Jornal O Globo
As Forças Armadas do Irã ameaçaram nesta quarta-feira iniciar um bloqueio ao tráfego naval no Mar Vermelho, ao qual a nação persa não tem acesso territorial, caso os EUA persistam com um plano de impedir a entrada e saída de embarcações em portos iranianos e no Estreito de Ormuz. A ameaça por parte de Teerã foi endereçada horas após o anúncio do Comando Central dos EUA (Centcom) sobre a "plena aplicação" do bloqueio entre a noite de terça-feira e a madrugada desta quarta — o que é denunciado pela parte iraniana como uma violação ao cessar-fogo de duas semanas acordado entre os rivais para conversas diplomáticas mediadas pelo Paquistão. Investigação: Irã usou dados de satélite-espião comprado de empresa chinesa para atacar bases dos EUA em março, diz jornal 'Piratas de Ormuz': Com memes e IA, humor vira arma de guerra viralizada de embaixadas do Irã para zombar e ironizar Trump — As poderosas Forças Armadas da República Islâmica [do Irã] não permitirão qualquer exportação ou importação no Golfo Pérsico, no Mar de Omã ou no Mar Vermelho — afirmou o general Ali Abdollahi em um comunicado divulgado pela TV estatal, após acusar Washington de "criar insegurança para os navios comerciais do Irã e para os petroleiros", no que se referiu como "prelúdio" de uma violação do cessar-fogo em vigor desde 8 de abril. Initial plugin text A guerra entre a aliança formada por EUA e Israel contra o Irã provocou um grave choque na economia mundial com a instabilidade provocada no Estreito de Ormuz, rota por onde passava 20% do petróleo e do gás natural produzido no mundo antes do conflito. A reabertura da via marítima era o ponto central da frágil trégua obtida para interromper os conflitos por duas semanas, mas após a fracassada rodada de negociação entre os países em Islamabad, o presidente americano, Donald Trump, anunciou um bloqueio a todos os navios que tentassem entrar ou sair de Ormuz — medida apontada como uma forma de sufocar financeiramente o Irã e impor pressão sobre a China, uma grande importadora do petróleo bruto da região, que continuava tendo acesso a parte da produção. Em uma publicação nas redes sociais, o almirante Brad Cooper, comandante do Centcom, afirmou que o bloqueio ordenado por Trump teria sido "totalmente implementado", interrompendo a maior parte da atividade econômica de Teerã em apenas um dia e meio. "Estima-se que 90% da economia do Irã seja impulsionada pelo comércio internacional por via marítima. Em menos de 36 horas desde a implementação do bloqueio, as forças dos EUA interromperam completamente todo o comércio econômico que entra e sai do Irã por mar", disse Cooper. Initial plugin text O bloqueio naval americano conta com uma Armada de mais de 10 navios de guerra, além do maior contingente militar deslocado para a região desde a invasão do Iraque, em 2003, incluindo forças de operações especiais e fuzileiros navais. O ex-capitão da Marinha dos EUA Carl Schuster explicou, em entrevista à rede americana CNN, que o bloqueio não era propriamente uma barreira física, e que os navios provavelmente sequer estão dentro de Ormuz neste momento. Contudo, os equipamentos que foram enviados para a região permitiriam perseguir e interceptar qualquer embarcação. Mesmo com todo o poderio bélico destacado, há indícios de que o tráfego em Ormuz não parou inteiramente. Dados de rastreamento marítimo de terça‑feira — quando o bloqueio estava em curso, segundo o Centcom —, apontam que vários navios zarparam de portos iranianos e atravessaram Ormuz. Em uma publicação no X nesta quarta, o perfil oficial do Centcom afirmou que nenhum navio "saindo ou entrando de portos iranianos" conseguiu passar pelas forças dos EUA "durante as primeiras 48 horas" de bloqueio. Além disso, nove navios teriam cumprido instruções para dar meia-volta e retornar a um porto ou área costeira. Initial plugin text Especialistas em inteligência marítima afirmam que cada vez mais navios em Ormuz e ao redor da rota parecem estar adotando táticas para evitar serem detectados pelo sistema global que monitora o tráfego marítimo. Entre as estratégias, os navios estariam desligando seus transponders — equipamentos de localização que grandes embarcações comerciais são obrigadas a utilizar, segundo o Direito Internacional — ou alterando dados abastecidos nos sistemas globais, a fim de manipular sua localização, origem ou destino. Um relatório divulgado nesta terça-feira pela provedora de dados de inteligência marítima Windward apontou que navios iranianos "apagaram" seus sinais, enquanto embarcações sancionadas e com bandeiras falsas continuam ativas — o que torna uma leitura precisa do real tráfego por Ormuz muito difícil de ser checada de forma independente. (Com AFP e NYT)
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