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Sexo antes do treino aumenta a força? Saiba o que acontece com o corpo
Jornal O Globo

Sexo antes do treino aumenta a força? Saiba o que acontece com o corpo

Em meio a uma cultura de otimização do desempenho físico, que atravessa desde o treino até o sono e a alimentação, a sexualidade também passou a ser incorporada a esse repertório como possível variável de performance. Nas redes sociais, circulam conteúdos que afirmam que sexo ou masturbação poderiam elevar testosterona, força e rendimento esportivo. No entanto, essa relação é mais limitada do que sugere o discurso digital. Prazer consciente: como a geração Z está transformando o sexo e a intimidade Sexo ficou em segundo plano? Geração Z valoriza sono, carreira e momentos a sós, aponta estudo O médico e terapeuta sexual João Borzino explica que a leitura mais consistente da literatura científica não sustenta a ideia de ganho relevante de performance. "A melhor síntese é outra: atividade sexual antes do exercício não parece prejudicar o desempenho e, quando aparece alguma alteração hormonal aguda, isso não equivale automaticamente a ganho prático e relevante de força", diz. Na mesma linha, o treinador Fabio Aquino contesta a associação direta entre atividade sexual e aumento de desempenho físico. "Existe uma crença antiga de que a abstinência elevaria a testosterona e, com isso, o desempenho. Na prática, essa variação hormonal é mínima e não se traduz em ganho real de força, potência ou performance", comenta. O que revelam os estudos sobre sexo antes do treino Entre as evidências citadas por Borzino, estudos disponíveis na literatura científica indicam que a atividade sexual algumas horas antes do exercício não apresenta impacto relevante sobre força, potência, resistência muscular ou capacidade aeróbica. "Em outras palavras, a análise conduzida por Zavorsky e colaboradores não confirma a velha superstição de que sexo 'estraga' a performance, mas também não sustenta a ideia de que funcione como um turbo de força. Já um estudo de Isenmann observou um possível efeito da masturbação sobre a testosterona livre, mas sem alterações estatisticamente significativas nos principais marcadores hormonais, e com os próprios autores pedindo pesquisas adicionais. Em termos práticos, há um sinal biológico interessante, mas sem evidência robusta de impacto no desempenho esportivo", avalia o terapeuta. O médico reforça que oscilações hormonais isoladas não devem ser interpretadas como ganho de performance. Variações de testosterona e cortisol ocorrem por múltiplos fatores e não se traduzem necessariamente em mais força ou aumento de massa muscular. Um estudo mais recente, de Fernández-Lázaro e colaboradores (2026), também investigou o tema e encontrou alterações hormonais e pequenas variações em indicadores de desempenho, mas sem relevância prática significativa. "Os autores observaram elevação de testosterona e cortisol, um leve aumento no tempo total de exercício e discreta melhora na força de preensão manual. Ainda assim, o próprio estudo ressalta que a magnitude dessas mudanças foi pequena, que os resultados devem ser interpretados com cautela e que não devem ser entendidos como estratégia ergogênica. A conclusão central foi: não houve prejuízo relevante de performance. Isso é bem diferente de dizer que houve um ‘boost significativo de força’", observa o especialista. Efeitos reais: mais comportamento do que fisiologia Do ponto de vista prático, Fabio destaca que os efeitos mais perceptíveis da atividade sexual antes do treino são comportamentais, e não fisiológicos. Em alguns casos, pode haver sensação de relaxamento e redução do estresse; em outros, uma leve queda de ativação, dependendo do indivíduo e do contexto. "O que realmente acontece é mais comportamental do que fisiológico. Para algumas pessoas, o sexo pode gerar relaxamento, reduzir o estresse e até melhorar o foco. Para outras, pode trazer uma sensação leve de relaxamento excessivo, o que pode interferir um pouco na intensidade do treino, principalmente se for muito próximo do horário", detalha. Ele acrescenta que o gasto energético envolvido é baixo e não interfere na capacidade muscular. O que impacta a performance, segundo ele, não é o ato em si, mas fatores associados à