Jornal O Globo
O Departamento de Estado dos EUA acusou o governo cubano de facilitar o recrutamento de cinco mil pessoas para lutar ao lado das tropas da Rússia na Ucrânia. De acordo com um documento obtido pelo portal Axios, os cubanos já são identificados como um dos maiores contingentes estrangeiros nas linhas russas, apesar das autoridades locais não incentivarem oficialmente o recrutamento. A revelação ocorre em meio a uma severa crise entre Havana e Washington, que envolve um bloqueio quase total e pedidos por mudança de regime. Em alerta: Cuba diz se preparar para possível ataque dos EUA em meio a crise energética Entenda: Cuba acusa os EUA de extorquir países latino-americanos para asfixiar ilha Pelo relatório de cinco páginas enviado ao Congresso, "os registros públicos não comprovam que Havana tenha enviado oficialmente todos os combatentes cubanos", mas “existem indícios significativos de que o regime tolerou, permitiu ou facilitou seletivamente esse fluxo de forma consciente”, como demonstração de "apoio diplomático e político a Moscou". "Os cidadãos cubanos aparecem como um dos maiores grupos identificáveis de combatentes estrangeiros que apoiam as operações militares russas na Ucrânia", afirma o relatório, enviado ao Congresso no dia 8 de abril. "As estimativas variam, mas a maioria das informações de fontes abertas sugere que entre 1.000 e 5.000 cidadãos cubanos estão lutando na Ucrânia [...] e fontes da inteligência ucraniana estimam que vários milhares estejam destacados diretamente na linha de frente." Além dos cubanos, as tropas russas lutam ao lado de combatentes vindos da Coreia do Norte — com aval de Pyongyang —, Índia, Nepal, Sri Lanka e Quênia, muitas vezes atraídos por promessas de dinheiro ou por ofertas falsas de empregos longe das linhas de frente. Segundo levantamentos independentes, cerca de 3,3 mil estrangeiros morreram do lado russo desde 2022. A Ucrânia também mantém sua legião estrangeira, com apoio estatal, que atraiu milhares de recrutas, inclusive do Brasil. Pressão: Anúncios de Cuba sobre abertura ao investimento 'não são drásticos o suficiente', diz secretário de Estado dos EUA A presença de recrutas cubanos na Ucrânia foi revelada pela primeira vez em 2023 pelo jornal The Moscow Times. Na época, a publicação revelou que recrutadores atraíam os potenciais combatentes com promessas de dinheiro, realocação e a cidadania russa para eles e seus parentes. Há um considerável número de cubanos na Rússia, resquício dos tempos da União Soviética, e eles se tornaram os primeiros “alvos”. Publicações em grupos usados pela comunidade no Facebook traziam ofertas de salários de 204 mil rublos (R$ 13 mil), além da cidadania russa. Em outra frente, os representantes do Exército entravam contato com civis em Cuba dispostos a lutar na guerra — cidadãos cubanos não precisam de visto para a Rússia, e há voos regulares entre os dois países. — Muitos jovens vêm direto de Cuba para ganhar dinheiro aqui. Eles não são cubanos locais. Não ficam em Moscou, assinam contratos imediatamente e vão lutar”, disse um tradutor que trabalha com diáspora cubana, em entrevista ao Moscow Times, em 2023. — E depois desaparecem. Seus parentes tentam encontrá-los através da diáspora cubana ou das redes sociais. Mas não temos nada a ver com isso. Muito provavelmente, foram mortos. Bloqueio classificado de 'ilegal': Congressistas democratas dos EUA denunciam 'bombardeio econômico' contra Cuba após visitar Havana Na ocasião, o governo cubano anunciou o desmantelamento de uma rede de recrutamento e a abertura de processos contra 40 pessoas. Mas na opinião do Departamento de Estado, "o sistema judicial opaco do regime torna essas afirmações inverificáveis". As acusações engrossam a ofensiva contra o governo de Cuba, alvo de um bloqueio econômico e sob ameaça direta de uma intervenção destinada à mudança de regime, propagandeada pelo presidente Donald Trump. Desde o início do ano, petroleiros e navios com outros bens essenciais são proibidos de atracar em portos cubanos, agravando a crise energética e econômica na ilha. Algumas das poucas exceções foram concedidas à Rússia, que obteve permissão para atracar um petroleiro no final de março e que anunciou um novo carregamento de petróleo. — Enviamos o primeiro navio-tanque com 100 mil toneladas (700 mil barris) de petróleo para Cuba. Claro que isso provavelmente durará alguns meses, não sou especialista — disse o chanceler russo, Sergei Lavrov, em entrevista coletiva na China nesta quarta-feira, acrescentando esperar que os EUA não retornem aos tempos das “guerras coloniais”. Indultos em xeque Nesta quarta-feira, a Anistia Internacional exigiu mais transparência no processo de soltura de prisioneiros iniciado no começo do ano e viabilizado após negociações com o Vaticano. Na última rodada de libertações, durante a Semana Santa, 2.010 pessoas receberam indulto, mas a ONG criticou a ausência de uma lista dos beneficiados, e pediu que Havana “deixe de usar a liberdade como moeda política”, acrescentando que nenhum dos identificados pela Anistia como “presos de consciência” foram soltos. Na terça-feira, a ONG Cubalex relatou que 24 presos políticos, quase todos detidos nos protestos de julho de 2021, ganharam a liberdade recentemente. "Chegou a hora de substituir os anúncios parciais, obscuros, revogáveis e sem garantias pela libertação imediata e incondicional de todas as pessoas presas unicamente por exercerem seus direitos humanos", disse Ana Piquer, diretora da Anistia Internacional para as Américas. Recentemente, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, disse que não há presos políticos no país. (Com AFP)
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