Jornal O Globo
“O que eu queria e continuo querendo é estabelecer um ‘design’ (que chamo Riscadura Brasileira), uma estrutura apta a revelar a nossa realidade — a minha pelo menos — em termos de ordem sensível”. Foi a partir desse trecho escrito pelo artista plástico Rubem Valentim (1922-1991) em seu “Manifesto ainda que tardio” (1976) que os curadores Raquel Barreto e Phelipe Rezende batizaram a exposição que abre sábado (18) no MAM - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Com cerca de 180 obras organizadas a partir de cinco cidades em que o artista viveu, “Rubem Valentim: a ordem do sensível” apresenta a evolução da linguagem visual do escultor, baseada em signos das religiões afro-brasileiras, que o posicionou entre os grandes nomes da arte nacional e mundial do século XX. 'Constelações': Paço Imperial comemora 40 anos com 160 obras de exposições emblemáticas no espaço Bib Gourmand: Os restaurantes de melhor custo-benefício no Rio de Janeiro, segundo o Guia Michelin — No geral, artistas afro-brasileiros não têm tanta visibilidade internacional e, quando têm, dificilmente é em vida, e num lugar como o que Valentim ocupa. Apesar disso, alguns críticos têm uma tendência a diminuir o trabalho dele, como se fosse algo menor, uma arte religiosa, imitação. Na verdade, ele se baseia nessas referências brasileiras para fundar uma linguagem própria, concreta e universal — pontua Raquel, que celebra a possibilidade de apresentar o artista, que só teve individual no MAM em 1970, às novas gerações. Galerias Relacionadas Natural de Salvador, Valentim se formou dentista e jornalista antes de se dedicar exclusivamente à criação artística, ao final da década de 1940. De lá, veio para o Rio, e depois viveu períodos em Roma, Brasília e São Paulo, cada um dos lugares tendo adicionado algo à sua linguagem visual. — Acompanhar essas cidades é uma forma de perceber as transformações de sua maneira de trabalhar. Não se trata de um determinismo geográfico, mas de conjugar questões contextuais, de amadurecimento, de pesquisa, de contatos que são muito perceptíveis, desde as referências até as paletas e formas — diz a curadora. Juntando peças do acervo de cinco instituições artísticas com cerca 30 obras de coleções privadas, a seleção privilegiou obras pouco apresentadas ao público carioca. Dentre as várias esculturas, pinturas e relevos expostos, o grande destaque é a instalação “Templo de Oxalá”, peça do acervo do MAM da Bahia, que serve como síntese da mostra. Criada em 1977 para a 14ª Bienal de São Paulo, a obra é composta por 20 esculturas brancas com alturas entre 1,27m e 2,78m em que Valentim faz diferentes arranjos de oxês, ofás e outras ferramentas de orixás. "Templo de Oxalá", de Rubem Valentim, na 35ª Bienal de São Paulo, em 2023 Levi Fanan/Fundação Bienal de São Paulo Envolta por uma estrutura arredonda vazada branca que vai do chão até quase o teto do segundo andar do MAM, criada pelo expografista Gero Tavares, a instalação convida o visitante a caminhar entre as estruturas verticais como se estivessem de fato num templo. — Nossa ideia foi construir uma ideia de suspensão do tempo. Levar o espectador a sair desse mundo real e ir para outro tipo de experiência do sensível — comenta Phelipe. Espiritualidade Foi ainda em Salvador que Rubem Valentim se voltou para o divino, observando as festas populares, o candomblé e o sincretismo religioso. Inserido na cena modernista local, no início de sua trajetória ele mesclou referências das vanguardas europeias do século XX com estudos de tradições nacionais, como a dos ex-votos. Pouco conhecida do grande público, esta fase da produção inclui obras figurativas, de natureza morta, e com uma paleta de cores bem escura, além de estudos iniciais de forma. Ao mudar-se para o Rio na década de 1950, o ciclo artístico aquecido da então capital o ajuda a se profissionalizar: vira professor de arte e participa de bienais, salões e exposições relevantes. Nas pinturas desse núcleo, já é possível reconhecer algo do vocabulário visual inconfundível de Valentim, que ganhou novos símbolos a partir do contato com a umbanda carioca. — Ele identifica as ferramentas do candomblé, o ponto riscado da umbanda e outros elementos desses cultos religiosos e começa a sintetizar essas formas, construindo com elas uma estrutura vertical, que também dialoga com a ideia de altar — explica Phelipe. Acompanhando a esposa, Lúcia, que foi estudar na Europa, o artista vive em Roma entre 1963 e 1966. Lá, o contato com o crítico Giulio Carlo Argan (1909-1992) o ajuda a intensificar a verticalização de suas obras. Também é neste período que se torna um dos três brasileiros a participar do “I Festival Mundial das Artes Negras”, em Dacar, no Senegal, em 1966. Neste núcleo estão alguns dos poucos estudos da seleção, que mostram a preparação do artista antes de levar suas construções para o mundo tridimensional, com esculturas e relevos, no final dos anos 1960. À esquerda, pintura de Valentim apresentada no I Festival Mundial das Artes Negras. Ao lado, outra do mesmo ano, 1965 Divulgação/Jaime Acioli De volta ao país, passa longa temporada em Brasília, onde atinge a maturidade artística e desenvolve algumas de suas obras mais relevantes, como o “Templo de Oxalá”, e cria o “Alfabeto Kitônico”, com 15 símbolos geométricos que sintetizam sua investigação sobre religião, cultura e forma, apresentado em serigrafias na mostra. — O Valentim dos anos 1970 é o que a gente mais conhece. Ele vai trabalhar esculturas, espaço, cor, madeira, e os elementos da obra dele — diz Raquel, que aponta a paisagem de Brasília como influência marcante para o desenvolvimento dos famosos objetos totêmicos do artista. Série de esculturas de Rubem Valentim expostas no MAM-Rio Ana Branco/Agência O Globo Fechando o percurso expositivo, estão obras criadas em São Paulo, onde ele esteve baseado entre as décadas de 1980 e 1990. Na seleção, os curadores recomendam observar a presença aumentada de altares nas construções, e no sincretismo que toma conta do sistema visual de Valentim. —Ele vai misturando religiões, sistemas de crenças para além das referências afro-brasileiras, como rosacruz, budismo. Ele se torna espiritualista, e vai entendendo o que tem de simbólico nessas religiões. Serviço Onde: Museu de Arte Moderna (MAM), Aterro do Flamengo. Quando: Qua a dom e feriados, das 10h às 18h. Até 2 de agosto. Abertura sábado (18). Quanto: grátis, com contribuição voluntária sugerida de R$ 20, para adultos, e R$ 10, para crianças e idosos.
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