rotina, como sono e nível de fadiga. "Na prática, o que eu aplico com meus alunos e atletas é simples: se o objetivo é performance máxima, especialmente em treinos de força ou alta intensidade, o ideal é evitar nas horas que antecedem o treino. Agora, dentro de uma rotina normal, isso não faz diferença relevante", completa o treinador. Quando tudo vira performance A discussão, no entanto, ultrapassa o campo fisiológico e alcança também uma dimensão cultural. Para Borzino, a tentativa de transformar diferentes aspectos da vida em variáveis de performance reflete uma lógica contemporânea de otimização constante. O médico menciona que esse movimento já atravessa diversas esferas do cotidiano. "Estamos vivendo numa cultura obcecada por transformar tudo em ganho, em atalho, em performance. Dormir vira protocolo. Comer vira cálculo. Descansar vira biohacking. E agora a sexualidade também corre o risco de ser capturada por essa mentalidade quase vigoréxica, uma busca incessante por um corpo ideal numa era saturada de aditivos fakes, promessas rápidas e slogans de laboratório emocional", pontua. Corpo, vida e experiência humana Nesse contexto, o terapeuta enfatiza que a sexualidade não deve ser reduzida a instrumento de performance física. "Atividade sexual não é tratamento. Não é creatina. Não é pré-treino. 'Atividade sexual é vida. É comunicação. É vínculo. É expressão. É apetência humana. Pode envolver prazer, intimidade, descarga de tensão, encontro, curiosidade, afeto, desejo. Reduzir isso a uma ferramenta de aumento de performance muscular é empobrecer brutalmente a experiência humana. O corpo não é um protótipo'", esclarece. Borzino amplia a crítica para a forma como o organismo é percebido na contemporaneidade, muitas vezes dissociado da experiência subjetiva. "Ele pondera que o corpo não é um produto para ser vendido midiaticamente como se a existência fosse um reality show. Ele é prolongamento da mente, e a mente também se inscreve nele. 'O que sentimos altera a fisiologia. O que vivemos atravessa músculos, sono, apetite, libido, postura, energia, humor, inflamação, foco. Não existe organismo isolado da vida psíquica. E não existe saúde verdadeira quando o sujeito começa a se relacionar consigo mesmo como se fosse uma máquina de produzir aparência. Esse é o erro da nossa época: trocar integração por desempenho. Trocar presença por métrica. Trocar vida por protocolo'", aponta. Ainda assim, Borzino ressalta a importância do cuidado físico, desde que não seja reduzido a uma finalidade de performance. "Mas, claro, devemos cuidar dele. Muito. Ele merece respeito, treino, disciplina, nutrição, descanso e atenção. Mas precisa ser bem cuidado porque é parte integrante de um todo, não porque virou ídolo de uma existência fútil e vazia. É meio, não fim. Quando deixa de ser morada e vira vitrine, alguma coisa já se perdeu no caminho", frisa. O que diz a ciência, afinal Diante das evidências, a resposta à pergunta que circula nas redes sociais — sobre sexo ou masturbação antes do treino aumentarem significativamente testosterona e força — não encontra respaldo científico sólido. Borzino sintetiza a leitura atual de forma direta: não há base consistente para tratar essa relação como estratégia de performance. O que existe é evidência de que a atividade sexual, em condições estudadas, não compromete de forma relevante o rendimento, ainda que oscilações hormonais possam ocorrer sem impacto prático significativo. "No fundo, a pergunta mais séria talvez nem seja sobre testosterona. Talvez seja sobre o que estamos fazendo com a própria condição humana. Estamos mecanizando a vida, enlatando a existência, treinando pessoas para sentir menos e performar mais. Estamos ensinando homens e mulheres a olhar para o próprio corpo não como expressão da vida, mas como peça de engenharia, ativo de mercado e espetáculo de validação. Isso não é evolução. Isso é degeneração", analisa. "E talvez o sinal mais perturbador do nosso tempo seja este: na ânsia de parecermos cada vez mais eficientes, calculáveis e otimizáveis, podemos estar nos afastando justamente daquilo que nos torna humanos. E então, num dia não muito distante, as máquinas talvez nem precisem se parecer conosco. Porque máquinas seremos", conclui.

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