo, delegações de Israel, de participarem este ano da Marcha dos Vivos na Polônia, um evento que reúne a comunidade judaica global desde 1988 com o objetivo principal de manter viva a memória do Holocausto em dois lugares emblemáticos: Auschwitz e Birkenau, dois dos principais campos de concentração nazistas. Segundo guias que há mais de duas décadas participam da marcha junto a delegações internacionais, este ano o número de participantes não ultrapassou cinco mil pessoas, muito abaixo das 8.500 que estiveram presentes em 2025. Dificuldades logísticas, medo e, também, divisões dentro da comunidade judaica sobre como se posicionar sobre a guerra desencadeada pelo ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro passado, reduziram de forma expressiva a dimensão da marcha este ano. Guerra no Oriente Médio: Irã pode resistir 'por semanas ou até meses' a bloqueio do Estreito de Ormuz pelos EUA, diz jornal Ataques no mar: Trump ameaça destruir embarcações do Irã com ‘mesmo sistema de morte’ usado no Caribe após início de bloqueio no Estreito de Ormuz Muitos sobreviventes do Holocausto não puderam chegar até a Polônia, confirmou ao GLOBO Irene Shashar, uma das poucas representantes de um grupo que diminui a cada ano que passa. Aos 88 anos e com uma força admirável, Irene subiu ao palco ao lado de dois ex-reféns do grupo terrorista Hamas, a soldado e violinista Agam Berger, libertada em janeiro do ano passado, e Omri Miran, que ficou 738 dias sequestrado na Faixa de Gaza após o ataque de 7 de outubro de 2023. — Este é um ano especial, diferente. A guerra nos limitou — diz Irene, que conseguiu sair de Israel num voo fretado, durante uma janela de tempo em que foi possível viajar para o exterior, na semana passada. A guerra no Oriente Médio esteve presente nos discursos e nas conversas informais durante a marcha. Mas não foi o tema dominante. O que mais se ouviu nos últimos dias entre judeus que vieram até a Polônia foi um alerta sobre o aumento do antissemitismo no mundo. Na marcha e em eventos paralelos na cidade de Cracóvia, esse temor foi onipresente. Um dos que fizeram um alerta contundente foi Yehuda Kaploun, rabino israelense de Chabad-Lubavitch nomeado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como enviado Especial para Monitorar e Combater o Antissemitismo no Departamento de Estado. — Estamos chegando a níveis só vistos durante o nazismo — declarou Kaploun, amigo de Trump há mais de 20 anos. Segundo contou a participantes da marcha, o presidente dos EUA o escolheu para o posto por ser um amigo pessoal e um homem de sua confiança. — Vamos vencer a batalha contra o ódio e o antissemitismo — disse o enviado de Trump aos participantes da marcha, em momentos em que a guerra no Oriente Médio está cercada de incertezas, com tentativas de diálogo que não prosperam. Initial plugin text Na Polônia, jovens falaram em eventos em Cracóvia sobre como passaram a conviver com o medo após o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, e representantes da diáspora judaica insistiram em discursos sobre o combate “ao mal”. — Na marcha foram lembrados casos de antissemitismo na Austrália, EUA e Reino Unido. Há um mandato claro das autoridades [da comunidade judaica e de Israel] de não se calar, de não ter medo. Se os céus estivessem abertos, teríamos oito mil pessoas aqui — comenta o empresário argentino Gastón Taratuta, que levou um grupo de cerca de 40 pessoas ao evento. Para ele, “a presença de representantes das forças policiais de dezenas de países mostrou que o mundo está preocupado com os ataques contra judeus e a Humanidade”. Depois de ter participado de mais de dez marchas, o historiador Yoel Schvartz ficou impressionado com a redução das delegações este ano. — Da Argentina, onde vive uma das maiores comunidades judaicas fora de Israel, vieram quatro delegações. Em 2025, foram mais de dez. Houve problemas logísticos, mas também medo e uma divisão no mundo judeu sobre a guerra — explica Schvartz. Segundo ele, “algumas pessoas não vieram por temor a serem associadas a políticos e a uma guerra que não apoiam". — Acho que essa divisão deve ser acentuar nos próximos tempos — completou. O político que mais divisões gera dentro do mundo judeu dentro e fora de Israel é o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu. Ao ser perguntada sobre o premier israelense, a sobrevivente do Holocausto responde, sem rodeios, que mais da metade de Israel o quer fora do poder. — Queremos eleições e queremos uma mudança no país — diz Irene Shashar de forma taxativa. Apesar do cessar-fogo: Ataque de Israel a Gaza mata dez pessoas, entre elas, uma criança de três anos Com uma vitalidade impactante e uma história de vida comovente, esta mulher que, junto à sua mãe, sobreviveu ao Holocausto fugindo do Gueto de Varsóvia pelo esgoto após encontrar seu pai morto no chão da casa da família, não escondeu sua posição política. Com a mesma força que defende a memória do Holocausto e o fim do antissemitismo no mundo, Irene afirma que mais da metade da população israelense quer uma guinada política no país. — Eu sou contra Netanyahu e a favor de julgar quem estava no poder quando sofremos o ataque de 7 de outubro de 2023 — conclui ela. * A repórter viajou a convite do Aleph Group
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