Jornal O Globo
Mark Mobius, que colocou os mercados emergentes no radar dos investidores com análises feitas in loco ao longo de mais de quatro décadas de constante deslocamento, faleceu hoje aos 89 anos. A informação foi confirmada em post em sua página do Linkedin atribuído à sua porta-voz, Kylie Wong. Segundo John Ninia, sócio da Mobius Investments, disse que ele morreu em Cingapura. Em mais de 30 anos na Franklin Templeton Investments, Mobius tornou-se um evangelista das oportunidades de ganhos na África, Ásia, Europa Oriental e América Latina. Em meio a uma multidão de consultores de investimento, destacava-se, em parte, pela cabeça perfeitamente raspada, que lhe rendeu o apelido de “Bald Eagle”. Contratado em 1987 por John Templeton, um pioneiro em levar investidores americanos a empresas no exterior, Mobius criou um dos primeiros fundos mútuos dedicados a mercados emergentes de rápido crescimento. Ele supervisionou o Templeton Emerging Markets Group até 2016, foi gestor principal do carro-chefe Templeton Emerging Markets Investment Trust até 2015 e se aposentou em janeiro de 2018. De 1989 até sua aposentadoria, o fundo fechado teve retorno médio anual de 13,4%, segundo a Morningstar Direct. A partir de 2001, quando foi lançado o índice MSCI Emerging Markets, o fundo da Templeton superou esse benchmark em média em 1,9 ponto percentual ao ano, de acordo com a Morningstar. “Mark Mobius é para o investimento em mercados emergentes o que o Coronel Sanders é para o frango frito”, disse Peter Douglas, diretor para Cingapura da Chartered Alternative Investment Analyst Association, quando Mobius deixou a gestão de portfólio. “Ele é o ícone da indústria e foi o maior entusiasta global dos mercados emergentes.” Baseado em parte em Cingapura, Mobius viajava de 250 a 300 dias por ano em um jato privado Gulfstream IV, visitando fábricas e distribuidores em regiões remotas do mundo para identificar oportunidades de investimento. Ele previu corretamente o início de um mercado de alta que começou em 2009, aproveitou barganhas durante a crise financeira asiática após a Tailândia liberar sua moeda em 1997 e comprou ações russas quando as vendas tomaram conta do mercado em 1998. Também foi um dos primeiros investidores institucionais a identificar a África como uma promissora fronteira de investimento, criando o Templeton Africa Fund em 2012. “Testar na prática” “Acredito em sair a campo e testar na prática”, escreveu em 2015. “Prefiro ver com meus próprios olhos o que está acontecendo em uma empresa ou país. Mentiras podem ser tão reveladoras quanto a verdade, se você souber identificar os sinais.” No mês passado, em sua coluna no Substack, ele compartilhou suas reflexões sobre a guerra no Irã e seu impacto nos mercados acionários. Mobius fundou a Mobius Capital Partners, com sede em Londres, em 2018 e supervisionou fundos de gestão ativa focados em ações de mercados emergentes. Ele deixou a empresa no fim de 2023, mas continuou buscando oportunidades de investimento, criando um novo empreendimento em Dubai, onde viveu por três anos. A Franklin Resources foi fundada em 1947 e tem sede em San Mateo, Califórnia. A empresa adquiriu a gestora de John Templeton — Templeton, Galbraith & Hansberger — em 1992, formando a Franklin Templeton Investments. Joseph Bernhard Mark Mobius nasceu em 17 de agosto de 1936, em Bellmore, em Long Island, Nova York. Seu pai alemão, Paul Mobius, era cozinheiro e padeiro em navios. Sua mãe, Maria Louisa Colon, era porto-riquenha. Com seus dois irmãos, Hans e Paul, Mobius cresceu em um ambiente em que se falava alemão e espanhol em casa. Em 1955, recebeu uma bolsa para estudar artes dramáticas na Boston University e trabalhou como pianista em uma boate para ajudar a pagar seus estudos. Obteve um bacharelado em belas-artes e um mestrado em comunicação. Estudos em Kyoto Ele conseguiu uma bolsa para estudar cultura e língua japonesas em Kyoto, o que despertou seu desejo de viver e trabalhar na Ásia. Após obter um doutorado em ciência política e economia pelo Massachusetts Institute of Technology, em 1964, assumiu um cargo na International Research Associates, conduzindo pesquisas e estudos de consumo na Tailândia e na Coreia do Sul por um ano em cada país. Acabou em Hong Kong, onde fundou sua própria consultoria de pesquisa industrial. Um projeto — um relatório sobre o mercado de ações de Hong Kong — foi sua porta de entrada para a análise de valores mobiliários. Seu estilo de cabelo à la Yul Brynner, como descreveu, surgiu nesse período após um incêndio em seu apartamento danificar seu cabelo, levando-o a raspar o restante, segundo sua autobiografia de 1997. Foi contratado pela corretora britânica Vickers Da Costa para criar uma gestora de fundos em Taiwan, a International Investment Trust. Viajou às Bahamas para apresentar oportunidades de investimento a Templeton, que em 1986 perguntou se ele teria interesse em administrar um fundo de mercados emergentes. No ano seguinte, levantaram US$ 100 milhões em capital, listaram o fundo na Bolsa de Nova York e abriram um pequeno escritório em Hong Kong para Mobius e dois analistas chineses. Começaram investindo em seis mercados: Hong Kong, Filipinas, Cingapura, Malásia, México e Tailândia. “É preciso lembrar que, naquela época, a maioria dos países não aceitava investimento estrangeiro”, recordou Mobius em uma entrevista de 2022 a Barry Ritholz para o podcast Masters in Business, da Bloomberg. “Também eram países socialistas ou comunistas, como China e Rússia. A Europa Oriental estava fora de cogitação, claro. Então tínhamos apenas seis mercados para investir, e depois começamos a expandir. Gradualmente, os mercados foram se abrindo. E, eventualmente, estávamos investindo em algo como 70 países diferentes ao redor do mundo.” Crash de 1987 Após perder um terço do valor de seu fundo no crash do mercado de ações de outubro de 1987, em seu primeiro ano com a Templeton, Mobius diversificou para outros mercados, incluindo Argentina, México, Indonésia e Rússia. Mobius escreveu mais de uma dúzia de livros sobre investimentos e economia, incluindo The Investor’s Guide to Emerging Markets (1994) e Passport to Profits (1999). Compartilhou regras e aforismos como: “Se você vê a luz no fim do túnel, já é tarde demais para comprar.” Em 1999, foi convidado a integrar o Global Corporate Governance Forum do Banco Mundial como copresidente de uma força-tarefa sobre responsabilidade dos investidores. Mobius nunca se casou. Em Passport to Profits, escreveu que havia custos e benefícios em ser um “nômade em tempo integral — uma espécie em extinção que sempre admirei por sua feroz independência, sua recusa em seguir normas convencionais e seu desejo intenso de liberdade”. “Embora algumas pessoas provavelmente sintam pena de mim por não ter casa, família ou vida doméstica digna de nota”, escreveu, “meu estilo de vida um tanto excêntrico oferece incontáveis oportunidades de variedade, estímulo e criatividade.”
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